NEGGS & YANGPRJ, qualidade violenta e a renovação do Rap feito no Piauí – PT. I
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NEGGS & YANGPRJ, qualidade violenta e a renovação do Rap feito no Piauí – PT. I 

Uma dupla que vem se desenvolvendo junto, o MC NEGGS e o produtor YANGPRJ lançaram três discos que já são marcos da renovação do rap no Piauí!

NEGGS
NEGGS & YANGPRJ

Os últimos três discos da dupla NEGGS & YANGPRJ, MC e produtor piauienses são frutos históricos e excelentes paineis da época do que de melhor é feito no rap brasileiro. A arte sempre supera as métricas do mercado, o ímpeto criador estará sempre a léguas de distância do hype marketeiro e isso é facilmente reconhecível, apesar de em geral não ser reconhecido. 

Em um cenário de mídias que se comprazem na maioria das vezes em reproduzir “conteúdos” pagos e ou que buscam apenas likes, o trabalho de NEGGS & YANGPRJ me chegou pelas mãos do mestre Rodrigo Ogi. E uma vez dado o play é fácil identificar que se está diante de um trabalho forte, urgente, crítico e com uma lírica sempre e todas as vezes agressiva. A dupla de artistas piauienses vem trabalhando juntos desde 2023 e de lá para cá já lançaram alguns singles, um EP e três discos. 

Em uma conversa com NEGGS, o MC nos contou que como todo preto e periférico desde a infância ouvia Racionais MC’s, Atitude Feminina, Facção Central etc, mas que foi com Castelos e Ruínas do BK, que ele apagou todo o bloco de notas e decidiu desenvolver uma lírica mais intrincada. Já o YANGPRJ produz desde o 8º ano quando conheceu o Flak Beats na escola. De lá pra cá, busca referências no Blues, no Reggae e no Jazz para compor os seus beats.

YANGPRJ

Buscando viver da música, YANGPRJ fala que durante muitos anos trabalhou produzindo Trap para fazer uma moeda e assim conheceu o NEGGS – como cliente – e após alguns trabalhos juntos se tornaram uma “dupla”. Essa conexão “espiritual” – de acordo com YANGPRJ – teve no boombap o “terreiro” sonoro escolhido pelos caras para o desenvolvimento do trabalho em conjunto e que deram origem ao disco “Vivos Traídos, Mortos Lembrados” de 2024. 

Nesse relato, podemos perceber como jovens artistas muitas vezes, consciente ou inconscientemente buscam caminhos mais difíceis para sua arte, pois ali encontram a possibilidade de expressar suas verdades, seus sentimentos e ideias. É importante lembrar que o Piauí é um estado nordestino que não possui grande fluxo turísticos como os outros estados da região, e que apesar de grupos históricos do rap como o Afronto, não possui uma cena forte. Certamente, essas poderiam ser razões para que os dois artistas, seguissem em um caminho mais comercial, visando atenção e inserção pela internet que vez por outra, elenca artistas passageiros em uma estética do Trap e ou do Funk, mais comercial. 

Composto por 13 faixas, “VTML” é um início de caminho, um começo estético de afirmação política, tipo 2 contra o mundo. A sonoridade do disco remete-nos aos consagrados anos 90 do Rap no Brasil. YANGPRJ comenta que a estética sonora do disco foi pensada para nos enviar diretamente às primeiras referências musicais dos dois artistas. E isso é bastante perceptível na crueza sonora que aliada a urgência agressiva da lírica, coloca imediatamente após o play, o ouvinte em contato com o monstro mencionado na “Intro”. A faixa título que se segue, pode ser entendida hoje, passados pouco mais ou menos de 1 ano e 5 meses do lançamento, como um resumo vomitado de tudo que será desenvolvido ao longo deste e dos próximos dois discos. 

Pensar a frase “Vivos Traídos, Mortos Lembrados”, que nomeia essa estreia, tendo a trinca de discos da dupla em perspectiva, remeterá o ouvinte a amplitude de temas e à força do trabalho apresentado. A singularidade estética expressa, sonora e liricamente por uma dupla de rap do Piauí – aqui quase nos remetendo a formação clássica de MC e DJ (produtor) – diante de um cenário tão árido, banhado de invisibilidade, pobreza e violências é contra efetuação através do Hip-Hop. É revide total sem fazer prisioneiros, a libertação sem mesa de negociação. 

Com a calma de um estrategista, o cadenciamento do flow de NEGGS, harmoniza um sistema de desgraças que assedia jovens homens negros, passeando calmamente, com quem anda pela sua quebrada, no beat do YANGPRJ preenchido por samples de jazz. Curiosamente, ontem ouvi parte dessa experiência narrada por um ex-aluno: – Professor, eu tava castelando que um amigo meu morreu sem ler um livro, eu não posso morrer sem ter lido um livro. É disso que NEGGS está falando lá de Teresina.

Veja-se por exemplo a aparente antítese entre “Meus neguin tão encariçado” e “antes só mal acompanhado”. NEGGS não recai nas ideologias meritocráticas e de um individualismo predatório. Há aqui, sobretudo prudência e mais uma vez, visão estratégica diante de um cenário caótico como é qualquer favela do país. Como poeta, o MC de Teresina é o condutor/organizador desse ódio dos seus neguin, transmitindo-o através da música. 

A continuação não poderia ser mais incisiva: “Aí de mim, se não fosse as merda que escrevo?”, é um refrão que coloca no centro de sua existência a importância de poder se expressar. Sem romantizar a vida artística: “preocupado como eu vou fazer letra virar dinheiro?”, pois entre as pálpebras piscando de estresse e o sorriso “falso” que esconde a angústia, existe um abismo de problemas que constituem as nossas próprias tragédias cotidianas. 

Essa trinca inicial expondo o cenário social e subjetivo implicado, será daí por diante retrabalhado por uma sequência de linhas de autoafirmação que são menos uma expressão meramente egoíca, e mais uma espécie de persona apresentada esteticamente – o que não é um mero personagem fictício – para bater nas plantas da indústria. Faixas como “Vida Que Levo” e “Total Anos 90” são “solares”, no pique sertão nordestino. Só vegetais resistentes sobrevivem, porém só as pedras serão eternas. 

A arte da dupla NEGGS & YANGPRJ se posiciona nesta estreia de modo irredutível diante tanto da indústria, quanto do público algo-ritmado. Com uma visão bastante afiada de como lidar com o “eixo”, no jogo, bater nos jogadores fake e se aliar aos de verdade, pois tanto na “guerra quanto na paz”, o certo é o certo. Expressão que é redundante, mas que se recobre de significado pelos valores anunciados em “Zero Estresse”. 

Em “Mega Sena Freestyle” vale a pena perceber o entrosamento entre NEGGS & YANGPRJ, onde o Freestyle é também incorporado de certa forma ao beat cheio de quebras. “Não Fazemos Amor” mostra outras dimensões de entendimento do MC diante de sua companheira, conseguindo fugir de todos os clichês melosos colocados em geral em lovesongs, e abordando a arte de viver junto. 

O beat que melhor evoca os anos 90 está em “Mais que Dinheiro”, e traz Vandal como uma das referências evocadas ao longo dos discos da dupla. E aqui há um outro ponto de autenticidade. Sabe-se que esconder referências é um recurso muito utilizado, e signo de desonestidade intelectual, outro é o procedimento do NEGGS em sua lírica. Ele utiliza os Racionais MC’s e o Vandal tanto em referências sampleadas, como em citações diretas e esse é um uso que separa os homens dos meninos.

NEGGS
NEGGS

A história da arte de modo geral está plenamente recheada de recriações, homenagens e inspirações abertas, o interessante aqui é como NEGGS repete insistentemente suas referências, recriando-as, sem subserviência ou mera homenagem. Mas isso sim, incorporando-as ao seu trabalho e consequentemente tornando-as suas. E apesar de poucas pessoas se debruçarem sobre essa questão nos tempos atuais, o nome disso que NEGGS faz é sample, roubo criativo, “patchwork”, algo próprio da cultura Hip-Hop. 

As últimas três faixas de “VTML” traz variações da temática hegemônica do disco, com o funk “Nasci Pra Isso”, um beat muito bom do YANGPRJ, onde NEGGS desfia a outra metade crítica de “Só Sei Fazer Desgraça”. Abordando também uma questão de toque, também pouco analisada no rap brasileiro, os discursos sobre dinheiro. Ao longo de todo trabalho, ao mesmo tempo em que afirma os valores éticos e políticos do Hip-Hop, NEGGS não se omite sobre a questão de conseguir fazer dinheiro com sua arte. 

A última faixa, “Não Desce Remix” traz referências a Nic Dias, Vandal e o Poeta, e ataques severos ao professor de marmita Filipe Ret, ao Chefin e ao L7, mostrando que o público nordestino que “consome” – e aqui esse termo é muito importante –  esse nomes, na verdade são o público pop, não do rap. NEGGS apresenta em todo o seu disco de estreia essa visão essencial de que o público nordestino precisa apreciar, fruir e consequentemente consumir, o Hip-Hop feito localmente. 

Se politicamente em uma visão macro, o nordeste tem sido uma região anti fascista, é fundamental também que ela busque ter atenção com os seus cenários de rap e da cultura Hip-Hop. Ao longo de toda região norte e nordeste possuímos artistas de excelência, porém a construção cultural brasileira, historicamente nos faz perceber os sucessos pop através da lente sudestina e diante disso o NEGGS é bastante enfático: “Pau no Cu do Eixo”.

Juntos, NEGGS & YANGPRJ construíram um disco que transcende a estupidez de melhores do ano, estamos diante de um documento histórico da renovação do Rap feito no Piauí, preenchido de uma violência salturar e de uma qualidade própria e apropriada pelos artistas. É boombap mas não tem drumless, é “Total 90” mais é enraizado no Piauí e aponta para o futuro; saindo de Teresina, absorvendo e expressando a força e a riqueza do seu território e pronto para ganhar o mundo, para escorrer para o mar, como no Delta do Parnaíba!   

Continua…

-NEGGS & YANGPRJ com uma qualidade violenta e a renovação do Rap feito no Piauí – PT. I 

Por Danilo Cruz 

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