Ódio Mortal usa hardcore para transformar ódio em resistência e crítica social.
Vivemos um tempo da banalização da palavra amor. A coisa tá bem naquela ideia do “amor líquido”, do Bauman. O tempo todo somos bombardeados por mensagens fofinhas enaltecendo o amor em detrimento do ódio, por exemplo. Tamanha é a pressão em torno do amor que é quase constrangedor falar da importância do ódio em determinados contextos de nossa vida.
Nesse sentido, precisamos chamar a atenção para a força transformadora do ódio em determinados contextos sociais. Quando a PM é mandada para reprimir uma manifestação social em favor do direito à moradia ou pedindo melhores condições de trabalho, não parece que jogar flores na direção dos policiais, pedindo paz, vai ter algum efeito concreto.
O amor é considerado o sentimento mais nobre, assim como aqueles ligados a ele. Enquanto o ódio é execrado, relegado a um sentimento inferior, rasteiro. Essa de dar a outra face não cola nem com os cristãos, quem dirá para uma galera pagã como nóis.
A banda soteropolitana de hardcore Ódio Mortal representa esse resgate do ódio como instrumento de luta. Mostraram isso no primeiro registro da banda, a demo autointitulada, lançada em abril de 2025.
Os singles Violência Inaceitável e Round 6 Game, ambos lançados no início deste ano, seguem os passos da demo, consolidando uma identidade estética e social agressiva, expressiva e combativa. Vamos lá trocar umas ideias sobre os singles.
Violência Inaceitável
Esse pano de fundo instrumental enfatiza as tensões sociais apresentadas pela letra. Esta traz uma crítica direta à violência praticada pelo aparato estatal, especialmente quando a força policial deixa de ser compreendida como mecanismo de proteção e passa a operar como instrumento de opressão e controle social. Traduzindo: PM sendo a PM.
A crítica ao uso da força repressora e controladora praticada pela PM aparece no próprio título. Desse modo, não há apenas uma descrição da situação, mas a realização de um julgamento ético e, principalmente, político. Chama a atenção para esses pontos usando termos tais como covardia, uso de força excessiva e opressão contra o povo. Constrói, assim, um vocabulário crítico que denuncia os excessos cometidos pela PM na repressão da população menos assistida pelo Estado.
Uma expressão que chama a atenção é: braço forte do Estado. Ela aponta para a ação repressiva constituinte da própria estrutura do Estado, revelando que essa violência não é um caso de desvio social, o famoso caso isolado. Trata-se de uma lógica inerente ao próprio aparato de coerção social.
A expressão “braço forte do Estado” é particularmente significativa, pois associa a ação repressiva à própria estrutura estatal, sugerindo que a violência não é apresentada como um desvio individual, mas como parte de uma lógica institucional de coerção.
Vamos analisar os versos abaixo:
Apontam, espancam, atiram.
Prendem, esmagam, reprimem.
Vejam: a sucessão de cada palavra cantada, do modo como é executada, transmite uma sensação de violência crescente e contínua. Podemos dizer que a letra aborda imagens imediatas e contundentes, que caracterizam a linguagem própria dos protestos sociais.
Outro ponto que não podemos deixar de apontar consiste no levantamento feito acerca daqueles que apontam, espancam, atiram, representando o agente que pratica a repressão violenta. Já o povo aparece como o alvo coletivo dessa violência repressora.
Round 6 Game
Assim como na série, a vida das pessoas marginalizadas pela sociedade capitalista, destituídas do acesso a direitos básicos como alimentação e moradia, aparece como crítica a uma sociedade erigida pela conversão das pessoas em mercadoria. No caso da série, como entretenimento para o desfrute de uma elite financeira.
Nesse sentido, as pessoas são destituídas de sua humanidade, apresentadas como meros objetos descartáveis. A vida se torna um ativo de mercado, deslocando a discussão de caráter econômico para o terreno da subjetividade. Vemos isso bem claramente nas perguntas/versos: Quanto vale sua integridade? e Quanto vale a sua vida?
Através dessas perguntas, um eixo central da música é apresentado, qual seja, a transformação do ser humano em algo quantificável, precificável através da aplicação de uma lógica mercantil.
Nesse sentido, a ideia de compra e venda é recorrente. Por exemplo, em Você se vende todo dia, se vende por meras migalhas, a banda revela ao ouvinte a realidade social na qual está inserida. Uma realidade na qual as pessoas são submetidas a uma lógica capitalista, cujos efeitos não ocorrem apenas nas grandes transações econômicas, mas muito mais perto do que pensamos. No nosso dia a dia, dentro de uma microfísica do poder que atua sobre nossas vivências mais íntimas.
Como diria o velho Marx, dentro da lógica do capital, nós, meros trabalhadores, somos obrigados a negociar nossa integridade, nossa postura e autonomia para termos acesso ao mínimo que garanta nossa sobrevivência material. Enquanto as meras migalhas reforçam a dimensão exploratória do capitalismo, apontando que aquilo que se entrega — no caso, o tempo, a força de trabalho, os princípios e a dignidade — não é equivalente àquilo que se recebe como pagamento.
Falando da musicalidade, do arranjo aplicado à música, vemos que se trata, fidedignamente, da tradição do hardcore punk, com forte caráter político. A composição lança mão de frases curtas, perguntas sucessivas, repetições e um vocabulário direto e certeiro, produzindo o impacto esperado da junção do instrumental com o canto.
Esse arranjo, que joga luz sobre problemas sociais através de uma sonoridade brutal e direta, expressa que a força de transformação social reside na comunicação imediata, na provocação e na transformação da crítica social em palavra de ordem. Nesse sentido, Somos todos vendidos possui tanto um caráter acusativo quanto apresenta um diagnóstico através das provocações feitas ao longo da música.
É isso aí, pessoal. Sintam ódio contra os poderosos e que este seja um ódio mortal.
