Dalmatans X, banda formada em Salvador, surge na cena underground baiana como a centelha da renovação do seu hardcore.
Toda comunidade, todo povo se preocupa em manter vivo seu legado cultural. Porque sabe muito bem que a preservação de sua identidade, valores e estilo de vida são dependentes deste expediente. Não é diferente com uma cena sociocultural como é o caso do underground baiano.

É preciso que seus representantes mais velhos, detentores de vivências que permitem a construção de mecanismos que mantenham a cena funcionando cumpram seu papel. E observando de perto o underground baiano, vejo essa função sendo cumprida, mesmo que na base da força de vontade e na manutenção de um ethos que beira ao estoicismo.
Contudo, todo este esforço de preservação e fortalecimento de uma cena underground perde o sentido se não houver uma nova geração para receber este legado e levá-lo adiante.
Vejo a falta da presença de uma nova geração no underground baiano. Claro, esta é uma percepção muito particular, apenas uma pesquisa pautada em metodologia científica pode atestar essa hipótese.
Porém, estou seguro em afirmar que se há uma renovação geracional no underground baiano, ocorre de uma forma tímida, quase imperceptível. As bandas na ativa, por exemplo, são formadas por uma galera veterana, fazendo-se presente há décadas, o que é importante, mas sem promover uma renovação do público e das bandas.
Surgem bandas novas com frequência, mas formadas pelos rostos de sempre. Portanto, quando surge uma banda composta por membros tão jovens quanto os da Dalmatans X, precisamos comemorar efusivamente!
Batendo o olho numa das fotos da banda chuto que Lucas (vocal e guitarra), Carol (baixo) e Rudá (bateria) pertencem a geração Z, ou seja nasceram ali pela primeira metade dos anos 2000. Ou seja, são bem jovens e algo os motivou a montar uma banda de hardcore, enfatizando o skatecore em particular.
Certamente as influências da banda estão ramificadas em diferentes subgêneros do punk, mas a velocidade do andamento das músicas mostra um interesse particular nas vertentes mais aceleradas dessas ramificações.
Outra característica importante está no fato da banda ter sido formada durante a pandemia. Uma vivência que do ponto de vista de quem está saindo da adolescência e entrando na fase adulta trás uma outra perspectiva desta experiência.
As letras também trazem temas comuns a geração dos integrantes como encontrar motivação para realizar as coisas, a forma como as redes sociais influenciam nossas vidas, a procrastinação e o tédio.
Claro, não se trata em dizer que são questões exclusivas das gerações surgidas a partir dos anos 2000, mas sim enfatizar a forma particular como essas gerações lidam e vivenciam essas questões. E isso a Dalmatans X compartilha com nós que metemos o dedão no play pra ouvir seu trabalho de estreia.
Os três não apenas formaram uma banda como compuseram músicas que foram lançadas no primeiro registro da banda, o EP Filip For a Moment, lançado em fevereiro deste ano. O EP é muito bem gravado e produzido. A execução das músicas pelo trio é segura e intensa. Uma estreia e tanto dessa jovem banda.

Seguem a risca a cartilha estética do skatecore com andamentos velozes, solos de guitarra simples e diretos. Bom, talvez não sigam tão a risca a cartilha. Há recortes em que metem elementos do metal como em Shoud Fortet!!?, faixa 2, e Sheep’s Shadow, faixa que encerra o álbum.
Esta música foi a que me chamou atenção na primeira audição. Ela segue até próximo ao final na linha hardcore e de repente rola uma espécie de interlúdio mais cadenciado que rapidamente acaba pra desembocar novamente em uma cadência acelerada que se estende até o fim.
Algo interessante consiste no modo como as músicas trazem mudanças de intensidade em suas execuções. O ouvinte é levado a experimentar diferentes sensações e percepções devido a este arranjamento das músicas.
Dalmatans X mostra ser uma banda promissora, seus integrantes revelam senso crítico acerca da realidade que os cerca, além de vontade em fazer seu som. Esperamos que seja uma dentre tantas bandas que estão surgindo e surgirão para revitalizar o underground da Bahia.
Carlim
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