O estudo e o aprofundamento teórico é necessário antes que um ”Love Devotion Surrender” seja criado. Precisamos encontrar um novo rumo para a mente antes de canalizar a energia musical.
Não basta tocar ou possuir o conhecimento da parte técnica, a guitarra nada pode fazer se a mente do tocador é limitada. Sua ideia só vira arte quando o criador entende de que forma pode elevar o padrão criativo e se conectar com o ouvinte, esqueça os rótulos, esse Fusion é Free Jazz ou esse Free Jazz é Fusion? Chama o Sri Chinmoy que ele explica.
Line Up:
Mahavishnu John McLaughlin (guitarra/piano)
Carlos Santana (guitarra)
Doug Rauch (baixo)
Mahalakshmi Eve McLaughlin (piano)
Khalid Yasin (piano/órgão)
Jan Hammer (órgão/bateria/percussão)
Billy Cobham (bateria/percussão)
Don Alias (bateria/percussão)
Mingo Lewis (percussão)
Mike Shrirve (bateria/percussão)
Mingo Lewis (percussão)
Armando Peraza (percussão/vocal)
Track List:
”A Love Supreme” – John Coltrane
”Naima” – John Coltrane
”The Life Divine”
”Let Us Go Into The House Of The Lord”
”Meditation”
A fase Jazz do fantástico Carlos Santana não agrada todo mundo, é quase igual comparar a fase Funk do Deep Purple com o período áureo do Hard-Heavy. Porém creio que poucas vezes dentro da música, o próprio criador se sentiu tão bem em relação aos novos rumos criativos de sua arte.
Depois de aparecer igual um raio em Woodstock, sem ao menos possuir um disco de estúdio (e gravá-lo logo após o festival para aproveitar o burburinho), o ”Latin Rock” do mestre Santana virou febre e a cozinha deste período se seguiu de forma absurdamente prolífica até 1971, com o também excelente ”Santana III”, a trinca do melhor de vossa latinidade, já diria Gilberto Gil.
Teoricamente a cozinha era a mesma, porém fica claro a progressiva evolução pela qual esses discos passaram, sendo o terceiro o momento de saturação deste som. Creio que se o mexicano tivesse optado por continuar nessa linha de ”caldeirão latino”, o próximo LP teria chances bem consideráveis de fracassar, fora que encerrar uma fase é sempre bom se for no topo, exatamente da forma que foi feito.
Só que isso não teve aviso prévio, e em termos práticos foi até que complicado. O baixista da formação original, David Brown saiu da banda em 1971 e foi substituído por Doug Rauch e Tom Rutley, fora Gregg Rolie que foi aos poucos se desentendendo com seu patrão e apesar de tocar em algumas faixas desse LP, também foi substituído, dessa vez por por Tom Coster, o que seria o ultimato do tecladista para sair de mala e cuia para formar o Journey com Neal Schon.
Onde seu Jazz complexo seguia as leis de seu guru de forma cega, para conseguir atingir um grau de exatidão musical que sozinho ele nunca conseguira antes. E agora que sabia que o Santana estava começando a ter interesse em seu mesmo segmento de atuação, era hora de fazer a mesma purificação com o guitarrista.
Que para resumir o nível de piração, inclusive citando o próprio responsável: ”Quando o finito entra no infinito, torna-se o infinito tudo de uma vez. Quando uma pequena gota entra no oceano, não podemos traçar a queda. Torna-se o poderoso oceano”. Agora junte este não tradicional raciocínio com McLaughlin dando aulas de guitarra para Santana, uma homenagem ao clássico de John Coltrane, ”A Love Supreme” e uma equipe de doze músicos (todos de branco no estúdio), que você talvez chegue perto da energia incandescentemente inexplicável, que um dos maiores discos da história da música, emana em prol de coisas finitas que devem se juntar para simplesmente tornarem-se infinitas.
E em 35 minutos sendo alvejado pelo mais magnífico som, temos uma clara amostra do que essa frase do senhor Chinmoy significa. Um som que emite uma nota para começar a reverberar, mas que assim que o faz, já com a nota estreante, adentra o todo da jam e torna-se o infinito particular que escutamos em disco e LP.
Sem esse exagero sem precedentes de tentar ser um cover para a épica versão de Coltrane, mas com um trabalho nada simples de expandir os horizontes de dois temas que o saxofonista criou para ”A Love Supreme” e continuar o caminho com a música, que com uma urgência poucas vezes ouvida, sai de forma desenfreada numa hecatombe de solos dos mais intrincados, sentimentais e intensos.
Momentos que se escutados de olhos abertos são semelhantes a colocar a cabeça dentro de um liquidificador, mas que se forem apreciados na calmaria de olhares cerrados, transmitem uma paz existencial que poucos acreditavam existir, até esse ápice celestial de guitarras.
Que se apoiando no conceito de renovação e encerramento de ciclos da obra de Coltrane, culmina com uma sessão de pura e abastada liberdade em prol de instrumentos que funcionam em pura extensão do pensamento de Miles Davis, isso sem contar um Santana (que me desculpe o McLaughlin), é o principal destaque do disco.
Não tem pra Billy Cobham, Jan Hammer, Doug Rauch ou Mike Shrirve, aqui ”Devadip” assume a PRS e por meio do corpo de Carlos executa passagens kaledoscópicamente possantes que emanam o montante energético de dez usinas de Itaipú, seja tocando temas de Coltrane, como a já citada ”A Love Supreme” e ”Naima” (onde justiça seja feita, John arrebenta), ou escolhendo romper o que nem dez Jim Morrisons conseguiriam (”Break On Through To The Other Side”), superar o paradigma do outro lado com a teoria mística dos quase dez minutos de ”The Life Divine”.
Ou recriando uma atmosfera tão pura e absolutamente volátil, que qualquer um pode afirmar com quase 100% de certeza, que quando a dupla começa a maior imersão espiralada do disco com ”Let Us Go Into The House Of The Lord”, que os responsáveis realmente entraram na casa de Deus. E os solos do guitarrista mexicano são um singelo retrato do ambiente, das conversas e da paz que o jardim do senhor poderia nos proporcionar e acabou evaporando para a dupla.
Esqueça pedais de efeito, overdubs e qualquer outro tipo de artimanha que pode ser utilizada em estúdio. Esse trabalho estabelece algo que para qualquer músico é realmente digno de se formar uma nova religião, o comprometimento com sua arte. Não importa se esse novo pacto que ambos concordaram em firmar deixassem-os meio bitolados futuramente, o ponto é perceber como mergulharam nisso de cabeça e, focados, criaram algo que ninguém em seu juízo perfeito poderia sentar para escrever em partituras.
E para provar como esse disco é único, trata-se de um dos raríssimos casos onde a crítica mal soube explaná-lo tamanha a gama de elogios, mas que os fãs, tanto de Carlos quanto de McLaughlin, mal conseguiram entender (apesar das boas vendas). E dizer que aqui as linhas são repletas de sentimentos, ou que a banda de apoio arrebenta quando requisitado (mas passando desapercebida várias vezes), é pouco, diria que quase nada.
Essa colaboração faz até o mais cético dos fãs repensar o papel da música, por que depois que Devadip adentra a casa do senhor e nos conta como foi, não tem como não presumir que ”Meditation” tenha sido sua reflexão após o ocorrido. A música é uma religião, só que com Santana & McLaughlin você visita a igreja e tem mais contato com o dito ser superior, do em que muita sessão de espiritismo por aí… Até ouvir esse trabalho o resenhista era agnóstico, após o play ele passou a realmente acreditar que é possível fazer parte do infinito. Devadip e Mahavishnu, senhoras e senhores!
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