Foi nesse panorama caótico que James Brown, morreu, depois nasceu, cresceu e virou um mito. Poucos homens LETRADOS, entendiam a vida como esse cidadão o fez e sua música foi o estopim para que muita coisa acontecesse de fato.
Brown esfregava seu sucesso na cara da elite branca e mostrava que ele, sem estudo, virou um xamã por que seguiu suas próprias regras. Não, ele não precisou entrar em programas assistencialistas com brancos, como se a elite sem melanina, necessitasse se habituar a um mesmo povo, só pela cor da pele. Jamé, não este Brown!
No fundo, Jimmy (o mesmo odiava esse apelido), sabia que sempre seria subjugado. Nunca lhe faltou convicção de que não acreditariam nele, logo, não importasse o qão bom ele fosse, sempre teria um corvo para reclamar de suas ações. Seja ele o prefeito, o presidente, seus iguais (vai entender!) ou toda a malha de figurões que o elegeram como o homem de negócios do ano em 1969.
O Soul era a verdade. James falou isso meu caro, não sou eu que estou digitando. No começo o ideal era levar o sentimento, que no final das contas era a verdade e que pulsava com a paixão pela revolução que o criador disso tudo almejava conquistar com sua música.
O groove era o UM, a essência do caos erótico, suxualmente fervilhante e apoteótico que Brown fazia questão de registrar. Se você não saca a marcação do UM, rapaz, você não é digno do Funk que escutas, mas se manjas a ideia da marcação do tempo, és capaz de compreender todo o peso do poder rítmico.
Consegue colocar o ”Live At The Apollo” na vitrola e entender o motivo pelo qual o próprio intérprete resolveu pagar por esse trabalho. Ele sabia que seus incontáveis singles pela King Records não lhe representavam, ele precisa do Apollo, assim como o Apollo precisava dele.
E esse disco é um marco, pois foi a primeira vez que ambos puderam ser sinceros um com o outro. Groove cara a cara, Soul frente a frente com o papo reto do The Famous Flames ajudando na contenção do sentimento.
Line Up:
James Brown (vocal)
Bobby Bird (vocal/teclado)
Bobby Bennett (vocal)
Lloyd Stallworth (vocal)
Lewis Hamlin (trompete)
Hubert Perry (baixo)
Sam Latham (bateria)
Les Buie (guitarra)
Clayton Fillyau (bateria)
Lucas ”Fats” Gonder (órgão/mestre de cerimônias)
Dickie Wells (trombone)
Mack Johnson (trompete)
Teddy Washinton (trompete)
Al ”Brisco” Clark (saxofone)
Cliford MacMillan (saxofone)
St. Clair Pinkney (saxofone)
Track List:
”Introduction To James Brown and The Famous Flames”
”I’ll Go Crazy”
”Try Me”
”Think”
”I Don’t Mind”
”Lost Someone”
”Medley: Please, Please, Please/You’ve Got The Power/I Found Someone/Why Do You Do Me/I Want You So Bad/I Love You, Yes I Do/Strange Things Happen/Bewildered/Please, Please, Please”
”Night Train”
Gravado no dia 24 de outubro de 1962, ”Live At The Apollo” é um dos maiores live’s da história da música, um dos mais vendidos (passou 66 semanas na lista de discos Pop’s da Billboard) e também foi o disco responsável por alçar o sex machine ao estrelato.
Esse LP foi a bomba, aquele riff que consagra gênios, o burburinho que faltava para que James conseguisse provar o óbvio: seu Soul era ignorável. Valeu a pena ter infernizado a vida dos chefões da King, afinal de contas, estes, assim como outros magnatas da indústria fonográfico do período, trabalhavam da mesma maneira.
Primeiro eles arrumavam um bom músico, depois faziam-no gravar single atrás de single e, com isso, tocavam o barco. Só que Brown sacou que com essa atmosfera curta, seria impossível conseguir propagar toda a força de suas ideias, todo o teor ácido de sua banda e a combustão swingada que era sua voz.
Ele sabia que seu show era bom. O negrão era convencido pacas, mas ele sabia o que estava fazendo, por isso que junto de seu manager, Bud Hobgood, o ex engraxate pressionou Syd Nathan, o chefão do selo, e fez questão de mostrar quem mandava na Jukebox.
Temos aqui pouco mais de meia hora de caos, barulho, berros, suor e Soul. Experimente ouvir qualquer disco ao vivo, lhe desafio a encontrar uma platéia tão elétrica igual ouvimos entre os intervalos de corte da track list.
Lançado em maio de 1963, o primeiro disco ao vivo da carreira do Mr. Dynamite é tão poderoso que quando foi entregue aos DJ’s, para a clássica ”promoção de lançamento”, nenhum deles conseguia colocar uma faixa separada. O LP era tocado na íntegra e o único intervalo existente era o pit stop para mudar a bolacha de lado, característica que comprova a veracidade mor do Funk: o groove é indivisível.
Temos aqui 8 faixas e um Medley homérico. Os caras do The Famous Flames, apesar de não terem sido creditos (na época), foram importantíssimos neste registro. Capitaneados por Bobby Bird, braço direito do Funk Browneano durante décadas, o trio esbanjava entrosamento e a afinação dos caras começou a somar no jingado do mestre, logo depois que Lucas ”Fats” Gonder, o Bruce Buffer do Soul, fez questão introduzir o Funk personificado à platéia.
Dai pra frente a panela de pressão explode de maneira controlada. Take após take, começando com a classe de ”I’ll Go Crazy” e as vozes em pura sintonia do trio Bobby Bird, Lloyd Stallworth e Bobby Bennett.
Repare na gritaria entre os intervalos. Brown mostra seu lado romântico até quando quer ser um sacana. ”Try Me” é a o apogeu da malandragem de seu fraseado, justificando um gíria que garotos negros utilizavam para desafiar a mulherada.
Questionando métodos dançantes com a força dos metais em ”Think”, demonstrando autoconfiança em excesso com ”I Don’t Mind” e escancarando seu lado humano com um dos lamentos mais inestimáveis de nosso tempo. Falo sobre o nobre e puro sentimento que nos arrepia quando a cataclísmica versão de ”Lost Someone”, e seus mais de 10 minutos, entram desfilando pelos falantes.
Agora, com o público na mão, é até crueldade o que surge à seguir, mas nem tem como remediar o maior pico deste clássico. Na hora que o medley de ”Please, Please, Please”, ”You’ve Got The Power”, ”Love You, Yes I Do” e mais uma fileira de hits, adentra o recinto… É nesse exato momento que tudo se perde, baby.
A platéia apenas dança e em pouco mais de 6 minutos James mostra como só o verdadeiro Soul faz as mulheres mexerem a maior paixão do brasileiro. Depois de ouvir esse disco é impossível pensar que esse nível de sinergia seja igualado um dia.
A história nos mostra que James imaginou tudo isso, lutou para realizar o projeto e até financiou a empreitada com cash de seu próprio bolso. Acredito piamente que momentos como esse não sejam arquitetados de maneira 100% cerebral, mas se ele formulou tudo nos mínimos detalhes, meus amigos, essa é apenas mais uma prova de como esse cara era diferenciado.
Finalize o disco com ”Night Train” e apenas pense no futuro. Guarde seu exemplar com carinho, conserve o cheiro de slap para as próximas gerações e deixe que, assim como eu e você, neste momento, sua futura linhagem sinta o que poucos conseguiram levar como sensações ao ouvinte e o que muitos resenhistas tentam explicar, mas falham miseralvemente em virtude da mística do Rei do Soul.
Matérias Relacionadas
Assine a nossa Newsletter
*Conteúdo exclusivo direto no seu e-mail
No ar!
NEGGS & YANGPRJ, arte e cultura Hip-Hop piauiense expandidas e renovadas, e agora?
Após 3 discos lançados, NEGGS & YANGPRJ expandiram e renovaram a arte e a cultura Hip-Hop piauiense, “Libertador part. II, o fim de um ciclo! Em seu último movimento, a dupla de artistas piauienses NEGGS & YANGPRJ, lançou o disco “Libertador part. II”, no final…
NEGGS & YANGPRJ, qualidade violenta e a renovação do Rap feito no Piauí – PT. I
Uma dupla que vem se desenvolvendo junto, o MC NEGGS e o produtor YANGPRJ lançaram três discos que já são marcos da renovação do rap no Piauí! Os últimos três discos da dupla NEGGS & YANGPRJ, MC e produtor piauienses são frutos históricos e excelentes…
TIPOLAZVEGAZH, mixtape de estreia do Vandal completa 10 anos de seu lançamento – Artigo
TIPOLAZVEGAZH, a mixtape de estreia do Vandal, marcou a história do rap no Brasil, antecipando sonoridades e revelando um MC único “UH TEMPUH PASSAH EH EUH KIH FIKOH EMOCIONADUH” Vandal Há 10 anos, Vandal lançava sua mixtape de estreia TIPOLAZVEGAZH, fruto de uma movimentação coletiva…
Xico Doidx, diretamente de BellHell, lançou o seu disco de estreia: SobreViver.
Uma estreia em disco depois de 15 anos de caminhada, Xico Doidx lançou o disco SobreViver, contando com a produção do OnçaBeat Ouvir Xico Doidx e o seu álbum de estreia “SobreViver”, que conta com a produção do OnçaBeat é um exercício de capturar criticamente…
Zadorica e a sua “Sina”: “o Rap ninguém me apresentou, ele aconteceu” – Entrevista
Entrevistamos a Zadorica, MC e produtora que acaba de lançar o seu disco de estreia: “Sina”, para você saber melhor sua caminhada e ideias! A agência entre formação pessoal e desenvolvimento artístico não opera por causalidades, a todo um trabalho de “reflexão” – flexionar para…
Tigran Hamasyan: folclore, erudição e improviso – o escape para encontrar a liberdade musical
Tigran Hamasyan é um pianista armênio, que conseguiu atenção mundial quando sua interessantíssima visão sobre música folclórica, clássica e improvisação começou a receber atenção do público e das grandes gravadoras. Sempre registrando projetos por selos proeminentes, principalmente do mercado europeu e norte-americano (como Nonesuch Records…
A revolução que vem de Rondônia,o MC kami lauan é o “tTrazedor de Notícia Ruim”
Com dois discos lançados em 2025, o rondoniense kami lauan chega com “tTrazedor de Notícia Ruim”, um disco fora da curva! kami lauan e o seu disco “tTrazedor de Notícia Ruim” é um acontecimento para o rap nacional em 2025. Se você acompanha de fato…
“Tertúlia” de Galf AC & DJ EB, lírico e rítmico, a música e a poesia Rap – Entrevista!
Com muitas participações, Tertúlia de Galf AC & DJ EB é um disco raiz do rap nacional com uma roupagem atual e consistente! Um dos grandes discos do ano até aqui, “Tertúlia” contém 11 músicas e diversas participações de nomes como Rodrigo Ogi, Ravi Lobo,…








