“Lunar” do 16 Beats, provoca uma importante reflexão sobre amores pretos!
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“Lunar” do 16 Beats, provoca uma importante reflexão sobre amores pretos! 

Contando com apenas 5 faixas, o EP Lunar do MC baiano 16 Beats chega conceitualmente propondo uma reflexão sobre amores pretos!

16 Beats

Fora dos holofotes, neste caso na sombra da noite, é onde a cultura Hip-Hop e a história de resistência se fazem e dentro desse espectro, 16 Beats é um dos MC’s essenciais para se entender os últimos 10 anos da cena rap em Salvador e na Bahia. Parte do grupo Malaô MC’s e MC de batalha que travou duelos épicos com Dark MC, por exemplo, fez parte do Coletivo Na Calada e após seguiu carreira solo. 

Filho de Pernambruxés (bairro de Pernambués, Salvador, Bahia), 16 Beats possui um EP colaborativo com o extinto grupo N’Ativa: “Tramas” e a mixtape solo: “É Pra Lá Que Vai” lançados em 2016. Depois, lançou diversos singles, o EP C.O.L.Ô.N.I.A de 2017 e o disco “Dizza Baby” em 2021, além de audiovisuais e freeverses. Sempre unindo a correria da vida ao fazer artístico, sem glamour, sem likes, mas sempre com esmero poético musical. 

-Leia nossas matérias sobre diversos lançamentos do 16 Beats

Como alguns outros MC’s do cenário baiano, 16 Beats foi educado e forjado para a luta do Povo Preto, nas fileiras do Reaja ou Será Morto, Reaja ou Será Morta com o nosso mestre Hamilton Borges. Esse processo é de suma importância, tanto para o jovem homem negro Anderson como para o direcionamento político do trabalho do Dizza aka 16 Beats. Algo que acrescentou camadas cada vez mais complexas de pensamento e de poética ao seu trabalho, algo que desemboca agora em Lunar, o seu novo EP.

Contando com a produção do beatmaker Mansha, Lunar possui seis faixas, uma intro e 5 músicas onde o tema é o Amor. Porém, ao contrário do que comumente vemos e temos o desprazer de ouvir, MC’s rimando amor com dor, e ou expondo suas contradições subjetivas, 16 Beats problematiza questões, aborda as relações amorosas de um modo indigesto. Traz a luz, mais do que uma visão sobre o amor, uma proposta de autoconstrução e de perspectiva onde o amor próprio e amor preto, andam lado a lado.

Trocamos uma rápida ideia com Dizza para entendermos um pouco melhor suas ideias sobre esse trabalho: 

Oganpazan – Como surgiu a ideia do EP Lunar? 

16 Beats – “Por muitas vezes enquanto escrevia esse trabalho, a lua estava em fases diferentes. O luar sempre tava lindo e eu sempre estava sozinho escrevendo e observando essas fases.”

A proposta do EP surgiu quando notei que poucos falavam de questões do campo afetivo. Poucos conseguem narrar sentimentos verdadeiros, o mercado artístico tem projetado artistas a criarem conteúdos superficiais e plásticos. Todos cantam as mesmas coisas, parece que são movidos sem sentimento algum.

16 BeatsOganpazan – Há uma crítica bastante contundente ao longo do EP à noção de amor romântico e as fantasias e idealizações que esta ideia suscita. É viagem minha? 

16 Beats – Não é viagem, você conseguiu sentir e entender o que deveria ser transmitido. O amor romântico é um delírio embranquecido, eurocêntrico. Nosso povo é programado para se odiar, se destruir. Quando você  consegue visualizar seu companheiro ou companheira como se fosse você já é um grande avanço. 

Oganpazan – Sobre quais bases você acredita que o amor preto deva se construir e o que é o amor para você? 

16 Beats – Uma vez Mara Mukami falou para mim uma frase que levo para vida. Ela olhou para mim e disse: “16, o amor é importante”. Essa frase me fez entender e refletir muita coisa. Amor é construção,  renúncia, cuidado. Mas não existe amor sem antes eu me amar primeiro.

Pois é esse mesmo amor que me faz repensar atitudes, esse mesmo amor me faz guerrear e continuar firme na pista. Salvador é uma cidade sangrenta, sombria e não existe prova de amor maior do que você ir se arriscar nessa mesma pista por quem você ama. 

Sobre a base da ideia de construção, de fortalecimento e fechamento verdadeiro.  Sobre entender que antes de amar algo ou alguém, se amar é fundamental e necessário 

Oganpazan – Por último, o que você deseja alcançar com esse EP diante do seu público? 

16 Beats – A arte que faço é minha necessidade de abrir as janelas da minha alma e mostrar para o mundo quem realmente sou, através do que sei fazer. O EP é um projeto experimental no qual mergulhei no Trap Soul, Jazz e até no samba. Foi mais um experimento pessoal em que senti vontade de fazer algo diferente do que sempre escrevi. Diferente das batidas agressivas e verdades cruas sobre nosso território, decidi falar de um território que poucos exploram. O território do coração.

Explorando esse território do coração e dos afectos pretos, 16 Beats nos apresenta um visão muito bem cartografada, sem sentimentalismos baratos, e sobretudo sem dramalhões. Fruto de sua vivência como motoboy que trabalha muito pelas noites, sob a luz da lua e com um apuro observativo de si e dos outros, de sua coletividade, o MC ultrapassa e muito qualquer mera analogia, com as fases expressas em Lunar. 

16 Beats

Em “Don’t Call Me”, não me liga em português, o MC expressa não o ressentimento de uma separação, mas a luta para esquecer algo que magoou, destes términos que para além das teorizações não se concluíram bem. O beat do Mansha vai na linha do Trap Soul, e a construção poética é a do afastamento irremediável, seja qual for o momento da outra pessoa.   

Em contraposição a música anterior, “Imagina (Carta para as Ficantes)” é uma pedrada contra toda e qualquer idealização proposta pelo ideário do Amor Romântico. Mais do que uma sequência de storytellings críticos, o que 16 Beats prospecta e projeta com raro crivo poético, são as fases e as afecções da paixão, do ser apaixonado, o que poderia nos levar a pensar que essa música deveria anteceder a interior. 

No entanto, nossos condicionamentos subjetivos não operam em linha reta e em escala de aprendizagem. Isso, 16 Beats nos deixa claro na aproximação entre as fases da lua, e a repetição induzida de um personagem – ele próprio? – entre um fim de relacionamento – Don’t Call Me – e a projeção de um outro – “Imagina”. E neste sentido, nos evidencia com muita qualidade poético musical, os ciclos “tóxicos” que condicionam relacionamentos.

O jogo de linguagem realizado por 16 Beats, construindo as duas primeiras músicas com a aliteração de “Não Me Liga” e “Imagina”, apresenta potência crítica e de apuro poético, que certamente não é qualquer MC que é capaz de realizar. E nas duas repetições, existe uma não tão óbvia menção ao estar no “Mundo da Lua”, expressão linguística que se refere ao ser apaixonado (“Imagina”) ou desligado (“Don’t Call Me”).

Um dos aspectos mais interessantes deste novo EP do 16 Beats é que ele não doura a pílula, não propõe soluções e muito menos posa de herói desconstruído. Em 5G (Lunar) o papo é sobre confusão mental e afetiva, entre o querer e o desejar, ou seja os aspectos construtivos da consciência e os impulsos determinados pelo inconsciente. Nos trazendo um excelente diagnóstico sobre os amores líquidos – as relações casuais – e o medo de se magoar, fruto muitas vezes de uma luta individualista, hoje tão em voga. 

16 Beats

Mesclando muito bem a construção poética que trabalha sempre na ambiguidade do querer e do desejar, entre o mero saciamento sexual e a incapacidade de construir algo mais sólido, e apresentando tudo isso com um flow que por sua vez mescla as lentidões e velocidades dos sentimentos e das visões de mundo. 

“Já faz um tempo que eu penso que é necessário me corrigir, nem tudo é flores, nem tudo é sorrir, nem tudo é sobre mim. Não quer problema não me procure, quer tempo me chama, me odeia, me ama para além da cama”

Nesta música, 5G (Lunar), podemos perceber o jogo intrincado que o poeta elabora, sem necessariamente se identificar como personagem mas apresentando vivências muito comum a muitos e talvez a ele mesmo. O que importa aqui é a forma como 16 Beats tensiona as contradições que muitos vivenciam hoje, em nossa contemporaneidade. Nos impulsionando a pensar o amor entre pessoas pretas e os diversos traumas carregados, fruto de séculos de colonialismo e neocolonialismo. 

O EPzinho finaliza os trabalhos com “Ilusão (Lua Cheia)”, e aqui ao se traçar por entre os versos que nos intervalos repetem: “Só Ilusão, mas eu acordei a tempo”, 16 Beats encontra um primeiro pouso pacífico ou quase, deixando em aberto o desfecho. Porém, ressaltando a completa negação de qualquer ideia romântica, ao citar por exemplo um conto de fadas originado na obra dos Irmãos Grimm. 

Neste último trabalho lançado, além dos beats de Trap Soul do Mansha, 16 Beats se reafirma como um dos importantes nomes da nossa cultura Hip-Hop, um MC dono de técnica e sobretudo de ideias que fogem da mediocridade. Capaz de abordar temas complexos e dar-lhes a profundidade necessária. Infelizmente, não é um artista com carreira, em um cenário cada dia mais plastificado, fake, onde os holofotes não se direcionam para quem deveria, mas para quem ou possui um investidor e ou é aquele capaz de fazer concessões e embarcar na última onda!

Dez anos depois, 16 Beats segue atravessando a cidade, invadindo os favelão que muitos não invadem, para levar alimentos, nutritivos para o corpo e para a alma do seu povo! 

-“Lunar” do 16 Beats, provoca uma importante reflexão sobre amores pretos!

Por Danilo Cruz 

 

 

 

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