Lançado em 1992, 40 Oz to Freedom do Sublime se mantém um clássico trinta anos depois, com sua mistura de hardcore, reggae, rap, ska!
Estávamos no ano de 1996 e como parte do público da MTV naquela altura, como outras milhões de pessoas eu tomava contato com o clipe de Santeria recém lançado e um sucesso mundial. No entanto, era estranho pois junto com a admiração pela música vinha a notícia de que o Sublime já não existia mais. Bradley Nowell já tinha empacotado poucas semanas antes do lançamento do disco, terceiro da banda.
Não existia internet disponível e graças ao querido amigo Rafael Cupim, numa das muitas bodyboarding trips ouvi os dois discos inteiros, tanto o Sublime (1996) quanto o 40 Oz To Freedom (1992) e automaticamente pedi uma fitinha que dali em diante não saiu mais do walkman. Era tudo muito novo, uma banda que não apresentava apenas uma ou duas sonoridades, mas que atacava de diversos gêneros musicais, com muita qualidade técnica.
Passei dois meses juntando dinheiro para conseguir comprar os CD’s, escondi o terceiro (Sublime) que encontrei nas Americanas e sempre passava para olhar se ele permanecia à minha espera. O 40 Oz to Freedom eu encontrei numa loja no bairro da Pituba pela “bagatela” naquele momento de 50 reais, uma fortuna. Depois de juntar tudo que recebia, consegui os 10 reais que faltava lavando o banheiro de casa por 4 finais de semana seguidos.
O grande pulo do gato era que além de ter os CD’s originais eu poderia aprender as letras direitinho, e consequentemente aprender as referências que pescava aos poucos ouvindo nas fitinhas. Com toda a certeza, o Sublime foi a banda que mais me preencheu de referências que de outro modo eu demoraria muito a descobrir. De The Specials e The Melodians até KRS-One, passando por Miles Davis e The Toyes, era uma festa descobrir esses nomes e ir atrás de informação.
Musicalmente era a trilha sonora perfeita para acordar de manhã instigado e ir no busão imaginando as manobras da sessão do dia, com as porradas e andamentos invocados de Bud Gaugh (bateria). Funcionava na volta também, chapado de horas e horas dentro d’água, ouvindo as linhas de baixo do Eric Wilson que passeava do dub ao ska com tranquilidade, algumas das sonoridades jamaicanas abordadas no disco. Certamente, 40 Oz To Freedom é um dos discos que mais escutei na vida, escuto até hoje e essa obra não perde o brilho, completando este ano 30 anos de lançado!
Lançado após sessões de gravação clandestinas, Jah Won’t Pay The Pills (1991) é a demo da banda que já trazia algumas canções que seriam regravadas no disco de estreia. A fita demo toda gravada durante madrugadas pelo estudante de música Michael “Miguel” Happoldt no estúdio em que trabalhava na Universidade Estadual da Califórnia, ajudou a pavimentar a banda no underground do sul da Califórnia.
Com 22 músicas e originalmente lançado pela Skunk Records, 40 Oz To Freedom (1992) é um passeio urgente e bem conduzido por gêneros musicais como o rock alternativo, rap, dancehall, pop reggae, roots reggae, ska-punk, hardcore. Apresentando uma visão ensolarada de uma Califórnia sem inocência, como descreveram alguns, o Sublime parece um Beach Boys sob os efeitos do crack. Apesar de como disco não possuir uma identidade clara, pelo motivo óbvio de propor uma corrida onde tudo tinha que caber dentro do disco, é exatamente esse punch e a qualidade inconteste do power trio, que nos faz ouvir o disco do início ao fim com um sorriso no rosto.
Em nenhum momento, parecemos estar diante de uma banda que produz pastiches sobre as influências que lhes são caras. O disco possui nada menos do que seis covers: Smoke Two Joints (The Toyes), We’re Only Gonna Die (Bad Religion), 54-46 This is My Number (Toots and Maytals), Scarlet Begonias (Grateful Dead), Rivers of Babylon (The Melodians) e Hope (The Descendents). Além de diversas menções a artistas tão diversos como Frank Zappa, The Boomtown Rats, uma música nomeada como KRS-One e muito mais.
As faixas de autoria como Badfish, Don’t Push e mesmo a faixa homônima 40 Oz To Freedom apresentavam as boas composições de Bradley Nowell e a sua voz doce. O Sublime também foi uma das primeiras bandas a antever a força do rap e naquela altura já se apresentava com um DJ no palco, algo do qual são pioneiros.
Passados 30 anos de seu lançamento, hoje com informações sobre acusações de forte postura machista por parte do Bradley Nowell que escreveu uma canção duvidosa, Date Rape, presente nesse disco, com o devido afastamento histórico é possível ver que o disco influenciou muitas bandas. A exemplo da banda de sua amiga Gwen Stefani e o seu No Doubt. E infelizmente, o Bradley Nowell sucumbiu ao vício em heroína algumas semanas antes de ter o terceiro disco lançado por uma subsidiária da MCA, deixando o pequeno Jakob Nowell e a esposa Troy Dendekker, assim como os companheiros da sua banda.
-Disco de estreia do Sublime, 40 Oz to Freedom completa 30 anos!
Por Danilo Cruz
Danilo
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