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O lançamento de “Ajucity for Life” solidifica a relevância de BW para o trap sergipano

Uma análise sobre os elementos singulares que construiram a relevância do artista sergipano BW dentro do cenário de seu estado

O festival Tambor cimentou uma das minhas já convictas certezas: BW é um dos maiores nomes do rap sergipano. Ao lado de Preto JB, Dayo, Bidu e JB, BW fez um show que não só apresentou sua mais nova mixtape para um público renovado, como se reafirmou como modelador do trap lifestyle preto sergipano. Lançada em 28 de janeiro deste ano, “Ajucity for Life” conta com 8 faixas de tudo aquilo que tornou o Golden Boy Gorila Original uma das maiores influências do gênero pelas bandas de Serigy: sergipanidade, bairrismo, ancestralidade preta e a estetização do cotidiano pessoal. Temáticas presentes desde 2019, quando o single “Ajucity” deu o pontapé inicial da sua carreira solo, e em retrospectiva, nos causa espanto pelas semelhanças entre aquele e este trabalho. A mixtape conta com feats de Dayo e Bidu (DMPM), beats de DaSouza e mix, master e gravação de voz de JB (Oldproduções). Além de um clipe da faixa “Atleta do Rock”, gravado e dirigido por Luan Allen e editado por Roberto Queiroz.

Nascido Paulo Bomfim, BW tem uma vida marcada pela ancestralidade. Neto de cigano e tataraneto de ex-escravizado, BW nasceu e cresceu no Castelo Branco, conjunto integrante do bairro Ponto Novo, e por muitos considerado um bairro à parte. Com a família recém-formada, seus avôs se mudam para o conjunto quando a placa de fundação sequer tinha sido colocada, em 1968 pela Cohab. Seu avô, então marchante, consegue voltar aos estudos e se especializar tecnicamente para ocupar uma função na indústria têxtil da Fábrica de Tecidos Confiança (que deu origem ao Time) e, posteriormente, se tornar engenheiro civil. Assim sendo, a ancestralidade familiar de BW se mescla e se desenvolve com a própria história do Castelo Branco, como ele mesmo nos relata: “Realmente veio da lama, entendeu?! Essa parada veio realmente do meu avô e das ruas do Castelo Branco, desde a época que era de barro esse bagulho todo, entendeu?!”

 No caso da sua mãe, a amálgama de ancestralidade familiar e bairrista se mantém. Primeiro como aluna, a mãe de BW retorna ao colégio de infância, anos depois, como professora. O Centro de Excelência Leandro Maciel não só fez parte do processo de urbanização do conjunto como integrava o projeto educacional do governador do qual recebe o nome. Como se não bastasse, não só de uma escola do Castelo a mãe de BW foi aluna e professora, mas de duas, o mesmo feito se repetiu no 8 de Julho. 

É nesse contexto que nasce Paulo Bomfim, revelando que ancestralidade e territorialidade são, antes de tudo, vivência. Assim sendo, desde seu primeiro trabalho solo, BW faz questão de nos transportar pro seu cotidiano. Referências a Aracaju, siena preto,e praia da cinelândia já se fazem presente em “Ajucity”, mas não do modo como se suporia se falássemos de sergipanidade. Aquilo que seria facilmente entendido como identidade local em outros ritmos recebe com BW uma nova roupagem, mas se reafirma. A sergipanidade de BW é real, mas reinventa o território imagético-discursivo do estado a partir de si mesmo e pinta Aracaju numa aquarela traplifestyle que reconfigura até o nome da cidade. E já aqui a influência de BW se revela, pois depois dele tanto artistas de Aracaju como de outros municípios passaram a adotar a mesma reconfiguração, trazendo à tona renomeações como Helpcity (Nossa Senhora de Socorro), Barracity (Barra dos Coqueiros) e Itacity (Itaporanga). 

 Esses elementos, portanto, são reestetizados e acabam por se tornar a tônica de toda a sua carreira. É assim em seu primeiro álbum, “Versátil”, de 2019, que inicia quase como um prenúncio com a faixa “079 for Life”. Produzido por Teko (Txkx, Tekoshawty), o trabalho conta com feats de Dayo, na faixa “Espanha”, e Ne$t, integrante da Uprise Mob com BW, nas faixas “Siena Black” e “No cap”. O disco nos reconduz para a mesma atmosfera do single de estreia de BW sem deixar de ir um pouco além e já nos trazer elementos que viriam a ser mais trabalhados futuramente, como a aparência pessoal: “Boca grande, mais sincero que nunca” (Faixa “No cap”), e uma leve exaltação da pretitude: “Nunca deixei minhas raízes. Criação preta é uma coisa linda.” (Faixa “Dou um jeito). Tudo isso sem deixar de se situar, também, na contemporaneidade da música rap estadunidense, fazendo questão de rimar alguns trechos em inglês.

Já em “AjucityDrill” a identidade de BW ganha volume com o acréscimo de elementos como o bairrismo do Castelo Branco em “Zona Sul”, uma maior exaltação da história e cultura ancestral preta, de forma mais trabalhada em “Amazona de Daomé”, e referências ao surfwear característico das ruas de Ajucity em “Stussy & Cyclone” e “Original Pala”. Lançado em 2021, o EP conta com a produção carimbada de Teko em quase todas as faixas e feats de Dayo e VituAF em “Zona Sul”, $kar em “Bloco”, Manu Caiane e Kabê em “Original Pala”. Com uma equipe mais robusta do que a de “Versátil”, o EP teve ainda o lançamento de visualizers e até um clipe à la Colours para “Saweetie”. Sendo assim o trabalho mais impactante de BW até então, o que se comprova pela própria conexão AJU-SSA na matéria do portal Oganpazan intitulada: “6 nomes para conhecer a renovação no rap sergipano”, e também pelo impacto na cena local com o lançamento de “Itadrill” pela Exorbit Mob.

É nessa mesma esteira que surge “Ajucity for Life”. A mixtape condensa em cada uma das suas 8 faixas todos os aspectos constituintes da identidade artística de BW e nos entrega seu trabalho mais coeso até aqui. Sergipanidade, bairrismo, ancestralidade preta e a estetização do cotidiano pessoal não só estão presentes, como constituem o ponto chave de todas as músicas da mixtape. Mesmo quando Dayo rima seu feat em “Chocolate”, a sincronia entre ambos realça a identidade de BW sem diminuir a de Dayo. Praticamente todas as faixas poderiam ser apresentadas como exemplo, mas, por brevidade, um trecho de “Canil” será suficiente: “É que eu sou do Castelo, nasci pra reinar. É que eu amo essa grana, vou ter que empilhar. Ancestralidade, eu não posso falhar. SF, Player, eu nasci pra jogar. Caminhos largos e fartos. Pros meus negos axé. Minha vó ficou de joelhos pra eu poder tá em pé.”. 

A presença de BW no rap sergipano conta ainda com uma série de singles, feats, aparições em clipes e outros detalhes que revelam uma atuação extremamente prolífica. Ele esteve no clipe de estreia da carreira solo de Dayo, “O Iluminado”, no clipe de estreia da 1050 mobb, “Animais Drill”, participou do segundo Santa Sessions, projeto inicial do Santa Cena e emprestou para Guiza, Seu Mano a dogtag de Ajucity com que ele aparece no clipe de “Puma” para o EP “Diamante das Esquinas” da 1050 mobb. Fez feat com a própria 1050 no EP “Quanta merda”, fez feats e participou dos clipes de “Santa Cypher” e “No corre do ouro”, faixas que comporiam o “Santa Cena” é o trem, primeiro álbum do Santa Cena, feats com seus manos de Uprise Mob, nos álbums “Traphouse” de estréia do Ne$t e “Seguindo o plano” de estréia de Txkx, com Young Dlok no “Trap de cria”, com Kobay da Exorbit Mob no “Madman” e no “PDJ vibez” e com NDS Hiata no “Premeditado”, também de estreia. 

BW é um dos maiores nomes do trap sergipano porque é um dos mais influentes. A consolidação de sua identidade artística coincide com uma guinada do trap sergipano pela adoção dos aspectos que a constitui. A reestetização do cotidiano, da sergipanidade, do bairrismo, da cultura ancestral preta e da própria aparência fazem de BW o modelador estético de toda uma leva de produções. Com isso, ele faz jus ao próprio alter ego. BW é sigla de Big Walter, nome inspirado num dos maiores tocadores de gaita do blues, Big Walter Horton. Nome bem posicionado em diversas listas de 10 maiores gaitistas do blues e um dos que ajudaram a definir a sonoridade da gaita no gênero. 

Apesar de tudo isso, o nome do nosso BW não teria tamanha influência ou ele sequer teria fundamentado sua identidade artística, se antes disso não houvesse um respeito e um orgulho enormes por toda a história de sua família e da vivência que fizeram emergir e solidificar essa mesma identidade, e ninguém melhor que o próprio BW nos falar sobre isso: “A gente tem realmente um conceito no bairro do Castelo Branco. As pessoas, tipo, conhecem minha família e têm consciência, tá ligado?… na questão de respeito relacionado a ancestralidade. Então, tipo, quando minha filha nasce lá, ela já é uma habitante, já faz parte do bairro. E nós somos orgulhos do bairro, minha mãe é orgulho do meu bairro, eu sou orgulho do meu bairro e minha filha é orgulho do meu bairro. Ancestralidade pauta essa parada.”

-O lançamento de “Ajucity for Life” solidifica a relevância de BW para o trap sergipano

Por Marcos Roberto Santos Pereira

 

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