Joshua Redman com “RoundAgain”: um disco fadado ao sucesso. O disco apresenta a reunião de um supergrupo temperado por longos anos separados!
Saca aqueles supergrupos cabulosos que antes mesmo de apertar play no disco, você já vai avisando a galera sobre o petardo? A confiança é tanta que certas formações já me fizeram comprar o álbum no Amazon antes mesmo de ouvir o play inteiro. Bota fé?!
Tem gente que acha exagero, mas pera lá, meu bom. Certos projetos simplesmente não tem como dar errado. Quer um exemplo? Pegue o “RoundAgain”, por exemplo. Disco lançado no dia 10 de julho pelo saxofonista Joshua Redman, essa gravação marca a primeira jam de seu trio clássico, depois de 26 anos.
Sim, após quase 30 anos o carequinha revisitou a alquimia de seu trio definitivo, formado com Brad Mehldau (teclas), Christian McBride (baixo) e Brian Blade (bateria), essa formação, bom, não tem como um negócio desse dar errado.
A última e única vez que o mundo pode ouvi-los em estúdio foi no formidável “MoodSwing”, lançado em 1994. Na época dessa gravação, Brian, Christian, Brad – e o próprio Joshua – estavam na linha de frente de uma nova geração no Jazz e entre projetos e discos solo, o quarteto se desfez e cada um foi groovar de um lado. Desde então, todos conquistaram prestígio nos principais palcos do mundo, além de um fiel público – que com certeza – se impressionou positivamente com esse reencontro.
Essa gravação – lançada pela Nonesuch Records (com distribuição da Warner Music) – encerra um ciclo também. Na época do “MoodSwing”, Brian, Christian, Brad – e o próprio Joshua – estavam na linha de frente de uma nova geração no Jazz.
Todos acabaram virando referência em cada um de seus respectivos instrumentos, sempre muito requisitados na cena, apesar do quarteto ter ficado junto por apenas 1 ano e meio. Pouco tempo, não? mas o impacto dessa formação/configuração foi indelével. Um dos discos mais esperados dos últimos anos, “RoundAgain” surge com um frescor magnético e um repertório exuberante.
Musicalmente soberbo, o projeto reúne um time de mestres com ânimo revigorado, mas com o mesmo objetivo de sempre: continuar contribuindo para a escola do Jazz.
Track List:
“Undertow”
“Moe Honk”
“Silly Little Love Song”
“Righ Back Round Again”
“Floppy Diss”
“Father”
“Your Part To Play”
É quase impossível ouvir esse disco e não pensar no “MoodSwing”. É um olhas nostálgico, mas que mostra o quanto esses 4 músicos cresceram, não só como instrumentistas, mas principalmente como seres humanos.
Em carreira solo, todos gravaram registros icônicos, mas juntos – mesmo com o longo hiato – não leva 10 segundos para o ouvinte perceber que ele tem algo raro nos fones de ouvido. “Undertow” é o cartão de visitas desse Jazz 100% instrumental.
A bateria do Blade flutua. A condução é digna de nota. É uma aula sobre como preencher espaços. E a cozinha com o McBride? O groove passeia na espinha dorsal da jam.
Repare na interação, nos diálogos, na troca… É importante ressaltar que esse registro é um esforço criativo conjunto, apesar do Joshua Redman assinar o trabalho. Aqui todos estão em pé de igualdade, canetando no mais alto nível.
Se liga na estrutura de “Moe Honk”. Parece um groove de 7 minutos. o Quarteto toca tão “tight” – como diriam os americanos – que o take parece um grande groove. Imerso no Bebop, intrincado no swing e embebido nas ácidas camadas de piano de Brad, o som vai se desconstruindo.
Esse é um dos pontos base desse novo trabalho. Cada composição é explorada em sua totalidade. As mudanças são inúmeras e o ouvinte se perde frente a um mar de possibilidades tão volátil e igualmente brilhante. Tem uma hora que entra um groove na cozinha que poderia muito bem fazer a base de qualquer Rap-Jazz.
É muito interessante observar como a música deles cresce quando estão juntos. “Silly Love Songs” é uma baladaça. O sax de Joshua Redman entra num timbre que é o puro veludo nos ouvidos. Quem escuta até acha que é fácil chegar com uma molodia cremosa dessa. E a cereja do bolo? um solo de baixo do Christian McBride. O rabecão do maestro faz até eco, meu caro.
“Right Back Round Again” relembra o auge de Brad Mehldau. O marfim malhado do maestro estava tinindo nos solos. “Floppy Diss” consegue musicar o poema que é a reunião desses senhores sob um mesmo teto. O suspense, as reviravoltas… É encantador e é possível absorver o sentimento em cada nota, isso sem mencionar o trabalho dos solistas.
“Father” resume a dinâmica de um trabalho no mínimo inspirado. O cuidado, a leveza e a experiência… Está tudo aqui a à serviço do groove. Musicalmente muito coerente, “RoundAgain” eterniza um quarteto que voltou ao estúdio com o mesmo brilho e vigor de 26 anos atrás e isso está longe de ser pouca coisa.
“Your Part To Play” é o encerramento perfeito. A conexão é imediata e apesar do clima de encerramento do som, a energia vai baixando gradualmente – dessa vez com um toque meio Spiritual – que remete a um translúcido sonho-Jazz.
Pode vir na vassourinha, no solo de sax tenor, pincelando o Blues ou ouvindo ele direto e reto, num play só. Venha sem medo. Qualquer coisa é só botar na conta do Joshua Redman. O malandro tem crédito de sobra.
-Joshua Redman com “RoundAgain”: um disco fadado ao sucesso
Por Guilherme Espir
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