Entre cantos meditativos e versos combativos, Mateus Aleluia interrompe o fluxo acelerado do Capital e nos conduz por trilhas de afeto e ancestralidade.

“Mateus Aleluia”, álbum recém-lançado pelo compositor que lhe empresta o nome, convida o ouvinte a desacelerar o ritmo da vida — desta vida anabolizada pelo Capital, que nos impõe uma percepção acelerada do tempo, por meio de horários rígidos para sair, chegar, permanecer…
Empilham-se tarefas desgastantes, muitas vezes sem sentido, realizadas apenas pela necessidade de custear a própria existência. Não à toa, vivemos um surto de doenças mentais mundo afora. No Brasil, em apenas dez anos, batemos recordes de afastamentos do trabalho por depressão e ansiedade.
O álbum nos convida a ingressar em outra esfera temporal. Suas músicas são lentas, meditativas, conduzindo-nos a um espaço de tranquilidade — sem afazeres degradantes, sem relógios marcando o tempo e assombrando nossas mentes. Embora haja música nesse lugar, encontra-se também a paz do silêncio, que aguça a audição e nos permite perceber os sons mais sutis.
Quinto álbum solo do compositor baiano — último remanescente do lendário grupo Os Tincoãs —, “Mateus Aleluia” foi lançado no dia 9 de maio. Desde então, oferece ao público um mergulho íntimo em uma atmosfera que emana espiritualidade. Mas não se trata de uma espiritualidade inofensiva ou anestesiante: há ali também crítica, denúncia e resistência.
É o que vemos, por exemplo, em “Pantera Negra”, um manifesto antirracista que busca conscientizar a população negra sobre sua condição de explorada e a conclama à organização política. Com versos como “Salte livre, minha pantera, filinês de fera”, Aleluia reafirma seu compromisso com a luta por igualdade e justiça social.

Essa canção é uma das doze composições reunidas no álbum, distribuídas de forma pouco convencional em apenas seis faixas. “Pantera Negra”, por exemplo, aparece junto com “Pra Tentar te Esquecer” e “Jogo de Engano” na faixa 4.
Essa organização colabora para a fluidez da escuta, reforçando a percepção de um tempo orgânico, que escorre sem rupturas. O disco convida a uma escuta contínua, na qual o fluxo sonoro se mantém coeso e, ainda assim, se transforma — por meio de transições quase imperceptíveis.
Outro elemento que reforça essa temporalidade ancestral é a duração das músicas. “No Amor Não Mando”, que abre o disco, tem quase dez minutos e já define o tom da obra: leveza, entrega e a plenitude que nasce do amor como força motriz — sentimento do qual Aleluia se faz intérprete e guia.
Na sequência, “Doce Sacrifício / Filho / Acalanto” tece uma trama afetiva, composta por memórias familiares e heranças culturais que evocam a figura materna e a ancestralidade da “Mãe África”.
A musicalidade do álbum está profundamente enraizada nos elementos ritualísticos do candomblé, expressando a conexão indissociável entre o sagrado e o profano na obra de Aleluia. O próprio artista define sua sonoridade como uma expressão espontânea, guiada pela intuição e pela natureza das coisas.

A capa do álbum, com arte original de Athos Sampaio, dialoga com a proposta estética e espiritual da obra. O mesmo se pode dizer da produção sensível e minuciosa de Thadeu Mascarenhas, que respeita e amplifica a densidade simbólica das composições.
Está prevista uma edição especial em mídia física. O formato em vinil será lançado ainda em 2025, com previsão para o segundo semestre. Assim, o ouvinte mais imersivo poderá desfrutar da experiência tátil da materialidade, aprofundando-se ainda mais no universo de Aleluia.
Podemos afirmar, sem receio, que “Mateus Aleluia” ultrapassa os limites do que convencionalmente se entende como um álbum musical. Trata-se de um testemunho vivo de uma trajetória artística moldada pela ancestralidade africana.
Uma celebração do amor em suas múltiplas formas. Um convite à reflexão sobre identidade, espiritualidade e pertencimento. Uma obra que transcende o tempo mecânico e sufocante do Capital, conectando passado, presente e futuro em um canto de beleza e resistência.
Carlim
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