Charles Mingus Plays piano & e a letargia da quarentena, uma reflexão sobre os males que o isolamento social acarretam!.
Nem sei mais quantos dias de quarentena já se passaram. No geral, todas essas pílulas de 24 horas parecem um conjunto de cosplays personificados dentro de um som do Racionais. Já dizia Mano Brown em “Diário de um Detento”: “tanto faz, os dias são iguais”. No entanto, que me perdoe o maestro do Capão Redondo, mas eles não são, mesmo em quarentena.
A letargia é o principal sintoma desse retiro forçado que estamos sendo obrigados a seguir, cooperando para atrasar um evidente colapso, pensando não só na economia global, mas também nos sistemas de saúde. A ansiedade, o nervosismo e o complexo processo de conseguir manter a calma sem saber nem ao menos até quando, é, sem dúvida alguma, o maior obstáculo para uma mente sã.
Mas é preciso descentralizar a paranoia. É importante tirar o pé do acelerador mesmo e aproveitar esse período para pensar, tirar para balanço e matutar sobre o futuro. É claro que todos temos contas pra pagar, mas a maciça reflexão pode ser um perigoso antídoto contra as neuras de nosso cérebro. Esse período surgiu para elucidar muitas coisas e no fim do dia o que fica é esse Jazz todo que chamamos de vida e que, ao passo de segundos, sempre surpreende a todos, seja o ouvinte, o músico ou o narrador que parece sussurrar as respostas no ouvido do redator.
Passados todos esses dias, um disco em especial me pegou pelo pé novamente e me colocou num profundo coma pensante. Uma das gravações mais curiosas da carreira do arisco Charles Mingus, intitulada “Mingus Plays Piano” – lançado em 1963 via IMPULSE! – é um retrato fidedigno sobre como o homem é mutável e pode surpreender a si mesmo, até no mais caótico dos cenários.
Vejamos o referencial do baixista à época: Charles já era um músico plenamente estabelecido quando essa gravação saiu. Fez uma trilogia de ouro para a IMPULSE! (“The Black Saint and The Sinner Lady”, Mingus Plays Piano”, ambos de 63 e “Mingus, Mingus, Mingus, Mingus, Mingus”, de 64). Pela Columbia gravou discos antológicos como “Mingus Ah Um” (1959) e pela Atlantic, entregou pérolas seminais do quilate de “Pithecanthropus Erectus” (1956) e o fabuloso “The Clown”, liberado em 1957. Isso é claro, só pra citar alguns clássicos, pois o cidadão eternizou dezenas.
Com tudo isso, Mingus ainda surpreendia. Um artista questionador e que não temia seu público, suas palavras eram tão pungentes quanto seu fraseado no rabecão, seja com ou sem arco. E por que digo isso? É claro que não existe uma relação com a quarentena do Coronavírus com o Jazz, mas é possível traçar um paralelo entre a gravação de Mingus no piano com a nossa letargia anunciada em tempos de reclusão.
Mingus estava, ainda que amplamente entretido e prolífico criativamente – cansado de seu referencial como baixista, seja num quinteto com o Max Roach ou numa ensemble maior, arquitetando composições arrasa quarteirão com arranjadores como Bob Hammer. O piano lhe ofereceu um novo começo, um canvas em branco que ele devorou e externalizou suas frustrações, para rebater seu rancor com os grandes festivais e com um público que via os Jazzístas como meros palhaços de circo.
Essa gravação não é tão citada quando comentam seus grandes feitos discográficos, porém esse registro é um dos mais singelos e verdadeiros, deste que foi um dos maiores compositores de todos os tempos. É um trabalho nu e cru de um artista que nunca teve medo de se posicionar, nem de confrontar o ser criativo e o ser humano. Mingus apenas senta ao piano e, completamente sozinho, nos faz pensar bastante, principalmente no futuro.
É possível sentir sua aflição, mesmo quando ele quebra suas pernas com baladas sublimes como “Orange Was The Color Of Her Dress, Then Silk Blue” e “Roland Kirk’s Message”. Mas o grande lance é o legado desse sentimento. Em pouco mais de 50 minutos, Mingus vem de peito aberto, confrontando suas inseguranças num instrumento que ele estava longe de estar engatinhando, mas que ao revelar essa nova faceta ao público, mostra um artista em estado pleno que não se esconde em amarras estéticas para justificar suas inseguranças.
Ele quer despertar você pra alguma coisa e é por isso que esse paralelo foi traçado com a letargia global que vivemos. É um ser humano, como eu e você, se expressando e tentando sair do lugar, mesmo que fora de órbita com relação ao seu instrumento mãe. Essa gravação diz muito sobre o artista que Charles Mingus foi e acredito que se ele estivesse vivo hoje em dia – teria aversão ao modelo de lives do Instagram – entretanto, tenho certeza que ele estaria fazendo alguma coisa disruptiva para desbloquear seus anseios para quando a tempestade passar.
Depois desse disco, Charles Gravou “Mingus, Mingus, Mingus, Mingus, Mingus” – no ano seguinte – em 1964 e deixou público e crítica no chão. E você? O que você está fazendo para gravar o seu “Mingus Plays Piano”? Sei que está difícil, doloroso e extremamente denso, mas acredite, você consegue dar um novo referencial para a sua cabeça e sair do loop, porém é preciso tentar, assim como o mestre fez no exuberante medley que encerra o disco: “Medleys, Anthems and Folklore”.
Abre espaço para a sua obra prima. Confronte a incerteza, seja corajoso e respire fundo. Esse texto não é sobre o Charles Mingus nem sobre Jazz, mas sim sobre a vida e como ela nos dá oportunidades raras, mesmo em tempos de pandemia. Não trave, finja que é um improviso e siga no tempo do beat.
-Charles Mingus Plays piano & e a letargia da quarentena
Por Guilherme Espir
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