MC Piaget lançou a “Fórmula do Lucro”, um disco plural, gastão e crítico.
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MC Piaget lançou a “Fórmula do Lucro”, um disco plural, gastão e crítico. 

Em sua estréia solo, MC Piaget apresenta “Fórmula do Lucro”, um disco que passeia por diversas sonoridades e apresenta criticidade.

MC Piaget

Um disco com samples de Jorge Ben e Black Sabbath, com variações de beat que vão do Trap ao Drum’n Bass, passando pelo Plug e pelo Grime e que aborda conceitualmente as violências e contravenções dentro do contexto de jovens negros no capitalismo tardio, em pleno Sul Global, Brasil, Salvador, Cajazeiras. É isso a “Fórmula do Lucro”. Sem perder de vista a crítica social bem humorada e pequenas pitadas de crítica política e visão de mundo ao longo de suas 14 músicas. 

Certamente, MC Piaget não vai ficar rico e a “Fórmula do Lucro” não é uma receita de coach – ao modo Filipe Ret de fazer quentinhas – porém, desde já se insere na rica tradição de versatilidade, gastação e crítica política peculiar, do rap feito em Salcity. Cria do bairro de Cajazeiras, celeiro de nomes como Nouve, Saca Só, Áurea Sem Semiséria e Pivete Nobre, MC Piaget é parte integrante de toda uma geração de MC’s e beatmakers que renovam e expandem os horizontes do rap baiano.

Foi graças ao meu amigo headB, beatmaker e MC que saquei o lançamento do disco que iria ser lançado. Além de headB, jxkv, Balahype, Fwizy, prodbydeiv, md, h4teb e Jovem Deive, são os outros beatmakers que compõem a diversidade e o peso sonoro de “Fórmula do Lucro”. Nas rimas com MC Piaget temos as participações de Bruno Kroz, Jxkv (que também é MC), Aimar, Devil Gremory, Manny V Rich, Nyang The Baby, Jxvem Ellca e Jason Dreezy. Um prato cheio para quem quer conhecer os novos nomes do cenário soteropolitano. 

No entanto, essa diversidade de artistas estão todos colocados sob as leis do “jurista” MC Piaget, não por leis, mas pela visão de fazer render as singularidades de cada um, para essa “Fórmula do Lucro”. Não é fácil conjugar essa pluralidade de expressões e ainda assim manter a coesão de um proposta estética, porém o artista de Cajazeiras, consegue e com louvor. 

Talvez, uma das principais características trazidas em a “Fórmula do Lucro” que rompe tanto com a fraqueza de pseudo trabalhos conceituais e ao mesmo tempo com os “fake bandits” do Trap ostentação, seja a forma como MC Piaget utiliza o discurso indireto livre, para amalgamar o seu personagem e o subtexto crítico. Isso no campo lírico utilizado pelo MC e agregado pela qualidade dos participantes é algo fundamental para que o ouvinte crítico não sucumba à hojeriza que muitos discos de “Trap” e congêneres costumam provocar.  

Outra, é o desafio técnico de um MC jovem que se experimenta com solidez em diversas formas de beat, mostrando-nos algo que qualquer pessoa que acompanha o rap baiano sabe, aqui em geral os verdadeiros MC’s não se rendem aos maneirismos estilísticos e copiados de um gênero. E o MC Piaget mostra isso com excelência neste primeiro disco solo.

Já na abertura do disco com a Intro “1 Fino e 1 Solto” – um beijo no seu sorriso Jovem Deive – o sample do arranjo de cordas do maestro Arthur Verocai e do violão revolucionário de Jorge Ben em uma base de Trap, já nos mostra que estamos diante de um trabalho fora da curva. Olha só que jogo sensacional de referência e de atualização sob seus próprios termos entre a ode a “Cassius Marcelo Clay” e a introdução de um universo que tem um agiota – ops, agiota não, jurista – que empresta dinheiro a juros para comunidades negras depauperadas. O choque de gerações muitas vezes nubla nossa percepção, e no rap não é diferente. 

Porém, é com trabalhos como a “Fórmula do Lucro”, que a escuta atenta e a busca por compreensão, de sob qual universo de referências os jovens artistas erigem suas expressões, que podemos compreender não apenas o tempo presente, como a renovação dos melhores aspectos críticos através dos quais o rap se reinventa. Nesta introdução, Mc Piaget já começa o trabalho de subversão do universo de referências que contaminam a subjetividade de jovens homens negros, através da inserção de um audio das puta oprimido um dos nossos. 

O “espírito de facção” e do empreendedorismo do tráfico é o tema de “Bala no Judas” em um trap pesadão do Fwizy e que tem a participação do Jason Dreezy, que junto a MC Piaget descreve um rolê de um gangsta – o personagem contraventor, criminoso da “Fórmula do Lucro”. “DHPP” (PRODBYDEIV & MD), segue na trilha desse universo do crime, em referência ao Departamento Estadual de Homicídio e Proteção à Pessoa. E aqui, sabemos que a crítica é intrínseca à própria instituição policial que promove sob as ordens do estado o constante genocídio da população negra. 

Longe de proteger as pessoas, as forças policiais são meros instrumentos de proteção à propriedade privada e a opressão, encarceramento e operacionalização da Guerra Racial de Alta Intensidade, pelo nosso Supremacismo Branco (by Fred Aganju). Ao assumir a violência escancarada – o duplo homicídio – Mc Piaget está muito longe de normalizar ou mesmo de apologizar o crime, mas antes, nos traz a possibilidade de refletir sobre a formação dos nossos gangsters (By Daniel dos Santos). 

“Crescendo oprimido, violado na mão do estado, agora crescido eu violo eu só ando armado, meu maninho que se foi sem saber o básico, porra meu pivete é toda vida, você vai ser vingado”

O diabo mora nos detalhes e nesse verso inserido em meio às descrições da guerra fratricida em que vivemos, MC Piaget insere uma espécie de “easter egg” sobre o que de fato é esta “Fórmula do Lucro”. A música ganhou um videoclipe recentemente, que teve a dirção do @visualbygdm

Um dos possíveis hits do disco – por aqui já é – “Na Chapa” traz outra parceria entre MC Piaget & Jason Dreezy e entre o “na chapa e o nós chapa”, inserções do tema luta de classes: 

“O dedo coça, aperto mermo

Tiro a vida de herdeiro

Em Cajazeiras guerrilheiro” 

MC PiagetO beat do headB com inspirações jamaicanas, recebe a reterritorialização na chave do sexo & drogas. Na sequência “Calça Nilo Cargo”, outra produção do headB, evidencia a aproximação de MC Piaget com as marcas do Underground de Salcity e é o grande ponto de inflexão presente no disco, onde a utilização do discurso indireto livre se torna ponto lírico central do disco. Em um álbum com o título de “Fórmula do Lucro” e dado o contexto social e político que tem contaminado o rap brasileiro em todas as suas expressões de gênro. Qualquer um pensaria que estamos diante do mais do mesmo – a saber – discurso sobre ganhar dinheiro, ostentar, fruto da meritocracia e blábláblá. 

Outra é a proposta presente neste disco, onde de certo modo, MC Piaget caricaturiza a figura do “agiota” (o personagem), ao mesmo tempo em que espalha ao longo do disco as possíveis consequências violentas que essa busca pelo “crédito”, pelo dinheiro para consumo imediato de bens e serviços no capitalismo – sejam roupas caras, motos, ou mesmo drogas. E por outro lado ainda, aqui nesta faixa – nos mostra de modo didatico como o capitalismo contamina a subjetividade de jovens negros periféricos, ao ponto da plena identificação do ser com o ter. 

Junte-se a isso, o clima de hedonismo hard – nada contra a busca pelo prazer – e a opressão policial feita pelo estado – que permite e em certo nível incentiva – e temos o núcleo político e social central de “A Fórmula do Lucro”. Por vezes, a incapacidade de interpretação de muitas pessoas, em um país onde o analfabetismo funcional é recorde, não permite observar riquezas líricas como as que MC Piaget apresenta neste trabalho. 

Sobretudo, porque ele não utiliza as fórmulas consagradas para imiscuir a sua mensagem, antes é fruto total do tempo presente, e com isso, traz um ar de contemporaneidade que é ao mesmo tempo divertido e sério ao extremo. E o exemplo disso vem em seguida com “Jingle dos Agiotas” que já começa com um áudio onde alguém diz não ter dinheiro para pagar e é metralhado: 

“Onde minha moeda tá envolvida, eu não tenho amigo, se ele não pagar minha desgraça vai ficar fudido, pegou 5 mil no desespero para gastar no vício”  

Porém, o ponto – para nós – está no seguinte verso: “se ele não falar a verdade, minha glock vai falar”, onde o absurdo do que vivemos está exposto em diversos níveis. E na participação de Devil Gremory temos um dos versos que representam bem a gastação que só ocorre neste nível no rap baiano: 

“As puta viaja quando a gang tá na pista, fodo ela agressivo tipo um briga de torcida, com a camisa do Vitória vou parar o Tadalafila / Não posso traficar aos sábados, minha vadia é adventista” MC Piaget

Fechando a faixa o beatmaker e MC direto de Saskatoon no Canadá, headB, que também assina o beat da faixa “Fórmula do Lucro (interlúdio)”, que reforça todos os temas acima ressaltados. Três faixas, o drum’n bass em “Ela Joga”, o plug “Passa no Banco” e em “Minha Bê”, todas produções do Fwizy o tema são love sex songs onde o MC Piaget foge da comum misoginia, e mescla cenas de sexo com afirmações de lealdade a sua neguinha. 

Com “Meu Filho” outro épico da gastação que tem tudo para virar expressão corrente: “Eu como essa puta, eu quero de novo, você é meu filho, saiu do meu ovo”. A faixa traz as participações de Aimar, Jason Dreezy e JxvemEllca. Já em “Fogo na Woof” – eu sou velho e cachaceiro, acho que woof é algum tipo de maconha – MC Piaget faz algo que poderia ser temeroso, mete um duo com um dos senão o melhor MC de grime do Brasil hoje, Bruno Kroz, e não faz feito no beat do Balahype. 

O disco chega ao fim com “Sua Ref” prod. headB, onde MC Piaget convida Manny V Rich e Nyang The Baby, uma música basicamente de braggadocios. E a “Fórmula do Lucro” chega ao fim após um tour de force sonoro e poético, um trabalho que como alguns outros deveria ser muito mais ouvido, principalmente pelo pseudo público de rap de Salvador e região, assim como do estado. 

Por todas as razões acima mencionadas, MC Piaget faz uma estreia em disco solo muito importante para a renovação do rap e da cultura Hip-Hop de Salvador. Conceitualmente sólido e musicalmente instigante, anos luz das águas de salsicha do mainstream, um álbum que demanda do ouvinte capacidade de interpretação e que possui a capacidade de expandir criticamente, e neste sentido mais uma vez inverte a questão. 

Não se trata de quem ou quantos vão ouvir, mas de quem possui a capacidade de entender, boa sorte!    

-MC Piaget lançou a “Fórmula do Lucro”, um disco plural, gastão e crítico.

Por Danilo Cruz 

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