FERALKAT tá se preparando pra soltar na pista um novo álbum em algum momento de 2026. E podemos sentir o seu gostinho através do single “Tsunami” lançado em novembro de 2025.
Se você gosta daquela brisa shoegaze/post-punkeante, cheia de camadas sonoras e construções de texturas inebriantes, imersivas e melancólicas, vai lá no perfil da FERALKAT. Você a encontra em qualquer plataforma arrombada de streaming, onde pode ouvir seus singles e o único álbum da artista até aqui.
Até aqui mesmo, porque FERALKAT está trabalhando nas composições para o seu novo álbum, intitulado KARUKASY, uma palavra de origem tupi cujo significado é algo como “dor da tarde”. Bicho, e se tem um horário ruim para sentir dor é a tarde, pqp! A deprê melancólica da tarde só vai embora quando o sol se esconde completamente no horizonte.
Talvez por isso mesmo a compositora tenha escolhido esse nome, pois ele expressa bem o sentimento por trás dos arranjos que vêm sendo elaborados para cada faixa. Bom, não estou tirando essas conclusões do suvaco, mas do único single lançado até aqui, que será uma das faixas do setlist de KARUKASY.
O single, que tem um nome meio aterrador e impactante — “Tsunami” —, vem para dar aquele “caldo” no ouvinte que, desavisado, fica dando bobeira diante da aparente calmaria do mar. O arranjo meio que sugere o movimento característico desse fenômeno natural que, se pegarmos emprestado da mitologia grega, diríamos que Poseidon está puto pra caralho.
Isso porque a formação da onda gigante faz com que a água do mar seja sugada para a constituição dessa maré megalomaníaca. E o primeiro momento da música é pura calmaria. A voz suave, quase sussurrada, remete facilmente à doce sedução articulada pelo canto das sereias, que parecem hipnotizar para que não se coloque sob suspeita a docilidade momentânea do mar.
Quando a música atinge os versos “Mar aberto / Tsunami”, sentimos uma tensão: o primeiro abalo sísmico se apresenta, indicando o fim da formação da onda gigante e o início de seu movimento furioso.
Não sei se vocês sacaram, mas a música sugere uma perda violenta. Talvez a morte de uma pessoa querida, quem sabe um parente, alguém muito próximo. Pode ser também um término de relacionamento, por que não? E eu vou apostar que se trata dessa segunda opção, simplesmente porque a primeira estrofe tem um trio de versos que expressam uma situação compartilhada por duas pessoas, que afundam juntas cada vez mais, deixando para trás tudo o que fora compartilhado até ali.
Enquanto o fato é apresentado na letra, o arranjo nos leva a um contexto vago, porém imersivo. Sem tensões, apenas uma certa sensação de tédio — talvez anestesia.
Agora, a imagem hiperbólica do “tsunami”, que traz consigo o grau quase imensurável da dor experienciada e compartilhada através da música, nos dá a dimensão melodramática da vivência do término.
Galerinha, foquem no verso “Olhos vertem tsunamis”. Imaginem aí quantos litros de lágrimas vão sair desses olhos tsunâmicos! Esse recurso poético nos dá a dimensão do quão dolorosa está sendo a experiência de “deixar tudo para trás”. Estamos diante de um verso que tenta nos fazer sentir a dor do eu lírico. Daí a ideia de emoções transbordantes, incontroláveis e incomensuráveis que o termo “tsunami” ganha no contexto da música.
Agora, a coisa fica mais impactante se voltarmos ao início da estrofe, que termina com “Olhos vertem tsunamis”. Saca aí a estrofe completa:
No silêncio além da pele
Cinzas crescem
Olhos vertem
No silêncio
Além da pele
Olhos vertem tsunamis
FERALKAT nos coloca mais uma vez sob o embalo do movimento de preparação para a tsunami desabar vertiginosamente. Vemos que a dor sentida está para além do físico. Trata-se de uma dor intensa, emocional, psíquica, sentida na “alma”.
É nesse ambiente subjetivo que “cabem” as tsunamis vertidas por esses olhos imagéticos. Ainda encontramos as “cinzas que crescem”, mostrando o cenário de destruição deixado pela passagem dessas torrentes desmedidas e intensas.
Música: Tsunami
Banda: FERALKAT
Ficha técnica:
Voz, guitarra, synths, bateria/beat: Natasha Durski
Baixo: Fellipe A. Dantas
Produção e direção musical: Natasha Durski
Mix: Fellipe A. Dantas e Natasha Durski
Master: Stefanos Pinkuss
