Rico Dalasam no EP Dolores Dala Guardião de Alívio, Entrevista com o artista paulista sobre a criação e os próximos lançamentos!
Lembro bem do dia que ouvi “Riquíssima” (talvez) o maior hino da discografia de Rico Dalasam e senti perspicácia, atitude, inteligência. Diferente da maioria de outros artistas que se propuseram a fazer rap para militar como LGBT+, o som não era clichê, não tinha excesso de gírias para causar “lacração”, e o que mais impactou: tecnicamente avançado. A sonoridade dançante com um flow incrível e referências inteligentes me fez achar alguém original demais e aquilo acabou sendo uma experiência estética.
Três anos depois, mais precisamente em 2019, chega no WhatsApp de várias pessoas, inclusive no meu, um material do que seria algo novo do artista, era uma demo de “Braille” e o choque que muita gente levou por se tratar de uma virada total no seu estilo mas que ainda assim era bom e extremamente tocante, me fez sentir de novo a originalidade vivenciada tempos atrás. Entendendo que em se tratando do que esse artista apresenta como arte, até então, pode brincar no estilo que quiser, da forma que quiser, que seu resultado se mostrará positivo.
Depois de três anos, Rico não só retorna ao aplicativo de mensagem, mas também com o seu novo EP “Dolores Dala o guardião do Alívio” e em entrevista ao Oganpazan, ele contou mais sobre, desde a concepção a concretização da idéia que teve para marcar seu retorno.
Oganpazan – Sobre o que é esse EP?
Rico Dalasam – “Esse EP é, antes de tudo, a introdução ao próximo disco, e ele fala sobre dualidade, como todas as outras coisas que faço, e a dualidade escolhida para ele foi a dor e o alívio. Vou tratar de situações que aconteceram comigo nesses anos mas sempre nesse espectro. “Braille” e “Mudou Como?” são criações sobre relacionamento inter-racial e como as marcas de algo colonial ainda perduram, esse é o momento da dor. O alívio vem como “Vividir”, e “DDGA” é sobre um corpo preto na América do Sul no meio das palavras.”
Assim como citado a cima, no momento que muitos ouviram “Braille”, se surpreenderam (positivamente) com a sonoridade adotada para esse momento da carreira do artista, muito diferente do que estávamos habituados a ouvir do cantor, questionei sobre como se deu o processo criativo envolvendo a sonoridade.
Oganpazan – Quais as influências para esse trabalho?
Rico Dalasam – “A gente passa por diversos lugares. Se você for mexer em “Braille”, vai ver que ali, por mais que tenha um lugar do R&B, também encontra um pandeiro seco, filtrado, que remete a algo brasileiro. Se você for mexer com “Vividir”, você vai entender que ali tem melodias brasileiras de um lugar mais mineiro, mais Clube da Esquina, por mais que seja calçado num afropop. Então, sempre volta para as coisas brasileiras.”
Em alguns trabalhos mais antigos de Dalasam, participações já eram apresentadas ao público. Até mesmo nas coisas mais novas, como em “ALL YOU NEED IS LOVE”, música recém lançada com Jup do Bairro e Linn da Quebrada, demonstram que ele sempre traz coisas interessantes quando se junta com mais artistas, seja para um projeto seu ou não, como em “Mandume” e “Sinfonia da Revolução”.
Oganpazan = Quem está envolvido no projeto?
Rico Dalasam – “Eu nunca faço nada sozinho, por mais que eu tenha o olhar para produção, escreva as coisas e crio as melodias. O Dinho e o Mahal já são parceiros meus a muito tempo, o Dinho Souza está comigo em “Braille”, “DDGA” e “Vividir” e o Mahal Pita em “Mudou Como?” que tem a participação especialíssima do Chibatinha, guitarrista do ÀTTØØXXÁ.
Receber o primeiro single do EP por aplicativo de mensagem fez com que as pessoas se perguntassem se aquilo seria o marco de início ou de conclusão do processo de criação de algum trabalho maior. O questionamento foi trazido:
Oganpazan – E desde quando vem sendo trabalhado?
Rico Dalasam – Essas músicas estão sendo escritas e produzidas desde 2018, e aí ano passado a gente separou essas para contar uma história. É uma outra sonoridade, outro caminho… a letra, a lírica. A gente voltou a juntar o jeito de rimar com a melodia. O acabamento é popular, mas sem pretensão de ser “popzão” e conseguindo preservar o lugar da rima.
Oganpazan – Você falou que o EP é uma intro para o futuro álbum, qual parcela ele tem nessa idéia?
Rico Dalasam – A idéia do EP é sobre construir uma narrativa, sabe? Quando a gente jogou “Braille” no WhatsApp para as pessoas foi nessa sensação de entender como contar uma história. Elas (as músicas) fazem parte de um mesmo momento, da mesma pesquisa. São histórias do mesmo instante.
Rico Dalasam está, mais uma vez, muito bem no que se propôs a fazer. O EP é intimista e ao mesmo tempo popular a ponto de convidar as pessoas a se colocarem em seu lugar, principalmente os indivíduos negros, já que tudo parte do olhar de um preto sobre um momento da vida em que relações afloram. Traduz fortemente (por mais que de forma delicada) as inquietações sentimentais do homem gay negro que vive, por exemplo, um relacionamento inter-racial e quer falar sobre isso, e quando fala, revoluciona muito mais do que fazer um som egotrip batendo na tecla que todo seu público já entendeu. É novo, sincero e bom.
Obra concebida e produzida por Rico Dalasam
Mahal Pita (Mudou Como?)
Dinho Souza (DDGA,Braille,Vividir)
Selfie de elevador, capa Oga Mendonca @ogamendonca
Fotos: Larissa Zaidan
-Rico Dalasam no EP Dolores Dala Guardião de Alívio, Entrevista
Por Soffio
Danilo
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