O MC sergipano Avicena lançou o segundo single do EP E.L.O. com a faixa Grito, trazendo Renato MKM no feat, e uma reflexão sobre o valor do Rap

Avicena soltou ‘Grito’, segunda faixa do álbum E.L.O. e, quase que de forma contraditória, toda translucidez de ‘Milagres’ dá espaço a metáforas e duplo sentido. O grito que emerge das gargantas em cena não é contido, mas aparenta dubiedade. Uma resposta ao horror, sem dúvida alguma, mas matizado por uma paleta de sentimentos nada maniqueísta. Mas, comecemos pelo começo.
O beat é de um dos maiores produtores sergipanos, JB. Aqui ele nos traz um afrodrill com tambores que remetem às influências do gênero, mas também uma profusão de instrumentos de sopro (ou que os emulam) e até mesmo frases de violino bem sutis, coisas que podem também marcar presença no gênero, mas aqui remetem principalmente às próprias experimentações do produtor, conforme nos relatou.
No início da música ouvimos distintamente uma flauta, e ao decorrer dela, uma estética de baixo parece emular o som de uma trombeta. Tudo isso dá um aspecto único ao beat, que se destaca entre outras produções do mesmo gênero.
O feat cantado de ‘Milagres’, a cargo de Sarah Vasconcelos, dá lugar aos versos das rimas de Renato MKM. Inspirado no próprio afrodrill, o MC repete o flow que veio a marcar também a grandiosa ‘Alfaiataria Fonográfica’, faixa do grupo Arauto, na qual também participou Avicena. Mas, se em ‘Alfaiataria’ ambos rivalizam de igual pra igual, em ‘Grito’ Avicena arruma a cama pra MKM deitar. Certamente é Avicena que dá o tom temático da música, afinal ‘Grito’ ainda é um feat, mas a junção do flow único que Renato desenvolveu com sua lírica pesada e sua tsunami de adlibs que complementam, de fato, os versos, torna a experiência de ouvir a faixa num maravilhamento.
-Leia nosso artigo sobre o primeiro single de Avicena, Milagres!
Agora podemos nos voltar para as questões que a música levanta: pra quem ou porquê Avicena e MKM estão gritando? Como dito no início deste texto, ambos os artistas se valem de muitas metáforas e frases em duplo sentido, mas algumas coisas ficam bem claras aos nossos ouvidos. A música, sem dúvidas, fala da escolha do rap como alternativa a uma dicotomia cruel entre a escassez do mínimo e a ilegalidade sobrevivencialista. Versos como: “Eu sou um sonho em meio ao tráfico e a troca de tiros” e “Não quero, minhas digitais no CSI, só em banco gringo. Larguei a glock, hoje só trabalho entre lábios e ouvidos” nos remetem a essa escolha. Lembrando, claro, que E.L.O. é sigla para Entre Lábios e Ouvidos. Logo, a glock é largada para se fazer música.

Mas nada disso é preto no branco. Outras tonalidades se apresentam e a música se enriquece com a nuance do rap enquanto trabalho. Uma arte, sim, amada pelos que a praticam, sim, mas, ainda assim, um trabalho: “Filho pródigo e prodígio. Ossos do ofício”. Aqui, o desenvolvimento da arte de rimar que Avicena alcançou magistralmente é visto de modo bastante realista, considerando que de fato a prodigiosidade existe no MC, mas que ela não passa do fruto da prática rotineira do seu ofício.
Ofício esse que, por motivos pessoais, precisou ser estagnado, mas cuja volta, durante todo esse período de estagnação, foi sempre visada: “Ao levantar as velas e queimar o cais, corro um pouco mais”. Essa corrida, por sua vez, representa não só aquilo pelo que Avicena precisou passar para finalmente poder voltar às suas produções, mas também aquilo que a partir da sua volta, de certa forma já se concretiza: “O estado sólido do meu suor formam belos cristais”. Mas não podemos nos deixar levar e acreditar que os tais “cristais” citados fazem alguma referência às condições financeiras. Aquilo que Avicena alcança com toda sua corrreria são justamente os milagres sobre os quais fala na primeira faixa de E.L.O., e aqui acrescenta-se a própria possibilidade de fazer música. E além disso, a solidez do seu suor refere-se à concretude do real. O “sólido” demarca, antes de tudo, um fato literal (com perdão da redundância).
Disto deriva outro aspecto da letra de “Grito”. De todo trabalho se espera uma remuneração. E é isso que ouvimos em: “Rap. Escrevi uma carta de amor com número$ e meu CPF”. Na mesma medida em que Avicena deixa aqui claro que ele ama a música rap, e, como já deixou claro anteriormente, que o rap o salvou, é como se ele deixasse nessa carta não só o seu amor, mas também a sua chave pix e o valor que espera receber. Tudo isso se complementa com os versos de MKM:
“Não quero em cobre o troco, eu quero em euro(€) o torro pra abrilhantar o teu corpo com [as joias mais raras]. Por isso eu corro e corro, eu, por isso eu mato e morro pra contemplar o meu povo com [as ideias mais caras]” e também: “[RAP] A recompensa por estar vivo é você quem vai conceder. No pulso cartier, na mesa Dom Perrier”.
Continuando com os versos de MKM, em paralelo aos de Avicena, também aqui a música envereda por um caminho de metáforas e duplo sentido:
“No labirinto entre lábios e ouvidos, o X-9 quis me fuder. Idade de cristo. Foi foda sobreviver. Joguei a cruz no lixo. Na minha cara você não vai bater”.

Ao mesmo tempo em que MKM aparentemente trata de uma experiência bastante pessoal, ele também emprega um subtexto do seu fazer rap em Sergipe e das alturas às quais ascendeu a partir dele. O X-9, no caso, é a própria personificação do público de rap sergipano. Não raramente vistos como figuras míticas, aos integrantes do Alquimia que ainda fazem música parece ser relegado um lugar não mundano, para longe das necessidades corriqueiras do dia a dia. Assim, de certa forma, o que se espera deles é que a cultura seja mais uma das suas qualidades arquetípicas, que eles encarnem o rap para além de qualquer anseio financeiro de sobrevivência. Isto é, que sejam deixados à própria sorte, marginalizados dentro da própria cultura preta periférica.
De fato, num estado como o de Sergipe, em que muito dificilmente um MC consegue subsistir de sua arte, eu sei o quanto o rap deve aos Alquimistas Solares em geral, e a tantos outros artistas. E por mais que Avicena não se veja cobrando o rap por nenhum centavo, afinal, como dito, a música já o salvou, se fôssemos colocar em cifras o equivalente à sua qualidade e importância para o rap sergipano, o estado certamente ficaria em débito. E não seria injusto que sua carta de amor, fosse, na verdade, uma de cobrança.
‘Grito’ marca um ponto de virada, ou um complemento, em relação a ‘Milagres’ e deixa mais claro aquilo a respeito do que é o álbum. Dessa forma, se na primeira faixa dele somos deixados com uma dúvida, aqui talvez tenhamos alguma resposta. Não são milagres que fizeram Avicena voltar (não no sentido comum do termo), mas os mais mundanos e naturais dos sentimentos: amor e fome. Mais uma vez E.L.O. se encontra nas pistas, nas mídias e nas ruas do ZeroSeteNove.
-“Grito” segundo single do EP “E.L.O.” de Avicena e uma reflexão sobre o valor do RAP
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