Tigran Hamasyan é um pianista armênio, que conseguiu atenção mundial quando sua interessantíssima visão sobre música folclórica, clássica e improvisação começou a receber atenção do público e das grandes gravadoras. Sempre registrando projetos por selos proeminentes, principalmente do mercado europeu e norte-americano (como Nonesuch Records e ECM Records), por exemplo, o pianista possui uma vasta discografia.
Tocando ao lado de diversas configurações de músicos, Tigran nos apresenta, não só muitos instrumentistas de fora do eixo, como também apresenta uma tradição que – apesar de ter sido influenciada pelos mestres do bebop por exemplo, não se limita à mera e pura reprodutibilidade técnica das proezas da música norte-americana.
Isso é importante. Sempre que digo que escutar um músico de fora dos Estados Unidos é como lavar os ouvidos. Nos oferece uma nova paleta de cores e histórias para estudar e aprender sobre música por meio de outra fonte e sob outras óticas.
E tem sido interessante observar como a discografia do Tigran não só cresce, mas ganha novas ramificações à medida que explora diversas facetas e inspirações que ele nutre desde que começou a gravar. Desde a música tradicional, passando pela música sacra, é sempre relevante acompanhar os lançamentos do pianista.
Depois de assisti-lo ao vivo no C6 Festival e ver uma legião de pessoas batendo cabeça num show em trio, precisava entrevistá-lo. O músico que se apresenta como parte da programação do SESC Jazz 2025, tocou em São José dos Campos e toca em São Paulo. Trata-se de uma excelente oportunidade de vê-lo em ação a preços populares e com qualidade de som que apenas o SESC proporciona.
Serviço: Show Tigran Hamasyan
Data:
18/10 – 21h (início do show)
19/10 – 18h (início do show)
Local: SESC 14 BIS (R. Dr. Plínio Barreto, 285 – Bela Vista, São Paulo )
A profundidade de sua pesquisa e a forma como ele funde novas aspirações e estilos é o que sempre faz o ouvinte querer voltar para ser surpreendido uma vez mais.
Confira a entrevista completa logo abaixo:
1. Antes de tudo, gostaria de agradecer pelo seu tempo, Tigran. Quero começar perguntando sobre “Luys i Luso”, um álbum que foca no centenário do genocídio armênio. É uma obra muito bonita e, na minha opinião, um dos discos mais pessoais da sua discografia. Você poderia comentar como foi ter o apoio de Manfred Eicher (fundador da ECM Records) na produção de um álbum historicamente tão significativo?
Desde adolescente eu sonhava em explorar o formato de coro e piano. Por muitos anos também pensei em fazer um álbum inteiramente dedicado ao repertório sacro armênio. Em 2013, essa ideia amadureceu o suficiente e mergulhei nos arranjos de diferentes categorias da música da igreja armênia, um repertório que vai desde hinos do século V (sharakans) até odes do século XX de Komitas.
Foi uma experiência incrível. Tive o luxo de trabalhar muito tempo nessas peças e experimentar diferentes ideias com o coro. Consegui uma reunião com Manfred Eicher e contei a ele sobre o projeto; ele também ficou entusiasmado e acabamos gravando em outubro de 2014, em Yerevan. Eu realmente queria que esse álbum fosse lançado pela ECM e trabalhar com Manfred — era algo que parecia destinado a acontecer. Foi uma experiência maravilhosa trabalhar com ele e trazê-lo à Armênia para esse disco.
2.”They Say Nothing Stays the Same” é o longa de estreia dirigido por Joe Odagiri, estrelado por Akira Emoto. O filme acompanha um velho barqueiro na era Meiji, cuja vida cíclica é interrompida por uma nova ponte e por salvar uma garota encontrada flutuando no rio. A direção de fotografia é de Christopher Doyle e marca sua estreia como compositor de trilhas sonoras. Quais foram os desafios de escrever sua primeira trilha? Como foi essa experiência, considerando que a música traz um valor estrutural às imagens?
Escrever a trilha desse filme foi um processo muito criativo e prazeroso, por conta da maneira como Joe Odagiri trabalha. Inicialmente, ele me enviou três cenas diferentes do filme e pediu para eu compor o que sentisse, pois queria ouvir minhas primeiras impressões musicais e o clima que eu imaginava para a obra. Apreciei muito esse processo e o modo como Joe me manteve criativo durante a composição da trilha sonora.
3. Existe um projeto na sua carreira sobre o qual raramente vejo alguém escrever ou comentar. Em 2013 foi lançado o único álbum da banda Jazz-Iz-Christ. Você poderia falar sobre essa gravação tão interessante? O disco conta com sua participação essencial, além do flautista Valeri Tolstov e do trompetista Tom Duprey, e também traz colaborações de Stewart Copeland, David Alpay e Vincent Pedulla. Diferente de boa parte do trabalho anterior de Serj Tankian, apenas quatro das quinze faixas têm vocais dele, enquanto a maioria é instrumental. Quais são suas lembranças desse projeto?
4.Em 2010, você gravou “Abu Nawas Rhapsody” com o compositor, cantor e instrumentista tunisiano Dhafer Youssef. Como foi a experiência de trabalhar com ele? Sinto que há uma química musical especial entre vocês.
Eu adoro trabalhar com o Dhafer. Ele é como um irmão mais velho para mim — tanto no sentido humano quanto musical. Ele é uma grande inspiração, e certamente existe uma conexão especial entre nós.
5.Como você avalia a importância do interesse pela música folclórica armênia no processo de encontrar sua própria voz ao piano?
Meu interesse pela tradição e pela mitologia armênia sempre guiou minha busca artística. Essa ligação com as formas antigas de arte e com as melodias nascidas de rituais ancestrais influenciou profundamente meu som. Em trabalhos recentes, como “The Bird of a Thousand Voices”, busquei canalizar melodias imaginadas, que poderiam ter sido compostas em tempos remotos, quando os reinos de Aratta, Sumer e Hayasa floresciam. Acho que essa conexão espiritual com o passado e com o simbolismo das histórias armênias foi essencial para que eu encontrasse minha própria voz ao piano.
6.Em 29 de abril de 2022, a Nonesuch Records lançou seu primeiro álbum de standards americanos, StandArt. O projeto reúne nove canções das décadas de 1920 a 1950, com obras de Richard Rodgers, Charlie Parker, Jerome Kern, David Raksin, entre outros. Você gravou com Matt Brewer, Justin Brown, Ambrose Akinmusire, Joshua Redman e Mark Turner. Pode comentar sobre a curadoria do repertório? Você escolheu temas que fogem dos mais populares nesse tipo de projeto, e acho que essa seleção é uma das maiores qualidades do disco. Também poderia falar sobre a importância de ter Mark Turner, Joshua Redman e Ambrose Akinmusire na sessão?
Como músico de jazz que cresceu estudando essa bela e complexa tradição, foi natural mergulhar em um projeto tocando standards. Durante a pandemia, acabei fazendo muitos arranjos — apenas de músicas que eu realmente amo. Em certo momento pensei: “preciso gravar isso”. Percebi que já refletia sobre essas canções há anos e não queria perder o impulso.
Com o tempo, entendi que precisava disso, como improvisador e compositor. De uma forma quase física, eu precisava retornar ao modo de buscar algo dentro da tradição da qual vim. Sinto que o mundo, obcecado por categorias e classificações, precisa de toda a energia improvisacional disponível. O jazz desafia isso. Ele representa algo mais elevado — é a encarnação da liberdade dentro da música. Mas essa liberdade precisa ser profunda e pessoal.
É preciso restringi-la, compreendê-la, criar uma visão e dominá-la — só então é possível ser livre dentro dela.
StandArt foi gravado durante a pandemia, então todos os músicos estavam disponíveis para gravar em curto prazo. O toque de Mark, Ambrose e Joshua sempre foi uma enorme inspiração para mim ao longo dos anos, e finalmente chegou o momento certo para convidá-los a registrar algo juntos.
7. Grande parte do seu trabalho recente foi lançada pela Nonesuch, incluindo seu disco mais recente, “The Bird of a Thousand Voices”. O álbum é baseado no conto popular armênio Hazaran Blbul (também conhecido como “O Pássaro das Mil Vozes”). Você pode comentar sobre o conto que inspirou esse álbum e também sobre o trabalho com sintetizadores nessa sessão?
Em 2019, encontrei essa história em um livro do musicólogo e compositor Arthur Shahnazarya. Ele escreveu uma versão do conto repleta de simbolismos e incluiu um comentário breve, mas muito perspicaz, explicando o significado de alguns desses símbolos e arquétipos.
Fiquei profundamente impactado por essa narrativa antiga — não conseguia pensar em outra coisa. É uma história tão poderosa e épica que parece saída da Bíblia, do épico de Gilgamesh, e em certos momentos lembra a história de Sidarta.
Posso dizer que minha vida mudou, em certa medida, após descobrir esse conto antigo. Ele desencadeou um processo criativo imenso. Comecei a compor inspirado nos diferentes elementos da história e acabei escrevendo mais de 90 minutos de música, contando o enredo do início ao fim, inspirado por várias versões do mito.
A melhor forma de descrever o resultado seria: Ópera armênia de synth – prog metal / ambient eletrônica.” Levei desde o verão de 2019 até dezembro de 2024 para concluir o álbum. Comecei a explorar sintetizadores analógicos e a construir as composições com eles. Para as faixas mais pesadas, queria recriar o som do metal com synths e pedais analógicos, em vez de usar uma guitarra de oito cordas. Buscava algo diferente do som tradicional do prog-metal, influenciado por bandas como Meshuggah.
Também improvisei bastante com os sintetizadores, compondo peças mais lentas e atmosféricas — canções eletroacústicas “pop” e interlúdios harmônicos mais exploratórios. O álbum tem uma sonoridade orquestral guiada por sintetizadores, com piano e vozes na maioria das composições. Tentei canalizar novas melodias armênias e também melodias imaginadas, que poderiam ter sido compostas em tempos muito antigos — quando os reinos de Aratta, Sumer e Hayasa floresciam — já que a história se conecta diretamente à mitologia e aos sistemas de crenças de mais de 5.000 anos atrás.
Acredito que sinto uma ligação profunda com esses mitos e formas de arte ancestrais porque sou descendente desse povo que viveu no território da Grande Armênia. Sobre a gravação e os músicos: Nate Wood é como um irmão musical. Há algo misterioso que nos conecta — percebi isso desde a primeira vez que tocamos juntos, em 2008, durante a gravação do álbum Red Hail. Há poucos músicos no mundo por quem tenho tanta admiração, e Nate é um deles.
Todas as faixas com ele foram criadas em um curto período, durante e após meu álbum de 2020, The Call Within. Quando percebi que tinha cerca de 10 a 12 faixas prontas, entrei em contato com ele, enviei as músicas, e cerca de um mês depois estávamos gravando no estúdio do pai dele, Steve Wood, na Califórnia.
Gravamos tudo ao vivo em quatro dias (apenas piano e bateria). No terceiro dia — 11 de março de 2020 — ouvimos no noticiário que o mundo estava fechando por causa da pandemia, e Nate mal conseguiu voltar a Nova York antes do lockdown começar.
8. Gostaria que comentasse a importância da improvisação em seu trabalho e como você aborda o ato de tocar em diferentes formações. Tocar em grupos e formatos variados ajuda a manter suas ideias musicais sempre novas e em evolução?
Como artista, estou em busca constante. Escrever e explorar diferentes formações é uma ótima forma de me descobrir através da interação com outros músicos — e também quando toco sozinho.
10. Por fim, Tigran, gostaria de perguntar se a **música brasileira** teve alguma influência na sua trajetória. Há artistas ou tradições específicas do Brasil que o inspiraram de alguma forma?
Sou um grande fã da música brasileira, que certamente teve influência no meu trabalho. Meus artistas favoritos são Milton Nascimento, Edu Lobo, Elis Regina, Chico Buarque, Guinga, Dori Caymmi e Nana Caymmi, entre muitos outros.
