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Bonsai em Sorte ou Revés, uma longa e intrincada reflexão sobre o “game”!

Bonsai

Bonsai lançou um disco com a produção do trio CIANO, Rudgini e Carcamano, que já nasceu como um importante documento do boombap nacional.

“A existência do jogo é inegável. É possível negar, se quiser, quase todas as abstrações: a justiça, a beleza, o bem, Deus. É possível negar-se a seriedade, mas não o jogo.” Johan Huizinga

Curiosamente, a história do rap incorporou o termo “game” ao seu vocabulário, mas muitas das vezes é uma noção utilizada com pouca ou nenhuma reflexão. Sempre foi algo que me incomodou muito pensar o rap através dessa noção pouco refletida, porque por óbvio o “Jogo da Indústria Cultural” é produzido através de cartas marcadas em todas as suas esferas; determinado não por regras claras, mas sobretudo por privilégios de raça e classe. 

Em Sorte ou Revés, ao longo de 21 faixas em 48 minutos e 59 segundos, Bonsai produz uma obra onde ele foi impulsionado pelos produtores CIANO, Rudgini e Carcamano, a aterrar sua lírica e flow dentro de uma perspectiva onde o ouvinte é levado a pensar o Jogo. O jogo social e político, cultural e de linguagem, de modo crítico e partindo do peso e da cadência do boombap/drumless. 

O jogo é algo sempre presente na história da humanidade, o filósofo holandês Johan Huizinga por exemplo, publicou o importante estudo Homo Ludens em 1938. No livro, ele apresenta a ideia de que o Jogo é algo inerente a vida dos seres humanos, logo anterior a cultura, tendo esta última sendo desenvolvida a partir do jogo. Outro filósofo, o austríaco Ludwig Wittgenstein desenvolveu a noção de “Jogos de Linguagem”, mostrando entre outras coisas que o significado das palavras e das frases são fruto de diferentes jogos de linguagem. 

Mesmo na matemática, há todo um campo de estudos chamado Teoria dos Jogos, que nos mostra que existe a capacidade de análise científica sobre os jogos em diversos níveis, seja no social, na economia ou em questões militares. Talvez, você se lembre do John Nash, matemático vivido no cinema pelo ator Russell Crowe no filme Uma Mente Brilhante, ele que foi um dos grandes pensadores da matemática a desenvolver o Equilíbrio de Nash sobre jogos não cooperativos e sua teoria da barganha. 

O pedagogo e pensador brasileiro Rubem Alves tem um texto maravilhoso, onde ele analisa a diferença entre o Tênis e o Frescobol. Nos mostrando como o frescobol se difere do tênis por não ser um jogo onde há vencedores e perdedores. Onde só há “prazer” na cooperação cada vez mais complexa dos dois jogadores ao não deixar a bola cair. Acho que por isso não sou um admirador de batalhas de rima, mas um forte amante do freestyle, que podemos conceituar da mesma forma que o Rubem Alves.  

O disco “Sorte ou Revés” se insere como um documento especial neste ano de 2025 por além da qualidade de rimas e beats, trazer essa discussão para o rap nacional. Sem didatismos, Bonsai – um dos grandes MC’s do rap atual – nos impulsiona a pensar todas as dimensões acima mencionadas, o jogo e nossas posições e estratégias diante de uma sociedade que grita para nós a necessidade de vencer na vida. Como se a nossa existência precisasse de podiuns, de troféus, e a sociedade não fosse um tabuleiro que possui dono, como se houvesse nessa pseudo disputa regras isonômicas.

O título, também propõe uma discussão sobre os aspectos metafísicos muitas vezes presentes na percepção dos jogos. No entanto, é aí que nos parece que o grande acerto do disco se dá em mostrar que todo jogo existe a partir de regras, conhecidas ou não, e que atribuir “sorte ou revés” a um resultado é mera superstição, como jogadores estúpidos que atribuem resultados a deus, como se fossem eles escolhidos divinos. Quando na verdade, uma série de eventos concorreram para o sucesso dos mesmos. 

A primeira música do disco, que foi lançada em formato audiovisual, “Esporte de Contato”, “cuidado com a fé que você põe nos dados, eles chamam de sorte, eu chamo resultado, quando acreditei no jogo quem tava do lado?” aposta em uma produção que filma o cotidiano. Trabalho, amizades, jogos e apostas, é o que o clipe nos traz. Apresentando uma visão imanente dos jogos que o Bonsai prática, ele que além de MC é cozinheiro. 

Abrindo a primeira série do disco, onde a “Sorte” é o alvo crítico e elemento de análise, “Esporte de Contato” é um primeiro ato dessa grande reflexão poética. E se percebêssemos os acontecimentos diários como jogos, o trabalhador como um atleta, o assaltante preso como um triatleta? São várias as aberturas colocadas inteligentemente pelas letras ao longo das faixas. O beat de “Teoria dos Jogos” é um dos grandes momentos que constituem todo o disco, o sample de gaita é utilizado com muita técnica em um boombap, dando um toque de melancolia à faixa. 

O trabalho do trio de beatmakers e produtores de “Sorte ou Revés” é de muita qualidade, na criação de climas que recebem do Bonsai – inclusive por encomenda do trio – lírica e flow conceitualmente amarrados no tema central. Dentro da estrutura proposta pelos artistas, onde a sorte e o revés são trabalhados em dois momentos distintos como crítica política e social. Onde a cultura Hip-Hop, o rap pensam a realidade de modo crítico, e os espaços poéticos e os beats são sempre investigações muito bem acabadas dentro desse espectro. 

Em “Teste”, com um beat covarde do Carcamano, Bonsai abre um caixa de ferramentas que demonstra com facilidade – sim ele faz parecer fácil – porque o artista de Mauá – SP, é hoje um dos melhores MC’s em atividade, até os manos de Osaka sabem disso. Quanto mais poetisa dentro dos paradigmas propostos, mas Bonsai nos leva a pensar no ridículo de toda a situação, ludicamente ele nos pega pela mão e ao nos levar nesse passeio por uma Capcom imaginada, vai nos trazendo cada vez mais para a dureza da realidade. O drumless do CIANO em Sonhos, Tramas e Fragrâncias é um bom exemplo disso.

A música se encerra saindo do drumless e entrando no beat da faixa seguinte, Yusuke, do próprio CIANO também, e nos trazendo uma noção de que passou-se de fase, ou a cena do jogo mudou. Tipo “Yusuke”, Bonsai pratica um jogo poético muito bem construído, onde ele encarna a persona de herói e ou chefão, a depender do que a fase/verso pedir. O “Preço da Arte” no beat do Carcamano, essas fabulações acima mencionadas são elevadas à enésima potência. 

Graças ao trabalho do Gustavo Melão e suas produções no canal De Boca Cheia no youtube, tivemos acesso ao modo de composição do disco, onde o trio de produtores contou ao mano que foram juntando as músicas e pediram ao Bonsai para criar algumas das músicas. Dando assim, a cola conceitual para o disco. Note-se por exemplo como algumas das faixas possuem diversas soluções de continuidade. 

Como por exemplo, “Capuava” no beat do Rudgini, onde Bonsai apresenta versos muito fortes, como: 

“E o crime segue seguindo como procedimento, bagulho é sério sentido ao desenvolvimento, e o rap segue seguindo cuspindo pra o vento, os vendavais sobre o seu catavento. Não é brinquedo é o microfone, eu represento o nome de quem não come então nunca esquece da fome.”  

Há uma inserção tímida de uma fala ao final da faixa, e para o ouvinte atento, a chave do jogo. O bolero do CIANO, “Papel” já segue dando-nos uma dica de como entender o jogo para além das noções de “Sorte ou Revés”, um dos mais bonitos e trágicos storytellings da história do rap nacional em letra e música. Nossas mentes sempre concorrem para termos azar e ou sorte nas jogadas da vida, a profundidade presente nessa música, é algo raramente encontrado, pois nem abre mão da visão crítica e muito menos se rende a determinismos científicos e ou ideológicos.  

Há uma certeza presente nos admiradores da arte, que é uma certeza frágil e muito mais importante para a paixão que nos alimenta, do que algo que possa ser tocada. A força da arte em nos tocar e nos levar para outros lugares, também não é algo fácil de ser alcançado. “Vagabundo Alado” é daquelas músicas que nos levam a voltar a acreditar, te odeio CIANO, o clima da música o beat, os samples, abre espaço para o Miguel rimar isso aqui: 

“Meu deus é voador, chamo de vagabundo alado, anjo caído favelado, tô apertado no vagão escrevendo verso, tá entendendo eu quebro qualquer universo.”

Mais uma chave: “a Laura já falou que o jogo tá mudando, olho gordo não atrapalha, ele só tá ajudando”. Com a música “Vertigem”, a cena muda. O drumless do CIANO traz um clima mais tenso, a letra e o flow são mais graves, pesarosos. Mais do que uma segunda metade onde o Revés será o tema, nos parece uma conversa íntima como que numa série que diverge e se unifica com a Sorte. Menos dual do que poderia parecer, porque Bonsai não oferta um curso de coach para jogar o jogo. 

Tanto assim que em “MAUAZOO”, a taxonomia apresentada pelo Bonsai, em um beat wutanclaniano do Rudgini, a selva ou melhor o zoológico e seus animais fantásticos são plenamente citados. E segue-se na tensão com mais um beat do mesmo mano em “Roleta Russa”, e o MC de Maualoka destila com requintes de crueldade um gangsta rap 90’s plenamente atualizado tanto para o nosso tempo como dentro do espectro conceitual do disco. 

A arte poética de Bonsai, que está na caminhada há uns 10 anos mais ou menos, só nos chegou depois de uma sessão espírita com o kolx que movendo a lata de cerveja em um tabuleiro improvisado de ouija, nos deu alguns nomes para pesquisar no soundcloud. Por sorte, chegamos nele na altura do lançamento de Vaso Ruim, um dos grandes discos do ano passado. E é bem curioso que o vulgo desse mano se refira a uma pequenina árvore. Porém, ouvindo seus últimos trabalhos, é fácil notar que a poda sofrida, gerou a beleza do conjunto. Em um cenário saturado de “boas ideias” conceituais oriundas do marketing, o disco “Sorte ou Revés” do Bonsai é uma lufada de ideias que dilaceram o senso comum do rap nacional.

Atualmente com 30 anos, o MC apresenta uma consistência muito grande quando se trata de lírica. Toda a parte final do disco cresce muito e leva a audição ao êxtase e coloca toda a ideia inicial em cheque. Faixas como “1995” e “Sangue Frio” são de uma violência que ganha muito quando percebemos o conjunto da obra, seriam excelentes singles, porém fazem parte das 21 séries descentradas que constituem o disco. O espectro que assombra as subjetividades e que é esmagado pelo Bonsai e pelos três mosqueteiros Rudgini, Carcamano e CIANO, é a meritocracia, o game do rap fake. Em favor de uma arte que transpira originalidade. 

Uma ode aos “desacretidados” com todas as possibilidade interpretativas que essa palavra possui, como em “Vício Inerente” são a pureza possível de um storytelling que vemos ser repetido e que repetimos em graus diversos. Longe de ser um papo de Coach, é uma música que conversa na intimidade, o violão sampleado pelo CIANO, dá essa abertura. E após 18 músicas, ninguém está preparado para ouvir “Um Sopro no Castelo de Cartas”… desgraça é essa mano? Ahhhh Rudgini! 

A única certeza no jogo da vida é a morte, o tempo que vivemos condicionados por falsas percepções da existência de um modo geral condicionam nossas condutas. Bonsai nos entrega duas músicas que finalizam “esse quadro barroco, dentro do esgoto” que é o disco “Sorte ou Revés”. Em “Aqui Jazz” em um drumless do Rudgini, o trocadilho óbvio entre jaz e jazz, nos dá mais uma chave de interpretação.

O Jazz como música é o exemplo estético do frescobol, como jogo. O único lugar de criação musical onde as expressões mais singulares das individualidades estão em constante conexão com o coletivo como produção de um bloco sonoro, que não precisa se harmonizar ou melodizar com um padrão único. Neste aspecto, as rodas de freestyleiros rimando metendo rimas e flows diversos dentro de um beat, são uma boa analogia da luta do ser humano contra a morte. 

Entre o Miguel e o Bonsai, existe uma latência que em “Sorte ou Revés” recebe o acabamento “perfeito” ao longo da músicas que pretendem pensar o Game do Rap e ou da vida. Entre a persona e o personagem, há uma troca muito bem acabada, poética coesa, ritmicamente bem diversa, que o ouvinte se tiver background suficiente para tal, perceberá. Mas do que elogios fáceis, o trabalho de Carcamano, CIANO e Rudgini e Bonsai nos dá a pensar, nos abre um universo de possibilidades de entender e questionar a vida e os seus infinitos jogos. Pegou a visão? Nem a ESPN é capaz de dar conta!!!!!!!!!

-Bonsai em Sorte ou Revés, uma longa e intrincada reflexão sobre o “game”!

Por Danilo Cruz 

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