Algumas Lições das Lições: (Uma reflexão sobre “Só Bato em Cachorro Grande, do meu Tamanho ou Maior”, de Cidinha da Silva)
Anos atrás na Capoeira Angola treinávamos atentamente um tipo de rolê (movimento de saída) que era a defesa contra um rabo de arraia (movimento de ataque) muito incômodo, porque te alcançava justamente quando era você que estava fazendo o seu rabo de arraia, em uma espécie de “ataque dentro do ataque” com lógica similar à de alguns movimentos do Win-Chun chinês.
Na época nos disseram que esse rolê fora criado pelo saudoso Mestre João Pequeno, como defesa do golpe inevitável do Mestre João Grande, no decorrer de muitas décadas de parceria e disputa nas rodas da vida, no tipo de processo de aprendizado que te desafia ao tempo que provoca o desenvolvimento ativo de respostas.
Lembrei desse treino logo no início da leitura do livro propriamente dito, que são as 81 Lições do Método Sueli Carneiro. Porque atravessar as 81 lições me lançou em uma multi-perspectiva na qual às vezes eu lia analisando o livro, sua estrutura, sua cadência, seu papel na rica estante das obras da escritora Cidinha da Silva, às vezes eu lia como se eu estivesse ao lado de Cidinha vivenciando todo aquele caminho de migrante mineira raçuda contra a selva de pedra, às vezes eu lia somente as lições como versículos do livro dos Provérbios que me impeliam pra essas vívidas reflexões sobre aprendizados meus mesmos, com Dona Sueli Carneiro tantas vezes me lembrando minha Yá Marlene Rodrigues e meu Mestre Jogo de Dentro em seus métodos de ‘ensinar a quem quer aprender e aguenta o aprendizado’.
Por isso a primeira Lição/Percepção que o “Cachorro Grande” me trouxe, foi fundamentalmente uma percepção metodológica: a de que a sistematização do Método Sueli Carneiro, ocorre simultaneamente ao desenvolvimento do Método Cidinha da Silva de Aprendizado Ativo. Ou seja: o Jogo de Capoeira só ocorre (o bom jogo) se os dois jogadores possuírem a condição de complementar com respostas ativas, os movimentos um do outro, voltando ao treino lá do início.
E paro nessa primeira lição porque sou só discípulo que aprendo e o livro é muito mais do que isso.
O “Só Bato em Cachorro Grande”, é um livro que cumpre a rara função de transmissão geracional de um legado importante, que é a vida em militância de Dona Sueli Carneiro. É uma homenagem à Sueli Carneiro militante organizadora e realizadora. Pensadora do que organiza. Consigo visualizar com muita tranquilidade no século pós-abolição, as grandes fraturas históricas nas lutas afro-brasileiras que foram o Estado Novo de Getúlio Vargas e a Ditadura Militar de 1964, períodos após os quais as militâncias negras tiveram em parte que se reconstruir praticamente do zero, sem continuidade teórica, sem continuidade estrutural ou patrimonial, suas lutas e instituições.
De certo modo, tem sido missão dos pesquisadores das décadas recentes, reatar os laços e caminhos rompidos entre essas gerações, demonstrando às vezes continuidades e similaridades, estratégias de correntes de transmissão que conseguiram fazer atravessar entre uma ditadura e outra, obras, lugares, velhas e velhos militantes tenazes, com histórias pra contar. O “Cachorro Grande” antecipa esse caminho, trazendo em vida Sueli Carneiro para as outras gerações, através da perspectiva observadora e da prosa sempre elegante e lúcida de Cidinha da Silva.
Sim, sim, esse livro é um privilégio. Entenda isso quando ele estiver nas suas mãos. As lições contidas no livro, são testemunho de uma relação de aprendizado que percorre caminhos parecidos com os nossos aprendizados iniciáticos, que incluem o aprendizado pelo tempo, o aprendizado pelo compromisso, o aprendizado pela formação e o aprendizado pela confiança. E tudo isso conquistado pela aprendiz que nos compartilha o livro.
Em tempos em que abrindo uma rede social da vida você é assaltado por carrosséis de cards que gritam em cores estudadas frases como: “sabe o que Oxum quer te dizer hoje?”, “entenda aqui o significado filosófico da cantiga tal e tal”, “calma, leia aqui o que o Mestre Pastinha tem pra você essa manhã!”, é realmente um privilégio ter em mãos lições que são testemunhos de um diálogo de vida, inclusive, com os conflitos e atritos que o longo prazo sempre nos reserva.
De certa forma, as 81 lições dão a impressão de manter uma cadência cronológica que pode nos apresentar alguns caminhos da autora em sua formação pessoal e política, ao tempo em que nos mostra também os caminhos do Geledés e da própria Doutora Sueli Carneiro na coordenação da instituição, possibilitando ao leitor atento, acompanhar através das lições, momentos chave das últimas décadas de organização negra no Brasil em diálogo nacional e internacional. O livro nos apresenta sem nenhuma romantização, mas com muito afeto, a grandeza do Geledés (ou de Geledés) e a grandeza de Sueli Carneiro.
Tenho repetido uma lição que guardei de Cidinha da Silva, quando a escutei falar que tinha orgulho de ocupar o espaço dela escolhendo “não bajular ninguém e não passar por cima de ninguém”. Essa lição já está estampada na capa do livro, com a afirmação que o nomeia, e corresponde à lição Nº32, mas aparece em várias outras lições referentes à nobreza e honra na luta, e não serão à toa as analogias entre as estratégias de Cidinha (tomando e executando lições) e a mandinga de uma boa Capoeirista, Angoleira que ela é.
Bom, se for escrever sobre cada camada possível desse livro, ia outro livro. Então vá lá você. Leia o livro, tome suas lições, escolha as que guardar. Não vá de vez pra não tomar rasteira. E cuidado com o Vento, porque o livro vai todo de NZazi e Ogun, mas 9×9 é 81, e 8+1 é 9.
-Literatura e Capoeira, reflexões sobre o novo livro de Cidinha da Silva
Por Fábio Mandingo
