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O Multiculturalismo feminista em “Prima O Poi”

Mandale Mecha e Riciclette lançam um single que celebra a diversidade musical da música latina, através do ser feminino. 

Arte de capa do single “Prima O Poi”.

A Mandale Mecha por si só já é uma banda caracterizada pelo seu multiculturalismo. Formada em Florianópolis no ano de 2019 do encontro entre a argentina mais brasileira de SC, Michu (Petit Mort), com outros três brasileiros, Chico (Skrotes), Gustavo (ATR) e Samuel (Munõz).

Em seu release a Mandale se define como “(…) um crossover entre reggaeton, cumbia, tropical new wave, jazz, música eletrônica, hip hop e psicodelia”. Mostrando toda diversidade de ingredientes presente em seu caldo sonoro.

Caldo este que ficou mais grosso com o recente lançamento do single Prima O Poi. Lançado conjuntamente com a banda italiana Riciclette na primeira semana de março. Marcando, assim, com sua contribuição artistíca, o Mês da Mulher. 

A Riciclette nasceu em 2015. Fruto dos  laços artísticos compartilhados, somados à amizade  entre essas quatro mulheres. Nina (voz), Giulia (guitarra e voz), Dani (ukelele, teclado e voz) e Federica (percussão e voz). 

As bandas se uniram a fim de compor uma música que celebrasse o feminino através da música, aproveitando o ensejo do dia 08 de março, marcado por ser dedicado à celebração do ser mulher. Em especial sua dimensão social, política e cultural.

Prima O Poi, portanto, caracteriza-se pelo seu caráter híbrido e transnacional, marcada pela mistura linguística e cultura, tendo na mulher o foco em comum. Ao longo da execução da música o português, o espanhol e o italiano se entrelaçam, construindo uma estética miscigenada, interligando territórios culturais distintos. 

Estas são as amigas que forma a Riciclette.

Essa diversidade cultural nos coloca diante de uma identidade fluida, que caracteriza muitas produções musicais ligadas à música latina globalizada. Levando em consideração a expressão italiana prima o poi (algo como mais cedo ou mais tarde), podemos considerar, funciona como eixo conceitual da música. Sugerindo que algo inevitável está para acontecer. 

E daí podemos tentar fazer uma leitura política da letra. Vamos ao refrão:

Sabés bien to’ lo que va a pasar /
Un día la gente se cansa

Os versos acima nos colocam diante uma dimensão estética evidente. Sugerindo haver um limite para suportar a opressão ou relações de caráter abusivo. 

Logo após, temos o verso abaixo, que agrava essa ideia:

Tem que agradecer que no pedimos venganza

Isso porque mostra uma postura ética diante do algoz, que deve agradecer por não se tratar de uma busca por vingança. A intenção parece ser a de mostrar que a postura da mulher diante de seu agressor é de não se equiparar a ele. 

A música sugere que a resistência ainda está no campo da expressão, do universo da representação, manifestado na dança e na afirmação identitária, porém, podendo escalar e se tornar algo mais explosivo.

Outro verso central é:

Mujer, lo que tú baila no llora

Neste verso se concentra uma ideia muito forte: a da dança como forma de transformação da dor. Dessa forma, em vez de expressar sofrimento através do lamento, o corpo responde como movimento, através da dança. A dor se converte em energia estética. 

Esse tipo de recurso estético está presente em diferentes tradições culturais lation-americanas e afro-diaspóricas. Podemos citar ritmos como samba, cumbia, funk, reggaeton, enfim, todo tipo de música popular. 

Olha aí a galera da Mandale Mecha numa foto descontraída.

O transcorrer da música nos coloca diante de um discurso empoderador do feminino. O corpo da mulher nos é apresentado como território político. 

Quien te ha amarrado tus pies
Ya no merece tus horas

Vejam, essa imagem de ter os pés amarrados por alguém, certamente representa dispositivos de controle do corpo feminino de forma social, afetiva ou mesmo cultural. Coisa tão comum numa sociedade que tem no machismo um de seus elementos estruturantes. 

Contudo, logo somos colocados diante de uma resposta combativa, mostrando o desprezo por quem assume essa função controladora e ofensiva. 

Quiero to’ las gatas con la frente arriba

Neste verso vem o clamor à resistência. Um chamado coletivo a que as mulheres não abaixem a cabeça, recusem a submissão, a vergonha. 

Um dos versos mais densos da música afirma:

“Mis lágrimas no lo olvidan / De sangre precolombina”

Esses versos levam a um mergulho mais profundo em nossas raízes socioculturais. Nos lembrando da dor presente em nossa memória indígena e colonial da América Latina. Não consiste apenas de um drama pessoal; isso porque existe um passado de violência histórica inscrito na identidade cultural. 

Diante de todas essas considerações, podemos dizer que a música trabalha três níveis simultaneamente. São eles: o político, o emocional e o histórico. Portanto, a mulher apresentada na letra não é uma abstração. Mas detentora de uma materialidade apresentada por esses três elementos acima citados.

Sintam o swing cheio de malemolência de Prima O Poi e sinta-se integrado a uma dimensão cheia de cores, costumes, modos de ser e se estar no mundo. 

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