Poucos fãs sabem que o Jeff Beck gravou um disco ao vivo junto com o Jan Hammer Group como banda de apoio.
O Jeff Beck foi um guitarrista que conseguiu ser relevante em diversas décadas diferentes, tocando diversos tipos de som, sempre se reinventando com diferentes grupos e propostas. Dentre seus clássicos, sua discografia já flertou com o Rock, Blues, Funk e Jazz. Com foco no Fusion, a trinca básica: ”Blow By Blow” (1975), ”Wired” (1976) e ”There & Beck” (1980) é simplesmente obrigatória para quem aprecia o chamado Jazz-Rock, porém existe um quarto disco nessa seara que acaba não sendo tão mencionado quanto deveria.
Jeff Beck e Jan Hammer Group
Jeff Beck With The Jan Hammer Group” – lançado em 1977 – é um dos maiores discos ao vivo de todos os tempos e pouquíssimos fãs do próprio guitarrista o conhecem. O que começou como uma simples participação especial em shows de Jan Hammer (membro do Mahavishnu Orchestra e tecladista de Beck no ”Wired”), acabou virando uma tour e disco ao vivo. O groove escalou rápido demais.
Vale lembrar que durante a carreira de Jeff Beck, Jan Hammer foi um de seus colaboradores mais ativos, sendo possível citar o também tecladista, o britânico Tony Hymas, como outro valioso contribuinte para o som do guitarrista. Além de experientes músicos de estúdio, ambos também conpunham. No disco “Flash”, lançado em 1985 eles criaram as duas faixas instrumentais do projeto. “Escape” é um tema do Jan Hammer e “You Know, We Know”, é do Hymas.
Line Up:
Tony ”Thunder” Smith (bateria/vocal)
Fernando Saunders (baixo/guitarra/vocal)
Jeff Beck (guitarra/baixo)
Jan Hammer (teclados/piano/sintetizadores/percussão/vocal)
Steve Kindler (violino/sintetizadores/guitarra)
Track List:
”Freeway Jam”
”Earth (Still Our Only Home)”
”She’s A Woman”
”Full Moon Boogie”
”Darkness/Earth In Search Of A Sun”
”Scatterbrain”
”Blue Wind”
O disco já começa com um clássico do repertório do Jeff Beck, ao som de ”Freeway Jam”, clássica composição do tecladista do Jeff Beck Group, Max Middleton, registrado no “Blow By Blow” em 1975. Os teclados de Jam Hammer sempre foram um dos grandes segredos nos discos Fusions do Beck e, ao vivo, nota-se de forma cavalar o motivo. O começo da música já mostra como a dupla literalmente brinca de fazer música. É possível ouví-los imitando sons de buzina na introdução e no final da faixa. Essas passagens de tom humorístico são contrastadas por fulminantes improvisações. A forma como Jan Hammer e Fernando Saunders coexistem no groove é um dos grandes elos desse play, isso sem considerar os solos de sinth, que protagonizam épicos duelos com a guitarra.
O entrosamento e a química musical é palatável. Para os padrões de um live lançado na década de setenta, pode-se dizer até que o disco é curto, mas trata-se de um dos grandes momento já registrados tanto na discografia do guitarrista britânico, quanto do tecladista tcheco. Pra quem gosta de shows mais longos, é possível encontrar um show do Jeff Beck e do Jan Hammer realizado um ano antes dessa performance, no ano de 1976, em Boston. São mais de duas horas de espetáculo.
Esses shows são retratos históricos de um grupo que tocou literalmente mais de uma centena de vezes junto. Por acreditar que o show misterioso lançado em 1977 é um recorte que resume toda a capacidade criativa de Jeff Beck em seu auge, creio que “Jeff Beck With The Jan Hammer Group”, ofereça uma experiência ainda mais avassaladora do que a performance que foi lançada apenas em 2009, no formato de CD duplo e que já está embutida no parágrafo acima.
A precisão, a capacidade de antecipação e o conhecimento do repertório foram pilares elementares para a produção de música que acontece no cristalizar do momento. Não se sabe ao certo em qual ano, cidade ou casa de espetáculos que essa apresentação foi gravada, porém na turnê que aconteceu entre 1976 e 1977, foram contabilizadas mais de 115 shows do grupo.
A dinâmica e a maneira como a dupla interage com os outros instrumentistas da banda faz o set manter aquele swing ininterrupto do começo ao fim da gravação. E é justamente essa capacidade de se manter no groove que é um dos maiores trunfos dessa edição.
Além do sintetizador – em particular o moog – Jan Hammer toca piano elétrico, percussão e faz o vocal principal em “Earth (Still Our Only Home)”. Os backing vocals que antecedem o solo de Jan Hammer também merecem destaque. Os bends do cidadão mostram como a tecnologia deu um gás no groove das teclas.
E para dizer que esse show não teve de tudo, esse live serviu também para registrar uma de suas melhores versões de ”She’s A Woman”. Além da dose gordurosa de Reggae – salve pra cozinha do Fernando Saunders e Tony Smith – ainda rola um cremoso talk-box. O balanço Jamaicano é invocadíssimo.
Em ”Full Moon Boogie”, o talk-box é somado ao violino de Steve Kindler. Na hora que o Jeff Beck chama o solo, as trocas entre as cordas e teclas remetem ao disco do Jan Hammer, junto do violinista Benny Goodman, “Like Children” lançado em 1974.
Na sequência, a introdução cinematográfica de ”Darkness/Earth In Search Of A Sun”, relembra o vasto trabalho como compositor de trilhas – principalmente para TV – do reverendo Jan Hammer. Vale lembrar que ele é o criador do tema da série “Miami Vice”, por exemplo.
O clima sideral é adornado por desfechos que se transformam em mais uma amostra da imprevisibilidade desse som. O diáligo musical em sua mais plena forma. As ideias conversam de forma dinâmica, muito a frente do tempo real que o ouvinte as escuta. Além de grandes músicos, também são compositores habilidosos.
Não seria exagero algum dizer que são virtuoses. A fina roupagem de “Scatterbrain” (clássico do “Blow By Blow”) rememora isso. A coesão das ideias e a forma como a composição cresce – ancorada pelo violino de Steve Kindler – se ramifica em seguidas improvisações. A pressão e o nível de precisão são assustadores. Os instrumentos estão colados, a liga e a fibra desse tipo telepático de conexão é fruto da estrada.
Pra encerrar mais um capítulo da carreira do melhor mecânico-guitarrista de Londres, o flashback de ”Wired”, com ”Blue Wind”. Jeff Beck & Jan Hammer Group, senhoras e senhores. Eles nunca tocaram em casamentos.
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