Cidade dos Normais e a poesia distópica da Escambau
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Cidade dos Normais e a poesia distópica da Escambau 

No clipe Cidade dos Normais, a banda paranaense Escambau celebra 15 anos de carreira com uma crônica urbana irônica e distópica, gravada ao vivo no Teatro Paiol, em Curitiba.

A celebração de uma resistência

Vou começar a resenha propondo que você tente imaginar seria viver numa cidade onde tudo parece perfeito, mas nada é real? Será mesmo, que esse exercício de imaginação nos coloca diante de uma realidade ainda por vir? Ou será que já estamos inseridos nessa realidade social?

É nesse cenário que a banda paranaense Escambau ambienta Cidade dos Normais, canção transformada em um clipe visualmente arrebatador, gravado ao vivo no histórico Teatro Paiol. E que fará parte do novo álbum da banda que celebra o tempo de existência da banda. 

Completando 15 anos de estrada e uma trajetória marcada pela resistência da música independente, o grupo entrega uma crônica urbana afiada, que mistura poesia, ironia e a tensão silenciosa das grandes distopias.

O clipe que revela o show

O álbum recebe o nome “Escambau – Acústico 15 anos no Teatro Paiol”. Acho que a partir daqui, tendo o título revelado, inferir se tratar de um álbum ao vivo, no formato acústico, o local do show e gravação do álbum é o Teatro Paiol em Curitiba.

Seu lançamento acontece hoje, 15 de agosto, a partir das 19 horas no SESC Paco da Liberdade, em Curitiba. Será feita uma audição pública do álbum, que estará disponível em todas as plataformas de streaming a partir do dia 18 de agosto.

A banda lançou uma das faixas, “Cidade dos Normais”, no formato single no final de abril deste ano. Recentemente lançaram o clipe da faixa e ali se revelou a beleza visual da gravação em vídeo do show. 

“Cidade dos Normais”, portanto, pode ser visto no formato de clipe, no YouTube, e já nos mostra a qualidade da produção do show.

Distopia em forma de canção

“Cidade dos Normais” elabora uma crítica sutil e irônica a uma sociedade caracterizada pelo conformismo, pela superficialidade e pelo controle simbólico — algo próprio das distopias presentes em obras literárias como 1984, de George Orwell; Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley; ou na trilogia distópica de Ignácio de Loyola Brandão: Zero, Não verás país nenhum e Desta terra nada vai sobrar.

A letra descreve uma cidade que, a partir de um ponto de vista distraído, parece tranquila e sob a “proteção” de uma força maior. Contudo, trata-se apenas de uma impressão fabricada. O que existe, de fato, é o exercício de controle social sobre os habitantes dessa localidade.

Nesse sentido, “Cidade dos Normais” nos surge como uma alegoria da realidade social, existente por trás de um verniz de aparência que sugere organização e normalidade.

Essa alegoria remete ao filme Eles Vivem, do diretor norte-americano John Carpenter. No longa, um óculos especial, quando usado, revela a realidade por trás da camada aparente utilizada para camuflar uma estrutura opressora de profundo controle sobre as decisões e ações dos indivíduos.

A normalidade descrita na música não passa de um estado de anestesia coletiva, tal qual o causado pelo consumo da droga “soma” na sociedade apresentada por Huxley em Admirável Mundo Novo. Dessa forma, os governantes podem induzir ações e decisões dos “cidadãos” dessa sociedade controlada.

Podemos identificar uma ironia no fato de que a cidade é aparentemente segura, até previsível, mas é justamente essa previsibilidade que a transforma em uma imagem distópica de sociedade.

Na linhagem da MPB crítica

Outra forma de compreender a crítica presente na música é pelo seu formato de crônica urbana, que se encaixa na tradição da MPB mais crítica — aquela que recorre a harmonias ambíguas, aliadas a melodias sedutoras e letras irônicas, para abordar uma realidade política e social marcada pelo signo da passividade.

Nessa tradição, podemos incluir compositores do quilate de Chico Buarque, Caetano Veloso, Itamar Assumpção e Belchior. Duas imagens presentes na letra da música representam bem seu caráter metafórico e satírico: “olho de vidro” e “prefeito quadrado”.

Essas expressões reforçam o tom de metáfora e sátira, lembrando algumas fábulas urbanas da canção brasileira dos anos 1970, período em que a crítica social precisava se disfarçar de ironia para escapar dos aparelhos de repressão e censura.

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