Mattenie & Barba Negra lançaram “Machiavelli Cosa Nostra” em duas partes em uma nova colaboração de boombap/drumless Hip-Hop subversivo!
Mattenie & Barba Negra lançaram em maio deste ano, um disco que é a prova de que o sample como alicerce da música rap é uma forma de pensamento. Musicalmente, o disco “Machiavelli Cosa Nostra” é a transmutação do projeto que estava previsto pelo Barba Negra como a sequência dos assaltos do Terrível Ladrão de Loops ao redor do globo. Inicialmente planejado como a sequência dos dois volumes do “Pirata em Tóquio”, lançado em 2022.
A sequência de “Malbec & Fettucine”, primeiro disco da dupla, em “Machiavelli Cosa Nostra” as ambiências e paisagens sonoras construídas com a precisão dos melhores artesãos pelo Barba Negra, retiradas de discos italianos, recebem o complemento poético e político do Mattenie. Explodindo subversão e dialogando com a utilização de exemplos imagéticos e poéticos da história do Rap e da cultura Hip-Hop, que muitas vezes se compraz em utilizar o crime organizado como metáfora.
Outra é a estratégia “maquiavélica” utilizada pela dupla Mattenie & Barba Negra, ao samplearem a cultura italiana e suas relações com a nossa própria cultura, atualizando um outro horizonte de possíveis em sua arte. Remetendo o ouvinte ao território da Sicília, local de nascimento da organização criminosa Cosa Nostra no século XIX, automaticamente nos leva a pensar por exemplo, na atualidade do crime organizado em nosso próprio país. Mas, vão muito além.
Local de milenar importância histórica e política para o velho continente europeu, a Sicília é a maior ilha do mar Mediterrâneo, e de lá exportou a organização mafiosa Cosa Nostra para os EUA no fim do século 19 e início do século 20. Ao mesmo tempo, a Sicília é um local fundamental para a rica tradição cinematográfica italiana – utilizada por Barba Negra em sample – desde filmes do movimento neo realista como em “A Terra Treme” (dir. Luchino Visconti), do cinema político italiano como “Bandido Giuliano” (dir. Francesco Rosi) até clássicos mais modernos como “Cinema Paradiso” (dir. Giuseppe Tornatore) e mesmo como local de filmagem para o norte americano “O Poderoso Chefão” (dir. Francis Ford Coppola).
A poesia de Mattenie e a produção do Barba Negra ao longo de todo o disco, nos leva a pensar sobre a frase: “Se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”. Essa frase lapidar, presente no clássico da literatura italiana “O Leopardo” do escritor Giuseppe Tomasi di Lampedusa, mostra-nos como o tema da máfia presente no título é bastante ambíguo e complementar ao sistema de onde nasce. Da mesma forma que o Rap e os seus milionários criados a partir da crítica ao sistema capitalista.
As duas músicas presentes na primeira parte do disco: “Ensaio sobre o progresso” e “Eu só queria dizer” são duas afirmações que trabalham de modo subversivo a partir do tema: “Machiavelli Cosa Nostra”. Como “Condottieres” do Rap, Mattenie e Barba Negra, estabelecem uma linha de fuga e guerrilha ativa entre o estado e o crime, papel primordial da cultura Hip-Hop como movimento contracultural. Corroendo as margens dos dois pólos, buscando chegar em um mar onde os valores positivos de igualdade e liberdade negados pelo Estado capitalista e somente simulados pelo crime organizado, possam de fato ser conquistados.
Apesar de nos lembrar do brilhantismo de Ronaldo Fenômeno em sua incursão pelo futebol italiano, o time e a melhor referência a se pensar o time aqui reunido é o Napoli de Maradona, Alemão e Careca. Trazendo os feats de Mistah Jordan, Nairobi, Dukes1Soldado, Rato, Mascote, Dário Inerente, Galf AC, DJ Novset, o disco reúne a fina flor do que de melhor existe no rap underground nacional, com artistas do nordeste, sudeste e sul. Dando-nos – a torcida do under brasileiro – o mesmo orgulho que Maradona levou para o empobrecido sul da Itália.
A forma e o conteúdo tanto de escrita como de rima e flow do Mattenie, possui um clamor e uma força de construção e emissão de ideias que se fortalece pelas ideias refletidas em um modo de vida. Algo que é impossível de ser simulado, artistas que quebram as ideias senso comum, sempre conseguem desenvolver suas próprias singularidades em um estilo forte o suficiente para que nos primeiros segundos sejam identificados. Uma distinção que o MC de Jacareí carrega com bastante originalidade.
Produções do Barba Negra tem se notabilizado como uma das melhores coisas da música brasileira contemporânea. Um artesanato que não trabalha com maneirismos hoje muito comuns na utilização de samples, por exemplo. Como um dos MC’s mais importantes a surgir no começo dos anos 2000 e com todo esse tempo de cultivo da cultura Hip-Hop em suas diversas expressões, Barba Negra conseguiu desenvolver também um estilo de produção muito único.
O filósofo italiano dizia que o melhor é ser amado e temido, mas entre se não houver escolha, é preferível ser temido, pois o amor é volátil e o temor não. Subverter – hoje um chaveiro do marketing musical da indústria cultural – é de fato algo levado a cabo em “Machiavelli Cosa Nostra”, nos levando a amar esse tipo de trabalho pela força artística e pelos valores que ele nos oferta, não por sermos subjugados pela máquina publicitária de promoção, algo muito comum, na produção de ignorância hoje do rap brasileiro.
Em uma época onde o sample se tornou muitas vezes mera especiaria no mercado simbólico da economia da Indústria cultural, discos como “Machiavelli Cosa Nostra” nos apresenta um total contraponto. Nos colocando para pensar sobre todo o lastro em que se ancora, não apenas musicalmente, mas histórica, social e politicamente. Colocando o ouvinte para buscar relações entre os temas abordados e a forma como eles de fato subvertem o local, as referências de onde partem. É essa a estratégia utilizada por Mattenie e pelo Barba Negra com louvor.
-Mattenie & Barba Negra subvertendo o crime como duplo do Estado em “Machiavelli Cosa Nostra”.
Por Danilo Cruz
