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“Outro Prisma”: Dr. Drumah, Elo da Corrente & Matéria Prima, mestres da cultura!

Outro Prisma

Com produção de Dr. Drumah, Elo da Corrente & Matéria Prima rimando e DJ Mako riscando, “Outro Prisma” é obra de mestres!

Como seguir ao longo de mais de 2 décadas de construção artística, tendo alcançado os mais elevados patamares artísticos e estéticos da cultura Hip-Hop no Brasil, mas ainda assim não sendo nunca o sucesso do momento? Em um cenário como o do rap brasileiro, esse “supergrupo” formado por Elo da Corrente (Caio & Pitzan), Matéria Prima e Dr. Drumah, responsável por dezenas de trabalhos consagrados cada, nos ensina: é tudo uma questão de se colocar em “Outro Prisma”.

O grupo paulista Elo da Corrente, o mineiro Matéria Prima e o baiano Dr. Drumah vivem e enxergam o mundo e a cultura sob outra ótica, todos possuem inumeráveis serviços prestados ao Hip-Hop nacional e se você não os conhecia, se prepare, pois após ouvir “Outro Prisma”, você terá literalmente 3 universos musicais para explorar. Hoje, eles constituem o universo dos mestres da cultura que seguem produzindo com uma visão que não se rende a modismos, mas que também não se estagnou. 

Não é fácil, muitos dos que os ouviam ali pelo começo dos anos 2000, constituíram família e hoje provavelmente se consideram homens de bens, relegando ao passado juvenil a sua participação na contracultura. Alguns de seus colegas de profissão seguem, mas aderiram aos seus desejos inconfessos de conservadorismo, respeitabilidade e tem até bolsonarista, aluno de Olavo de Carvalho. Esse efeito é comum, seja no punk, no reggae ou mesmo na cultura Hip-Hop. Mas, basta vermos o videoclipe da faixa T.R.F. para percebermos porque eles não se rendem. 

Permanecer enxergando o mundo sobre um “Outro Prisma”, sem sucumbir aos poderes constituídos não é tarefa fácil, é um exercício físico e espiritual constante, adoece, expulsa de certos locais, geralmente não traz respeitabilidade e muito menos acesso ao mundo dos que “importam”. No entanto, para artistas no Brasil que não se rendem aos esquemas fáceis e que não se traem é muito mais difícil. Elo da Corrente, Matéria Prima & Dr. Drumah são três exemplos disto e são esculturas vivas em processo do rap brasileiro. 

Assistir ao videoclipe dirigido por Kailani Galhardo, com produção de Felippy CPV é ver essa resistência em ato, percebendo a cada frame “integridade” e “excelência estética”, a rua envelhecendo sem arredar o pé. Segunda faixa do disco “Outro Prisma”, “T.R.F.” é representativa para ser o primeiro audiovisual do trabalho, pois exemplifica em rima e batida os exercícios acima mencionados. A cada novo trabalho, a cada nova fabulação: uma “Temporada de Renovação da Fé”. 

Muito longe de qualquer glamour, lutando constantemente por dignidade para si, para os seus e para o povo, Dr. Drumah. Elo da Corrente e Matéria Prima transpiram sob a direção do Kailani Galhardo versos e batidas com gosto de sal que embebedam a toalha no caminho rumo a Shangri-lá. O utópico local evocado no refrão por Caio é aqui a metáfora imanente para essa luta constante que os reais trabalhadores da arte trazem consigo. A cadência do beat de Drumah – mestre do boombap – é abrilhantada pelos riscos do DJ Mako. 

Composto por 8 músicas, “Outro Prisma” mostra a força autoral dos seus construtores sem sacrificar nada das individualidades, algo que pode ser percebido desde a sua abertura com “Aprofundamento”, uma produção do Dr. Drumah. Nessa música, que não tem rimas, o baterista, beatmaker e produtor alia a seriedade do grande Mário Quintana e sua visão sobre a poesia ao humor, com um sample que nos faz pensar no quanto nosso país desvaloriza os seus grandes artistas. 

Os poetas Caio, Pitzan e Thiago fazem parte de uma tradição do rap brasileiro pouco explorada e talvez também por isso mesmo pouco entendida. Fazem parte de uma tradição – que ajudaram a construir – de MC’s do rap brasileiro que fazem política através do esmero com a linguagem, com lírica, métrica e flow próprios. Juntos à poética musical do Jorge Dubman (aka Dr. Drumah) nos conduzem sempre a “Outros Prismas” diante de nós mesmos, dos outros e do mundo. 

Na música homônima “Outro Prisma”, Caio deixa o ouvinte ciente dessas perspectivas de construção de rima, onde as referências são reforço, preparação e não mero arroto de erudição. Já o Oitzan alia essa visão da importância das referências à necessidade de maturação das mesmas através das vivências e de uma visão do coletivo. Rejuntando tudo, Matéria Prima traz aula de flow e métrica, reafirmando a vitória da criação. O ouvinte atento, entenderá que essa separação é artificial e meramente ilustrativa, pois os artistas reúnem individualmente todas essas qualidades.

Em um período que só reforça a estratégia de focar em “estrelas”, as visões de conjunto – sempre mais complexas e interessantes – são ofuscadas e trabalhos como esse se afirmam por esse resgate da força do coletivo, das trocas infinitas que artistas podem nos ofertar. Com no drumless classudo de Drumah em “Oásis”, onde o Elo da Corrente e o Matéria Prima deslizam produzindo blocos de poesia fortes em sentido, valores, técnica e de certo modo em contraste com os aspectos etéreos do beat.  

Para os “consumidores de arte”, os pratos ofertados aqui podem causar indigestão. As sintaxes que cada um dos poetas aqui constroem em batidas e rimas, sempre nos trazem camadas e mais camadas de possíveis interpretações e mesmo de aplicações práticas. O Dr. Drumah, Elo da Corrente e Matéria Prima precisam de tempo para uma digestão adequada, mas mais do que isso, fazem arte que necessitam de ruminação lenta. “Flor de Baobá” por exemplo, traz um célula poética onde os seus três núcleos produzem uma reflexão potente entre a constatação do caos em que vivemos e a necessidade de cultivarmos cada vez mais os nossos jardins.  

Em um mundo onde as paixões tristes são cultivadas e transmitidas a granel, onde o caos político é cada vez mais constante, em um capitalismo tardio que não cessa de reafirmar o nosso caminho coletivo em direção ao fim do mundo, o que nos resta? Longe de aconselharem a alienação, mas cientes de que mesmo as convocações à rebelião se tornam meros produtos de consumo, os artistas nos lembram da necessidade de nos cultivarmos e de mantermos nossos sonhos e nossas alegrias em dia. Sobretudo nos mantermos capazes de sonhar, com uma imaginação rica em outras possibilidades de futuro. 

Muito se fala sobre masculinidade tóxica, mas pouco se ouve ou se pensa acerca dos MC’s que não reproduzem machismo em suas letras. Em “Andanças”, temos mais um exemplo de como reais mestres da cultura e da arte, nos ensinam a repensar traços que muitas vezes são reproduzidos sem o mínimo de reflexão. Thiago, Caio e Pitzan apresentam uma reflexão ética e política que somente homens “experimentados” são capazes. Apenas escute com atenção. 

Em uma sociedade onde virtualmente todos são verdadeiros ícones das virtudes, “Andanças” é deliciosamente cadenciada em visões sobre manter-se diante de erros e acertos, algo que todos fingem não ser a verdadeira estrada da vida. O quase intrínseco desejo de vingança e julgamento que nos caracteriza como civilização judaico-cristã, deixou de ser sublimado – se é que algum dia o foi – para se tornar um espetáculo muito bem aproveitado nas redes sociais.

A cadência dos tamborins no começo de “Entardecer dos Mics” engana e problematiza, o ouvinte é na sequência surpreendido por um beat onde bumbo e caixa seguem – a exemplo dos artistas – mais firmes do que nunca. É um verdadeiro manifesto sonoro do Dr. Drumah, sobre a verdade que esses caras não cansam de expressar mas vai muito além na sintonia e nos sentidos possíveis que o trio de MC’s – já nos seus entardeceres da vida. 

Há alguns meses atrás, sempre pensando sobre a Indústria Cultural e suas particularidades brasileiras, decidi reler “O Artista da Fome” conto do escritor tcheco Franz Kafka. Ouvindo ainda nas guias esse “Entardecer dos Mics”, e vendo às sintonias entre o Caio e o Pitzan que citam sem combinar o cineasta José Mojica Marins aka Zé do Caixão e o filme do Maurice Capovilla: “Profeta da Fome” no qual o mesmo atua. O meu espanto foi muito grande por tamanha sintonia mas sobretudo por não poder deixar de constatar o quanto artistas tão diversos e distantes no tempo, caminham nas mesmas reflexões acerca do capitalismo. 

No final do conto acima citado, o Artista da Fome, um jejuador profissional, responde ao ser interpelado pelo seu cuidador sobre porque recusava a admiração e porque continuava a jejuar: 

Porque eu não pude encontrar o alimento que me agrada. Se eu tivesse encontrado, pode acreditar, não teria feito nenhum alarde e me empanturrado como você e todo mundo.

A música de Dr. Drumah, Elo da Corrente e Matéria Prima são fundamento primordial para a cultura Hip-Hop brasileira. Hoje são artistas que já passaram da casa dos 40 anos, mas que mantêm a inconformidade em dia, a fome de viver e de criar lhes guia, o entardecer de suas vidas testemunham mais de 20 anos de carreira com um excelência pouco encontrada. Se filiando aos nomes citados acima, política e espiritualmente. 

Apesar de ser um nome cultuado no estrangeiro José Mojica Marins é um desconhecido para a maior parte da nossa população, um punhado de pessoas sabe da importância de Maurice Capovilla para o nosso cinema e Kafka os universitários sabem da história da barata. Nesse cenário, fica muito difícil que o nosso “monstro de 8 olhos” – como citado pelo Matéria Prima – alcancem o tanto de ouvidos que mereceriam. Logo, se você os está escutando aprenda, passe adiante e sobretudo valorize. Esses poetas da fome nos são generosos.

Sobretudo são generosos por não se firmarem em suas personas, estarem sempre buscando além de si mesmos, como nos ensina a dupla Dr. Drumah & DJ Mako na última faixa do disco. Faça como eles, busque sempre “Outro Prisma”.

-“Outro Prisma”: Dr. Drumah, Elo da Corrente & Matéria Prima, mestres da cultura!

Por Danilo Cruz 

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