“Novo Sample Tradicional”, nova looptape do produtor Barba Negra é uma viagem!
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“Novo Sample Tradicional”, nova looptape do produtor Barba Negra é uma viagem! 

Barba Negra lançou a sua nova looptape: “Novo Sample Tradicional”, quase uma hora de pensamento criativo sobre a nossa música!

Braba Negra
Novo Sample Tradicional

“O cérebro eletrônico faz tudo, faz quase tudo, faz quase tudo, mas ele é mudo”  Gilberto Gil

Em quase uma hora de música, Barba Negra aka O Terrível Ladrão de Loops em sua nova looptape “Novo Sample Tradicional”, produziu um marco estético para a cultura Hip-Hop e o Rap brasileiro. Barba é dos produtores e MC’s mais influentes da música contemporânea no Brasil, com trabalhos que atravessam em diversos níveis o rap nacional do século XXI e lhes impulsiona, do underground ao mainstream. Barba Negra reafirma em seu novo trabalho a força intempestiva do sample.

Estamos diante de ponto alto de uma sequência de looptapes que começou em 2021 – ano fulcral para a cultura do drumless nacional – com os Volumes 1, 2 e 3. Seguindos posteriormente das excelentes “Loops & Mandingas” (2023) e “O Poder da Imaginação (2024). Todas essas looptapes podem ser ouvidas no perfil do Barba Negra no Spotify ou no youtube, assim como nas outras plataformas. 

O título do disco, dado por Marcelo D2, artista com quem Barba Negra tem trabalhado nos últimos anos, coloca no devido lugar o papel do sample como elemento invenção intempestivo e mesmo como prática de pensamento e criação para a música rap. Mostrando em uma aula magna que o sample não é mera reverência ao passado e ou ação simbólica para venda de produtos artísticos, mas se mantém como roubo ativamente criativo e um dos elementos epistemológicos de base de uma estética negra radical. 

Estética negra radical essa, constantemente em renovação e que no subgênero musical do rap, o boombap, viu nas últimas décadas uma renovação com o surgimento e a difusão do drumless. Saturando a estrutura rítmica clássica do boombap e abrindo todo um novo campo de experimentação de possíveis, o drumless se constroi através de cortes de trechos musicais de cordas, sopros com a cozinha rítmica geralmente mais “mocada”, encontrando algumas vezes nas linhas de baixo a condutor/marcador rítmico, na ausência aparente do bumbo e da caixa. 

Porém, o disco não se encontra nas plataformas de streaming, o que nos apresenta uma “ação direta” de busca por um retorno financeiro mais justo para um trabalho e para um trabalhador que está longe de se encerrar na dinâmica das plataformas. O disco só pode ser obtido através do pagamento de 22,00R$, no site do projeto, uma quantia irrisória – o preço de duas cervejas – para quem quer descobrir talvez o ponto mais alto de uma carreira importante. 

-Leia mais sobre discos e looptapes do Barba Negra no site

A obra do Barba Negra é gigantesca e é parte do desenvolvimento e da pesquisa do artista que surgiu no cenário nos anos 2000, como freestyleiro e MC de batalha. Nesta primeira fase de sua caminhada, o então MC Ralph inscreveu o nome do Vale do Paraíba (SP) na história vencendo a Batalha do Prêmio Hutuz em 2004. Neste período de sua obra, lançou algo em torno de 10 trabalhos, entre discos, EP’s e Mixtapes. 

Barba Negra
Capa do disco Os Afro Raps lançado em 2011

Entre 2016 e 2021 formou uma dupla emblemática, Rato & Ralph, com quem lançou três discos da série “A Rima é Imã” Volumes 1 (2016), 2 (2017) e 3 (2021). A alcunha do pirata começa a ser desenvolvida “oficialmente” com o projeto “Sociedade dos Poetas Livres”, que reuniu diversos outros nomes da rica cena do Vale e com quem lançou duas mixtapes em 2017. Em 2018 junto com ao produtor Sala 70, Barba Negra lança “A Ópera do Pirata”, disco que marca oficialmente a chegada do drumless no país, como uma estética. 

Mais recentemente, Barba Negra passa a se dedicar mais à carreira de produtor do que a aliar produção e rima. O Braselda é um excelente projeto que pode ser visto como marco dessa fase, onde o “pirata” assume o papel apenas de produtor e atribui ao grande “toaster e MC” Mistah Jordan o mic, mas também rimando, consolidando o pioneirismo e a renovação do boombap nacional, com os discos Braselda: Capítulo Um e Dois, lançados em 2021. 

Foi apenas nessa época que eu conheci o trabalho do MC Ralph aka Barba Negra aka O Terrível Ladrão de Loops, que me foi apresentado pelo meu mano Galf AC. E de lá pra cá, tenho seguido os seus trabalhos, pesquisado a sua história, trocado ideia e aprendido muito com sua caminhada. Como produtor Barba Negra tem produzido para nomes como Marcelo D2, Tássia Reis, AXL, Mattenie, Galf AC, Aori, Matéria Prima, Akira Presidente e muito mais. E assim como o leitor atento já deve está entendendo, podemos ver que essa caminhada extremamente produtiva e diversa nos traz ao “Novo Sample Tradicional”.

Todo esse imenso percurso gabaritou o artista a tomar o passo de lançar a sua nova looptape, fora das plataformas. A tentar buscar uma brecha para respirar melhor, algo que é o desejo de todos os artistas do underground, mas que a indústria cultural e suas estruturas seguem barrando. Essa busca por escrever outra história, pois em termos estéticos já escreveu e prossegue, é no mínimo um alerta ao público sobre a necessidade de valorizar nossos artistas. 

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A proposta da looptape do Barba Negra guarda em si mesma, além dessa dimensão econômica, diversas outras camadas que ultrapassam a mera produção musical. Diferente de meros produtos comerciais de rápido consumo e descarte, em “Novo Sample Tradicional” há um convite a percepção de como a arte emerge da cultura, de como historicamente a diáspora soube transformar as dificuldades e obstáculos da opressão em estética. Ao mesmo tempo em que o produtor nos aponta a presença do futuro no passado, e nos impele a prestar a devida atenção ao presente vivido. 

Pensemos, por exemplo, as escolhas que o Barba Negra faz na construção de sua colcha de retalhos musical. Ao contrário dos atores do “rap game”, dos sommeliers do groove, dos produtores de conteúdos e disqueiros, o olhar do produtor é em direção a música. E isso se reflete fundamentalmente nas suas escolhas de artistas, de samples e loops. Certamente, pelo patamar já alcançado na cultura ele poderia ter trazido nomes que “agregariam” um capital simbólico/mercadológico e um alcance muito maior para sua looptape, poderia ter preenchido todo o trabalho de recortes de sample e loops desconhecidos. Mas não.

Dário Inerente, MC de Itabuna – BA

A escolha do Dario Inerente para abrir a looptape revela bastante da viagem que o artista do Vale propõe ao ouvinte e o desapego a quaisquer que sejam as ideias mercadológicas. O jovem MC e também beatmaker de Itabuna não é colocado no trabalho por qualquer noção de aposta – como se faz com cavalos e que é repetida bovinamente pelos “jornalistas” culturais – mas por identificação e reconhecimento. Poderíamos chamar de cultivo essa escolha, haja vista o sample do Ederaldo Gentil que ocorre poucos segundos antes. 

Como rima o Dario: “o hype vai, o real fica”, esse ser da arte, duração que vence o tempo e as estratégias do mercado, assim como a valorização de uma ética e uma política do under, está presente na referida faixa: “Fé Amolada”, que também é parte do pacote exclusivo com um videoclipe que só pode ser visto no site do projeto “Novo Sample Tradicional”. 

Ederaldo Gentil

Daí por diante, o Barba Negra seguirá todo o lado A da bolacha virtual abrindo a sua rica caixa de ferramentas onde a técnica está a serviço da estética, numa sequência alucinante de cortes, repetições, quebras, batidas e loops. Ao singrar os mares da música afro-diaspórica apesar de atualmente facilmente localizado no litoral 012, Barba Negra povoa esse mar como um demiurgo capaz de produzir arquipélagos musicais. Esse passeio bucaneiro é percebido pelos “inserts” que marcam a presença e o movimento do navio pirata na criação de mundos rebeldes à estrutura política colonial.

Política colonial que possui bastante interesse em diluir a cultura do sample em nosso país, ao tratar samples como feats, resignificando através da Indústria cultural o roubo em homenagem, o que não seria de todo mal, se não estivesse criando um circuito que reforça a criminalização da própria cultura do sample. Ao mesmo tempo em que imbeciliza o público que segue como gado “hypando o passado”, longe de fato valorizá-lo.    

Outro é o processo presente em “Novo Samba Tradicional”. Abordando desde o samba duro baiano até o psych funk nacional, o leque de loops e samples imprimem caráter de homenagem a herança afro-religiosa, nos mostrando como musicalmente somos instados a pensar ao mesmo tempo que o groove se efetua. As repetições constantes da frase: “A coisa mais pura que o Brasil pode exportar” é um mantra que instiga. 

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O final do Lado A, mostra-nos como Barba Negra possui o domínio completo da história como técnica interpretativa crítica, na medida em que ele sampleia Beto Guedes como faziam os primeiros sacerdotes do dub. A repetição do verso: “O Medo de Amar…” com os cellos aumentados e em primeiro plano, são um componente potente de referência a cultura jamaicana que iniciou e primeiro desenvolveu o que seria retomado pela cultura hip-hop.

Barba Negra
BRASELDA – FAIXA PRETA ft. Jamés Ventura, Tio Fresh, Xis, Galf AC, Rafael Jarcem (LOOPTAPE VHS #1)

 

Tomando as devidas escolhas que sua intuição lhe envia, com as benças de Exu, Barba Negra repete a Bahia faceiramente em todo o disco. Se o lado A começa com um clássico do Ederaldo, o B traz Raul Seixas. Se o A começa com as rimas do Dario, o B traz seu parceiro de Braselda Mistah Jordan junto ao “bailista” Max BO, que está atualmente radicado em Salvador. 

Dois grandiosos MC’s que representam muito da força – pouco conhecida – da geração dos anos 2000. Mistah Jordan que é dos poucos que possuem um forte alicerce jamaicano aliado ao profundo conhecimento da cultura Hip-Hop, um pesquisador de riddins e flows. Max BO é simplesmente um dos maiores – para alguns o maior – freestyleiro da nossa história. É essa dupla quem abre rimando o lado B de “Novo Sample Tradicional”. 

Ainda sobre a Bahia e a sua presença na looptape, Barba Negra alinha algo inédito – pelo menos aos meus ouvidos – ao juntar a força absurda do Samba Duro baiano ao Samba Jazz Carioca. Traz também loops de capoeira, ajudando a educar ouvidos e mentes, dando indicações, dezenas delas ao longo da looptape. Passeios pela música Brega, encadeamentos rítmicos de samba bem diversos… Esses processos de quebra de andamento, presentes em toda a tape, além de serem os choques para quem coloca os ouvidos neste trabalho, também nos faz perceber o quanto ainda há de territórios inexplorados. 

Barba Negra
Barba Negra, sussa ao lado do seu Navio Pirata!

Infelizmente, há toda uma ausência de cultura em entender que qualquer que seja o gênero musical é feito por músicos, uma percepção que centra o seu foco nos cantores/astros. Ouvir beattapes e mais recentemente Looptapes, possuem essa outra propriedade dar a entender ao ouvinte, como se constroí a base sob a qual se rima no rap. Se essa é uma característica de trabalhos “instrumentais” em geral, é uma das qualidades particulares de “Novo Sample Tradicional”. 

Ao ouvirmos os loops trazidos pelo Barba Negra, somos também instigados a imaginar: “Qual MC seria capaz de rimar aqui?”, pois é no drumless que filho chora e mãe não vê, uma verdadeira prova dos nove, contemporânea para os rimadores. Ao mesmo tempo, os samples de nomes como Gonzaguinha nos mostra pela maestria o quanto o sample desloca o objeto original, algo que se perde bastante quando o uso do sample si quer um refrão mais longo, querendo se passar por feat.  

Os usos dos ad libs clássicos do Griselda, por sua vez, ganham outra forma de percepção colocados aqui no universo do Barba Negra, perdendo sua característica sombria e parecendo mais uma malandragem solar. A força dos tambores e máquinas digitais possuem essa possibilidade alquímica, mas somente alquimistas experimentados são capazes de fazer a ciência mágica ocorrer. 

O uso determina a função do instrumento, um martelo pode ser uma arma ou uma ferramenta, pode matar ou consertar algo. Em “Novo Sample Tradicional” estamos diante de um músico, de um artista, MC e beatmaker, que nos mostra a potência de um SPC, de uma pesquisa musical, de uma visão de mundo e da arte, dos orixás praticada à excelência. Conseguindo mesclar arte e cultura, entretenimento e pensamento, para muito longe das artimanhas da Indústria Cultural, e seus processos de diluição e esvaziamento da contra cultura do Hip-Hop. 

Com esta looptape, que merecia estar no futuro próximo em um disco de vinil, Barba Negra nos convida para a sua nau, para uma viagem de quase uma hora, pela nossa história. Uma daquelas Aulas Magnas, que nos ensinam o que já foi dando-nos um sentido de futuro, enquanto nos suspendem da mediocridade rotineira do presente. Viva o “Novo Sample Tradicional” e Viva o Pirata, uma âncora da cultura no presente, sempre passado, sempre possível no futuro. 

Corre no site da produtora Perola Negra e comprar o disco, disponível para audição e para download, além de diversos conteúdos únicos como o videoclipe da faixa Fé Amolada e videos sobre o disco!

-“Novo Sample Tradicional”, nova looptape do produtor Barba Negra é uma viagem!

Por Danilo Cruz 

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