Em novo disco, Galf AC se une ao produtor Digmanybeats em 8 faixas e um interlúdio, radiografando as diversas dimensões da crise.
O encontro entre Galf AC e Digmanybeats é de certo modo uma aliança natural entre dois dos artistas do Hip-Hop nacional, no elemento Rap, que mais tem produzido nos últimos anos. Em Ectoplasma, disco lançado no dia 27 de junho último, traz 8 músicas e um interlúdio. O disco não tem feats e o seu título nos dá uma dimensão interessante sobre a obra mesma, como resultado da prática que o MC e o Produtor/Beatmaker tem cultivado.
Neste século XXI, onde basicamente todo cidadão portador de um celular e integrante das redes sociais se tornou “mídia”, a palavra mesma perdeu o seu sentido forte. Etimologicamente, “Mídia” vem do latim “medium” que significa “meio”, “canal”. No Século XX, o desenvolvimento dos “Media”, meios de comunicação de massa, produziam a mediação entre os acontecimentos e a sociedade, algo que no presente século ainda não perdeu totalmente a sua importância, mas que foi atomizado de modo inédito na história da humanidade.
A dominação operada pelas Big Techs é hoje o que determina quais as “substâncias” que terão maior nível de alcance nas redes sociais. A relevância de “nulidades” intelectuais, de fofocas e de conteúdos – outra palavra gasta – duvidosos, seguem sendo privilegiados pelo algoritmo das redes, assim como o crescimento vertiginoso da extrema direita. Quase nos dá saudades das mídias impressas.
O rap no Brasil teve na constituição de sua história a importância de ser o canal de comunicação crítica das favelas, trazendo a luz do dia e às consciências que não eram abordadas pela mídia hegemônica. E continua sendo, desde que se saiba procurar artistas que não estão em evidência. Galf AC e Digmanybeats são a prova de que o rap nunca deixou de ser esse “canal” crítico e uma arte da denúncia, quando muitos abriram mão desse viés à guisa de fazer algo mais palatável e aceito pela indústria.
“Quanto mais se desce no underground mais o nível fica alto” Barba Negra
Dentro desse contexto, a exteriorização presente em “Ectoplasma”, diz respeito a substância poética e sonora, que não abre mão de trazer em sua consistência lírica, uma crítica suja ao estado de coisas que vivemos hoje. E muito do que aqui atravessa os corpos do MC e do produtor, diz respeito à existência virtual – como uma realidade – e suas problemáticas, cada vez mais assustadoras.
Apesar da imensa enxurrada de trabalhos lançados pela dupla Galf AC & Digmanybeats nos últimos anos, eles são dois artistas que, por inadequação, aparecem pouco nas redes sociais, se restringindo mal e mal, a botarem a cara quando lançam trabalhos. O MC baiano Galf AC, hoje vivendo em Curitiba, já conta nos últimos quatro anos com algo em torno de 21 trabalhos entre discos e EPs, sem contar videoclipes, singles e participações. Já Digmanybeats conta com 53 trabalhos lançados desde 2022, entre singles, beat tapes, discos e EP’s com MC’s.
São artistas que para além de “personas” presentes no mundo digital, dividindo o trabalho de criação e a produção de “conteúdos” para engajar, focam em serem meio, médiuns, através dos quais a poesia e a música Rap ganham vida. Logo, nada mais natural que esses dois workaholics do jogo, se unissem e trabalhassem juntos com um álbum que traz Ectoplasma como título.
Em seu último trabalho, Tertúlia – agrupamento, reunião de amigos – Galf AC trazia diversas participações. Agora, com Ectoplasma ele aborda em voo solo no mic, os problemas do social, do político e do espiritual, sob os loops e beats do Digmanybeats. A música que abre o trabalho, “Vitimas da Vaidade” já é uma pesada crítica às simulações de felicidade tão comuns nas redes sociais, e acoplada com uma crítica ao capitalismo como substrato desse mar de aparências.
Após a faixa de abertura construída em cima de loop sampleado, Digmanybeats produz uma boombapzeira em “Templo da Agonia”, onde Galf AC reafirma sua missão enquanto MC:
“Rebeldia vomitando a realidade, trapezista que se arrisca no caos da cidade, xeque mate, morte ao rei e seu bando covarde, povo que sente nada fala, reféns da vaidade”
As músicas são curtas, com quase todas com menos de 2 minutos, porém Galf AC consegue comprimir em imagens fortes os problemas que são as temáticas abordadas. A velocidade das redes, que impedem muitos de pensarem sobre os problemas que aflige nossa sociedade, encontram um equilíbrio bastante produtivo, nas letras curtas e na cadência do boombap e do drumless em Ectoplasma.
Tome-se como exemplo a abordagem feita sobre a gravidez na juventude e a morte precoce de jovens pretos pela política de genocídio do governo brasiliero. Denominada de Guerra às drogas, ela opera em conjunção com outras políticas como por exemplo, o ataque da extrema direita às aulas que abordam sexualidade nas escolas e a ausência de uma política pública que vise esclarecer a juventude.
“Deixou o menor pra mãe criar, sua mina chora todo dia, arrepender-se não dá mais, tornou outro exemplo nesse templo de agonia”
Aqui está um tipo de verso necessário, mas que certamente não comove a classe média branca, e muito menos os que estão sobredeterminados pela lógica neoliberal de vencer o game. Outro boompabzão quebrado, “Reino dos Excluídos” traz um Galf em dois momentos, com um eu lírico fragmentado entre a denúncia e a vivência. O MC que viveu o tráfico e o ex-traficante que informa o MC, em um processo dialético, que vai da denúncia à vivência, sem uma síntese possível, que não o melhor que o rap pode produzir.
Os discos de Galf AC giram sempre sem um centro único, a gama de produções com diversos produtores do Underground brasileiro, sempre encontram nele, um MC versátil e que não economiza na produção de imagens poéticas impactantes, que precisam de um tempo para assentar nas consciências. As imagens sujas, o flow do MC está sempre dialogando com problemas externos, mas por isso mesmo, refletem o momento interno do artista. Artista que denúncia de dentro os problemas, as violências, e que faz florescer imagens de sua própria subjetividade em processo.
Em “A Quadra” em cima de um drumless do Digmanybeats, Galf AC rima sobre os perigos a serem evitados, sobre a solidão coletiva, e sobre a violência em nossas quebradas, assim como sobre aquilo que almeja. As contradições, “o caminhar sobre o fio da navalha” que é a existência de um homem preto em diaspora.
O interlúdio presente no meio do disco, retirado do filme 400 contra 1 – A história do Crime Organizado (2010), filme de Caco Souza, que narra baseado no livro homônimo do escritor William da Silva Lima, a formação do que viria a ser conhecido como Comando Vermelho. É a chave para a virada dos temas, como a outra metade do disco, onde as 4 músicas restantes, vão diversificar o clima e as questões.
Uma espiritualidade sem os grilhões da religião é o tema de “Fé em Deus”, e onde Galf AC faz uma excelente colocação em versos: “Escrevo por linhas tortas por que deus nunca está ausente, a fé move montanhas, também corpos reluzentes, quem crê vive a força do seu inconsciente” A noção de subconsciente, é uma noção hoje que não é mais utilizada em estudos sobre psicologia e pela psicanálise, pois traz em seu bojo a ideia de que o subconsciente é inferior ou subserviente a consciência.
Somente um MC e um produtor muito bem informados e com um “cuidado de si” que promove e produz suas próprias subjetividades, podem soltar tantos trabalhos em tão pouco tempo com uma regularidade qualitativa tão grande. Algo que é expressado também na faixa seguinte: “Florescer”, onde a planta é tratada como remédio, mas também trabalhando com a ambiguidade ao também poder ser vista como uma referência a relacionamentos amorosos.
Fazendo da caneta sua luta, certamente algum coach diria, mas veja bem não é assim, tem que tratar a sua arte como trabalho, planejar, aparecer nos stories, produzir conteúdo, etc… O que certamente não está errado, porém dentro de uma visão neoliberal que não se coloca como crítica a indústria cultural, aos algoritmos e aos capital que obrigam que artistas tenham esse comportamento. Esse é o jogo como está dado, resta saber quem quer joga-lo e quem pretende destruí-lo, Galf AC e Digmanybeats se posicionam na segunda opção.
Reificar o status quo criticando-o, ou simplesmente abrir mão de aparecer dentro dessas regras, são as opções para artistas do rap hoje. Quem tem dinheiro investe, quem não tem ou se desdobra às custas de sua saúde mental, ou subsiste no underground lutando para produzir música e fazer shows. A busca por visibilidade no game é muito parecida com o jogo do Tigrinho, a casa – Big Techs, plataformas de streamings – sempre ganham. “A Praga” vai muito nessa direção.
O disco se encerra com “Constantine” trazendo Traumatopia nos riscos, e sempre que você ler um título de disco, ou a nomeação de uma música de Galf AC saiba que existe um subtexto por trás da escolha. Afinal, nomear é dar algo a ser conhecido, é presentificar alguma coisa através da língua, o ouvinte mais atento percebe que entre “Ectoplasma” e “Constantine” existe a produção de um sentido profundo guardado entre as músicas, entre as rimas e beats. A faixa que encerra o disco, traz à tona o inferno que vivemos hoje, a ideologia do Capital tal qual foi abraçada por muitos artistas do rap brasileiro. A despolitização necessária para transformar o rap apenas em mercadoria, com o esvaziamento de pautas que nos são historicamente caras.
Um game que assim como o estado de direito é uma mera ilusão, um teatro de marionetes habilmente movido por quem possui o poder – $ – para manipular toda uma cultura, toda uma sociedade na direção que melhor servir aos seus interesses. Onde, os líderes de mercado do Rap se comprazem em serem meros coaches, em propagar a ideologia do self made man, preenchendo seus versos com clichês, palavras de ordem esvaziadas e pérolas da auto ajuda.
Esse disquinho, “Ectoplasma” exterioriza a substância que resiste no rap brasileiro underground, muito além do termo bobo rap consciente, eles presentificam as linhas de força ativa e da sujeira, atualizando problemas que aflige o corpo da sociedade, com um enfoque nas nossas periferias. Há aqui uma preservação da principal célula do rap feito em nosso país, a combatividade diante dos poderes, mas tudo isso embalado no que de mais atual existe no campo da criação estética do rap no mundo.
Escute:
-Galf AC & Digmanybeats em Ectoplasma (2025), exteriorização de uma crítica suja!
Por Danilo Cruz
