Um dos pontos mais interessantes na música é a oportunidade de acompanhar o trabalho da cena e perceber a evolução do som, principalmente dos artistas que alimentam o cenário underground/independente. Notar as nuances entre um registro e outro é um exercício interessante para se fazer, ainda mais se for garimpando o cenário nacional.

E se tem um músico que vale a pena ficar ligado, principalmente em termos de diversidade de influências e projetos, esse meliante é o multi instrumentista alagoano, Pedro Salvador. Guitarrista do power trio de Rock Progressivo, Necro, o músico natural da própria Alagoas possui um grande vocabulário musical, capaz de cobrir arestas que vão desde o Frank Zappa até o Alceu Valença, passando pelo Rock Progressivo e pela Psicodelia sempre com swing e grande capacidade técnica.
A vívida produção de Pedro mostra como um músico com vasto vocabulário se reinventa. Seja no Messias Elétrico – outra bandaça de Prog de Alagoas – ou em carreira solo, com o excelente debutante homônimo, “Pedro Salvador“, liberado pela Crooked Tree Records. Pedrinho está em todas.
Além dos grupos já citados, ele também participa do Origens, projeto de Rock Progressivo do Alessandro Aru, requisitado baixista de Rock – também da terrinha – que reuniu os maiores músicos de Alagoas para gravar uma trilogia em comemoração aos seus 25 anos de carreira (celebrados em 2017). O primeiro volume (homônimo) saiu em 2016 – de forma autônoma – e os volumes II (“Adaptação“) e III (“Destino“) chegaram na praça em 2018 e 2019, respectivamente, com apoio do selo carioca Abraxas. O disco “Destino”, finalizou a trinca em 2019.
Além de um dos melhores projetos Progressivos nacionais lançados nos anos 2000 dentro do Brasil, Origens é o plano de fundo ideal para se entender e conhecer mais sobre o underground de um estado que está fora do eixo do hypado do sudeste. Bandas como Água Mineral, Mopho, Canela Seca, Cores Astrais, Barba de Gato, Cachorro Urubu, Santo Samba e Lado B podem não ter conseguido furar sua bolha, mas definitivamente valem o seu tempo de escuta.

Alessandro Aru influenciou muitos desses grupos e nos projetos contou com diversos amigos de estrada para gravar as faixas, sempre com variadas e meticulosas alterações na formação. O Alessandro Aru acabou não só comemorando seus 25 anos de estrada, como também teceu um belo plano de fundo sobre sua raízes e essência musical do Alagoas.

É dessa fonte de conhecimento que Pedro também bebe e que estimula a produção prolífica do habilidoso guitarrista. O maior defeito do EP “Objetos no Céu”, lançado no dia 05 de maio de 2018 é não ser um full lengh, pois as experimentações psicodélicas de Pedrinho mereciam mais tempo para mostrar a versatilidade com a qual ele dialoga com o ouvinte, mesmo sem dizer uma palavra sequer durante as 4 faixas desse instrumental.

Track List:
“Objetos no Céu”
“Flagelo Moderno”
“Jogo de Gato”
“Extrapolações”
Com mais um lançamento pela Abraxas, Pedro tratou de tocar todos os instrumentos, algo comum em suas gravações solo. Dessa vez ele tocou guitarra, baixo, bateria e teclado – além de fazer a capa – para criar uma identidade sonora muito coesa.
O EP já começa com a faixa titulo. O trabalho de teclas e da bateria é muito interessante nesse tema. Elas caminham lado a lado, unidas pela guitarra. É notável como tudo se encaixa graças a um solo de rara eloquência.
“Flagelo Moderno” mostra a grande capacidade melódica de Pedro. As guitarras entrelaçadas no dedilhado da viola deixaram o som com um gosto de cerrado que é o mais puro veneno. Com aquele DNA de Pepeu Gomes, Pedrinho mostra um belo trabalho de texturas.
Mas é em jogo de gato que o alagoano se consagra. Com o teclado fazendo as vezes de cítara, o músico emula um groove com pegada de Ragga e entrega um dos temas que melhor sintetizam a criatividade do compositor, antes mesmo do encerramento com a veia Hard-Prog de “Extrapolações”… Apenas um dos adjetivos utilizados para definir o grande repertório de um dos maiores músicos em atividade do nosso país.
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