Hospital Colônia, clipe lançado recentemente pela banda baiana Jacau, mostra a insanidade por trás de um dos acontecimentos mais macabros da história brasileira.
O contexto do tema do clipe
“Quando eu era pequeninin lá em Barbacena (MG) …”, caso você tenha quarenta anos ou mais vai se lembrar dessa frase dita pelo personagem Seu Joselino Barbacena, da saudosa “Escolinha do Professor Raimundo”! E “Quando eu era pequeninin lá em Ponte Nova (MG) …” eu ouvia constantemente brincadeiras relacionadas ao fato de Barbacena ser uma terra de loucos.
Quando alguém dizia algo considerado fora do normal era logo alvo de alguma piada segundo a qual o sujeito que a proferiu deveria ser conduzido pra Barbacena. Ou então ouvia que “Parece até de Barbacena!” por ter dito algo tão esquisito.

Acontece que a cidade mineira de Barbacena teve inúmeros hospitais psiquiátricos inaugurados no início do século XX. Entre os quais o Hospital Colônia. Contudo, a história do Hospital Colônia se afasta e muito da história de um hospital psiquiátrico convencional, mesmos pros padrões da época.
A instituição se tornou um depósito de pessoas rejeitadas socialmente. Famílias enviam filhos e filhas pra lá caso tivessem algum desvio de conduta imprópria para uma mocinha ou rapaz de família. Geralmente, eram famílias tradicionais mineras mais preocupadas em não manchar socialmente o nome da família, do que com o bem estar mental e físico de seus membros.
O Colônia chegou a ser comparado aos campos de concentração nazista, tamanha era a crueldade com a qual seus internos eram tratados. Aplicava-se um método para catalogar, separar e lidar com as pessoas. Em 1933 o famoso escritor mineiro Guimarães Rosa, também médico, ao passar pela instituição a classificou como “Um trem de doido!”. Aliás, termo que aparece na letra da música.
Quero recomendar a leitura do livro “Holocausto Brasileiro” escrito pelas jornalistas Daniela Arbex e Eliane Brun (aqui) e o documentário de mesmo nome, baseado no livro, que tem direção de Armando Mendz e da própria autora do livro Daniela Arbex (aqui).
Agora sim, vamos à análise do clipe
A Jacau é uma banda do interior da Bahia, Itabuna, engajada até o pescoço no underground baiano e conhecida por usar sua música para levantar pautas políticas e sociais. Em seu novo clipe a banda resgata uma lembrança mórbida da história brasileira.
Passada entre os muros da instituição, que deveria se dedicar à saúde mental de seus pacientes, mas que foi usada como um depósito de seres humanos indesejados pelas famílias tradicionais e pela sociedade da época.

A violência praticada contra os internos do Colônia é narrada de forma igualmente violenta pela melodia vocal rasgada por gritos de ira, riffs selvagens turbinados de distorção e um andamento veloz, responsável por imprimir fúria em intensidade suficiente pra transmitir a dor agonizante de quem passou por aquele inferno.
Conforme informa a letra, os e as “pacientes” chegavam em vagões de trens, tal qual os judeus durante o holocausto provocado pelos nazistas. Eram igualmente separados, catalogados e “tratados” de forma metódica, revelando uma racionalidade responsável por calcular as ações apropriadas a cada grupo.
Gays, jovens mulheres “desonradas”, todo tipo de pessoa, que por algum motivo, estava fora do que estava estabelecido socialmente pelas elites da época como normal, eram enviados para lá. Desumanizados, tal qual os judeus no holocausto, através da padronização da sua aparência. Cabeças raspadas, uniformizadas e documentos confiscadas, eram transformadas em números.
O clipe começa com cenas de época da instituição, dando-nos uma breve noção do que as pessoas encontravam em seu interior. A paisagem do clipe nos mostra os escombros de um prédio antigo, já tomado pela vegetação circundante. Nos revelando um passado distante, esquecido, encoberto pelas brumas do tempo.
Contudo, os integrantes da Jacau surgem na tela, representando o direcionamento do olhar ao passado. Representando o reavivamento daquela memória incomoda. Apertando entre a unha e a carne do dedo o espinho, fazendo sangrar nossa história.
O clipe de Hospital Colônia surge como a bússola necessária a apontar o norte da nossa história. Ainda num país que insiste em encobrir os fatos de sua história, considerados vergonhosos, ou maquiá-los com excessivo romantismo, tal qual o ilusório “Grito do Ipiranga”.
Precisamos ressaltar
O projeto que levou à conclusão do clipe da Jacau foi contemplado nos Editais da Paulo Gustavo Bahia e tem apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura via Lei Paulo Gustavo, direcionada pelo Ministério da Cultura, Governo Federal. Paulo Gustavo Bahia (PGBA) foi criada para a efetivação das ações emergenciais de apoio ao setor cultural, visando cumprir a Lei Complementar nº 195, de 8 de julho de 2022.
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Carlim
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