O cancioneiro franco brasileiro do Élio Camalle, é algo que foge ao que geralmente estamos acostumados, ele pousou recentemente em São Paulo
Por Guilherme Espir (Macrocefalia Musical)
Fotos por Dani Leão
A música é um eterno processo de construção. Estudo e composição se traduzem num grande exercício de criação, que entre diferentes formatos, referências e objetivos, alimentam a amálgama de um músico em sua peregrinação como um ser criativo.
É um trabalho contínuo e que envolve não só o artista principal, mas sim todos os membros de um grupo. É um grande exercício de estudo sobre a perspectiva de sua própria criação. Não é uma tentativa questionar a arte, mas sim de elevar seu alcance e posicionar suas ideias.
O trabalho do compositor, cantor e astuto violeiro, Élio Camalle, exemplifica muito bem isso. Natural de São Caetano do Sul, o músico possui uma discografia que compreende 10 discos e mais de 20 anos de carreira.
Como o intérprete é radicado na França, seu trabalho multidisciplinar – que envolve desde atuação até composição para cinema – mantém sua vitalidade artística numa charmosa ponte entre Brasil-França. Quando consegue uma brecha, o artista passa uma temporada em São Paulo e dentre idas e vindas, acredito que sua última passagem foi um dos pontos altos em sua carreira recente.
Tudo começou pelo skype, quando os irmãos Vitor (As Bahias e a Cozinha Mineira) e Lucas Coimbra (Samuca e a Selva) pensaram em estruturar um show com Élio. Foi um processo muito interessante, pois envolveu não só um cuidadoso estudo de seu cancioneiro, justamente para definição de repertório, como também desafio dos músicos envolvidos no projeto quando o assunto foi o arranjo das canções.
A distância acabou dificultando um pouco as coisas, mas durante sua última temporada em São Paulo, Élio fez uma série de shows elogiadíssimos. A banda de apoio fez um trabalho excelente e o resultado foi uma triunfante passagem que se encerrou de maneira maravilhosa na última quinta-feira, dia 25 de abril de 2019.
Com a sala do Itaú Cultural lotada, mesdames et messieurs tiveram a oportunidade de conhecer o seu infinito particular e por cerca de 80 minutos sua expressiva arte tomou conta do recinto enquanto Élio & Banda nos conduziam por uma sinuosa viagem por sua história musical.
Com uma banda entrosadíssima e afim de jogo, o groove foi do Samba ao Jazz com uma naturalidade absurda e quem já conhecia o fraseado do músico não deixou de se impressionar com os lindos arranjos para temas como “Saideira” e “E Aí Doido?”.
Élio, além de um grande cantor, faz miséria na viola. Sua figura enigmática mistura a Poesia concreta com a boemia dos grandes centros urbanos. Ele canta em francês, português, mas nesse caso o idioma é o de menos, o que chama atenção é essa personalidade Zé da Bronca que consegue condensar um rico repertório sem deixar de dialogar com todos os público. É algo que vai muito além do domínio da linguagem, apenas.
É essa universalidade presente em sua lírica, aliada ao magnetismo de sua imagem sobre o palco, que deixou a plateia boquiaberta. Em temas como “Get Out”, onde o artista se limitou a uma banqueta e sua viola, o sentimento era palpável. Desafiava a passagem do tempo, enquanto os membros da banda – em êxtase – tocavam com um tesão estampado na testa.
Teve percussão. O doce piano do Lucas e os técnicos grooves bateiristicos de Vitor Coimbra… Um peculiar naipe de metais com trompa, trombone e trompete, além de guitarras ácidas e linhas de baixo extremamente elegantes.
Pena que foi o último show antes de seu retorno para a terra de Napoleão. O show do Élio é, sem dúvida alguma, um dos melhores espetáculos de São Paulo. Seu trabalho de fato merece atingir mais e novos ouvidos e se depender da galera envolvida, isso vai acontecer, mesmo que seja entre Paris e São Paulo.
Até logo meu caro, lhe aguardo pra tomar aquela cachacinha novamente.
Você pode ouvir os discos do Élio Camalle no Spotify:
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