Em seu disco de estreia, Killa Bi mostra-nos por que é uma das grandes MC’s surgidas no Rap brasileiro nas últimas décadas, “É nosso Tudo O Que Eu Olho”
Nos últimos 6 anos, o nome de Killa Bi se tornou obrigatório para quem está atento às movimentações do underground nacional. Tomei contato com o trabalho da MC do Vale do Paraíba na cypher Rima Dela #2, e de lá pra cá segui acompanhando os EP’s, singles e participações lançados. Mais recentemente, soube que ela já estava no corre desde mais ou menos 2017, quando fez parte do excelente projeto S.P.L. (Sociedade dos Poetas Livres).
Dentro do conjunto de discos lançados no rap brasileiro, que nos foi dado escutar mais detidamente no ano passado, “É Nosso Tudo O Que Eu Olho” foi um dos melhores e mais surpreendentes trabalhos. Infelizmente, nem tudo que eu escuto, consigo partilhar publicamente, e depois de “perder” a oportunidade de escrever sobre o “Eu Sou uma Abelha” (2020), “Naquele Pique Muda Nada” (2021) e “Assassina ou Poeta” lançado em 2024, não iria vacilar novamente.
O problema é a “lógica temporal” estupidificante, a forma acrítica com que “geral” adere ao corte artificial promovido em um ciclo natural, sobre objetos que vivem literalmente fora do tempo: a Música. Nem bem os fogos de fim de ano cessaram, e já há promessas e expectativas, todas produzidas em larga escala. “É Nosso Tudo O Que Eu Olho” disco de estreia da Killa Bi, não tem nem 4 meses de lançado, e já é um disco do ano passado, loko né Jair?
Ouvir as 8 músicas que compõem esse disco é encontrar uma Killa Bi, no seu ponto alto como artesã de versos e flows, em um pique intimista apesar das diversas tonalidades afetivas e temáticas apresentadas ao longo do trabalho. Tudo muito bem produzido, musical e visualmente, com lançamento pelo selo SOMOS. O disco “É Nosso Tudo O Que Olho” em sua versão no youtube, recebeu um acabamento primoroso, com todas as faixas em audiovisuais que o tornam também um álbum visual. Trabalho dirigido pelo Henriquv e com a bonita fotografia do Eterno Monge.
Há aqui para os ouvintes, duas possibilidades de experiência, que provam que é a música sempre o mais importante, o audiovisual é veículo importante e criativo, porém sempre “reverente” a escuta. Escutei o disco quando do seu lançamento, me afastei um pouco e retomei a escuta mais atenta e constante há cinco semanas, e ver as traduções audiovisuais propostas pelo Henriquv e pelo Eterno Monge, engrandecem e muito o trabalho.
A produção musical do Cravinhos é outro ponto de destaque e a liga “tonal” que atravessa todas as faixas, com os beats do Digmanybeats, do HAHAHA aka Matheus Coringa, Paulo DK, Pedrvso, iloveyouangelo e do Gui Cunha. A “flecha” musical e poética da Killa Bi recebe potência de uma equipe de músicos muito competentes e criativos, nomes como Mackson Kennedy, Michael O’Brien, além dos já citados Cravinhos e Gui Cunha tocam instrumentos em algumas faixas. Gerando uma coesão e um enriquecimento musical muito alto no trabalho.
No entanto, como muitas vezes podemos constatar, todo esse time de excelentes artistas, não fariam milagres, se não estivessem a serviço de uma MC como a Killa Bi. Não é incomum hoje, observarmos que produções ricas em nomes e “conceitos”, entregam muito pouco ao final. O disco “É Nosso Tudo que Olho”, por outro lado, nos apresenta a imensidão do olhar de uma artista que se depurou na arte das rimas, alcançando uma expertise que dentro de muita elegância é a rua. O título do disco nos dá a dimensão desse projeto e a amplidão poético musical que a artista imprime com excelência ao longo de todo o disco.
Não há nenhuma gota de “folclorização”, e eu diria, nem de representatividade – como marketing político – no artesanato com que Killa Bi trabalha os seus versos com o seu subtexto ancestral e afetivo. A depuração, no caso, não é “limpeza” mas o assentamento sofisticado da herança ancestral que ela carrega como “atos de serviço” a todos nós, através do apuro que suas rimas prestam. Sem a pobreza das palavras de ordem repetidas como clichês, Killa Bi tratou de assassinar dentro de si mesma as visões coloniais e patriarcais. Apresentando-nos assim, um universo interior que se espraia pelo social com muita força, retrabalhado e reflexionando questões que nos são caras na contemporaneidade.
Sua respiração se confunde com a poesia Hip-Hop, em diálogo pleno entre a urbanidade e a natureza, como podemos ver representado no álbum visual, apresentando-se mas sempre falando dos seus, de nós. Seus amores, seus aprendizados, sua caminhada e seus medos – sempre repetidos – para reafirmar a coragem e a determinação, sem ilusões quanto a crueldade do mundo, mas sem recair nas bobagens sobre invejosas, e ou em discursos meritocráticos.
Muito ao contrário, o primeiro single lançado do disco é exatamente a faixa “por um fio” que trouxe Lis MC e nabru, nos únicos feats presentes no álbum. O que se nos dá a perceber a força de agenciamento político presente na obra. Longe de reforçar rivalidades femininas, Killa Bi puxa o fio de uma tradição de MC’s mulheres que a indústria musical não absorve, as pixadoras de versos rueiros que não abrem mão do underground. Lis Mc é uma das MC’s mais versáteis surgidas no RJ nos últimos anos, com trabalhos lançados em diversas sonoridades. A mineira nabru em sua participação abre mão de metalinguagem e os caraio de asa e mostra porque é uma das melhores MC’s desse país de calça ou de saia.
Arriscas e vivas, as três artistas são uma forte representação do que de melhor existe no rap brasileiro contemporâneo, apresentando um feminino que foge aos clichês tão em voga no mercado. Finas, posturadas e altamente líricas, sem perder a sujeira jamais, o clipe é a representação de um jeito de ser e de uma forma de produzir rap feito por mulheres que não é absorvido pela indústria mainstream. Posicionada estrategicamente na metade do disco, “por um fio” é o retrato rimado dessa lâmina onde artistas do underground insistem em dançar.
Um intimismo que contraditoriamente é sempre aberto, um coração que bate em público, tonalidade afetiva que se mostra ao mundo e é tomado pelo ouvinte, Killa Bi em “notas, narrativas” desfila suavemente em um delicioso drumless, estabelecendo o tom que atravessará todo o álbum. Uma ode ao Som 3, um drumless primoroso do HAHAHA aka Matheus Coringa, com o Cravinhos mandando muito bem, e a MC rimando ao pé do ouvido, quase uma bossa jazz. “Coisa Nova”, a MC surpreende pela suavidade intricada, conceitualmente firme, doce, inquirindo: “e esse céu quem que segura?”.
Como raríssimas exceções, no Brasil até este ano da graça de 2026, o que chega ao mainstream precisa sacrificar a linguagem ou submetê-la ao pop. Para além das questões de impulsionamento, de grana para produção, o resultado final, aquilo que chega aos prêmios, aos números gigantescos, precisa ser “aliviado” para alcançar o público médio. Um disco como “É Nosso Tudo que Eu Olho” trabalha dentro de uma outra lógica, não é panfletário mas é extremamente político, é leve mas é extremamente denso, se desenvolve com uma expertise que infelizmente o público médio, os hipsters, as mesmas pessoas que elogiaram o “Maria Esmeralda” – que tem aqui pelas minhas contas, 5 representantes – não festejaram.
A recepção no Rap brasileiro é o seu real problema, há uma incapacidade generalizada de distinguir o que são artistas que possuem uma linguagem própria, que apresentam trabalhos autênticos, do mais do mesmo. Em geral, as listas de final do ano, os cards de exaltação são os verdadeiros adversários de trabalhos como esse. Quando uma artista como a Killa Bi consegue apresentar um trabalho como este, é que você percebe a insuficiência da recepção, e óbvio não apenas ela.
Como a mesma rima, “identidade não é técnica, foda-se a métrica, verdade é minha estética”, a MC faz um dos melhores comentários sobre a quase absoluta ausência de capacidade crítica do público e dos influencers do rap brasileiro. O baixo safado do Cravinhos adorna swingueiramente o beat do iloveyouangelo em “primeiro de junho”, onde a hipocrisia e a utopia de Killa Bi, está justamente em criar um território virtual impulsionado pelas sua incapacidade de pedir licença, e colocar toda a força de sua arte na ponta de uma flecha certeira, em que se dá o direito de ouvi-la.
Mais do que uma montanha russa, Killa Bi nos mostra a amplitude conquistada daquela abelha, capaz de picar mas também produzir mel. Aqui, como disse o poeta Wally Salomão, o mel do melhor do que o rap pode nos oferecer. Ela não abre mão de nada, além da mediocridade, “só agora” é prova disso. Onde acender uma torra é a imagem poética perfeita para a suspensão do tempo marcado na arte, e no quanto o beat do HAHAHA de vocês sabem quem, é esmigalhado pela Killa Bi do “velho testamento”.
A pequena bíblia que ela escreve reúne as duas faces do amor e da agressão em uma outra cosmologia, outra visão de mundo. A modernidade do seu disco, referente a que de melhor existe em termos de sonoridades no boombap underground, se une a tradição como nos riscos da DJ Miya B em “não se despere” que traz um beat do incansável Digmanybeats. Aqui a forma é realçada em termos de linguagem em um beat bem lento que coaduna perfeitamente com a mensagem proposta, em mais uma demonstração da imensa pertinência desse trabalho para os tempos atuais.
Em tempos de fragmentação e velocidade exasperante, violência e opressão a granel, Killa Bi nos convida – aqui sim – a perceber o presente, o passado e o futuro – enquanto a Lili não canta, canta Lili. Nos percebermos como donos do mundo que nos circunda, para além de quaisquer filosofias tilêlê, é uma ato de linguagem poética e politicamente desenvolvido ao longo de todo o disco. O revestimento musical, a forma dos beats e da rima, são o invólucro perfeito para essa ideia que é disparada lentamente, com cadências variadas.
O verso: “Sou raiz de rachar o solo” me pegou demais, pois em sua emissão nos convida a perceber outra possibilidade: “Sou raiz de racha solo”, brincando com a força da natureza, tanto ancestral quanto materna, como duas faces infinitas do feminino que nos compõem. Presente na faixa título, uma das mais bonitas do disco, o beat do Paulo DK e do Gui Cunha, que ganha dos violões de Cravinhos e Mackson Kennedy cores muito fortes, é um resumo da formação, da caminhada e das intenções da Killa.
“Tudo me pertence, por que eu sou pobre” Jack Kerouac
Nas últimas semanas, andando pela rua com a Killa Bi nos fones, já tendo iniciado esse texto, “deixei o tempo trabalhar” sem amarras, em uma gestação com o meu amor, entre cuidados e reafirmações de futuro, projeções. E é incrível como “É Nosso Tudo O que Eu Olho” só cresce a cada audição, ao ponto de não querer me livrar dele, sentindo medo mas sem paralisar, seguindo com, conseguindo. E obviamente não se trata de mim.
A força da poesia, da música é exatamente a de despersonalizar, de mostrar uma verdade como uma espécie de ciência da sensibilidade, da qual a dona Killa Bi usa o jaleco da excelência. Ela nos apresenta possibilidades lindas de entendimento da vida, do amor, da alteridade, do natural, dos artifícios, te convida ao colo, dela e dos seus e suas. Aquilo que nos faz nos alçar voos livremente, uma sensação de liberdade de um mundo que ainda não vivemos, impulso de desejo revolucionário, gozo suspenso e pairando em um outro mundo possível.
Poucos textos me fazem chorar escrevendo, mas esse bateu, a vida é insuficiente e por isso existe a arte, “nada será como antes” após a audição de “É Nosso Tudo Que Eu Olho”, pois a trilha poética que a Killa Bi nos propõem é tão difícil quanto bonita, tão leve quanto profundamente dolorosa, diante do contexto em que vivemos. Mas, onde ela consegue transformar as tentativas cotidianas de assassinato que vivemos em um mergulho doce, revigorante e sobretudo transformador.
Obrigado, Gabriela!
-Killa Bi em “É Nosso Tudo O Que Eu Olho”, a expertise de uma grande MC’s
Por Danilo Cruz
