Age of Unreason, novo álbum da Bad Religion, dialoga com o presente, expondo a irracionalidade que assola nosso tempo.
Vivemos a Era da Desrazão, quando a racionalidade é substituída pela irracionalidade, a episteme pela doxa, um regresso ao obscurantismo, ao apego cego às crenças adquiridas via senso comum, cujo resultado é a ascensão do extremismo por todo mundo.
Precisamos de obras de arte que reflitam esse momento obscuro que vem se consolidando mundo afora, levando-nos pouco a pouco ao abismo da barbárie generalizada. O fortalecimento do discurso que desacredita a política como ferramenta essencial para a práxis democrática, instrumento que permite transformar a realidade opressiva e nos proteger contra as investidas violentas de nossos opressores, tem nos lançado cada vez mais fundo nesse mar de ódio contra as camadas mais frágeis da sociedade.
Diante dessa realidade distópica que nos faz esperar a configuração da realidade nos moldes de Mad Max, ou ascensão de versões repaginadas do nazismo e do fascismo, o ressurgimento de uma banda combativa e politizada como a Bad Religion, após uma hibernação iniciada em 2013, quando a banda esteve em atividade pela última vez, merece que comemoremos, ainda mais por esse retorno ser marcado por um novo álbum cujo título, Age Of Unreason, reflete o momento de insanidade que vivemos mundo afora.
Para nós brasileiros o retorno de uma banda de hardcore com atitude punk genuína é ainda mais emblemático. Passamos por um momento de frustração grande quando os punkekas do que restou da banda Dead Kennedys, subiram no muro, tirando o corpo fora, quando o cartaz criado para a turnê brasileira da banda gerou repercussão por retratar criticamente o extremismo político que envolve nosso país.
O álbum em termos de sonoridade mantem o lirismo melódico e a pegada visceral, características que fazem parte da identidade musical da banda. Se não há novidades no que se refere ao som da banda, o conteúdo das letras traz críticas certeiras, elaboradas a partir dos acontecimentos políticos medonhos que vem se desenrolando nos últimos anos em várias partes do mundo. Claro, as letras estão amparadas sobre a realidade estadunidense, pois os integrantes da Bad Religion são daquele país, contudo, como inúmeros países ao redor do mundo vivem situações políticas análogas, sendo governados por suas próprias versões do Trump, o álbum acaba tendo um alcance quase universal.
Talvez a exceção seja nosso presidente, sem qualquer semelhança com nenhum líder em qualquer parte do planeta. Somente Bozo consegue reunir de uma vez só na formação de sua personalidade estupidez, incompetência, autoritarismo, subserviência, burrice, irresponsabilidade, o que faz dele um ser ainda mais bizarro que Donald Trump.
O próprio Bozo prefere se rebaixar ao presidente estadunidense e a tudo que representa aquela nação. Portanto, não é possível colocá-lo no mesmo patamar de Trump, já que nosso presidente prefere ficar abaixo das canelas da Raposa Tingida (como está representado o presidente estadunidense em Chaos From Withim, faixa de abertura de Age of Unreason), degustando o couro dos sapatos de seu senhor.
Desculpem a digressão, mas não dá pra perder nenhum gancho que permita foguetar nosso presidente Bozo. Os títulos das faixas revelam por si mesmos os conteúdos das letras. Chaos From Withim (Caos Interno) ao que me parece possui um duplo sentido, abordando o caos interno presente em cada mente que comeu a pilha das fake news elegendo a Raposa Tingida e também abordando o caos interno enquanto nação a partir da eleição de Trump e o crescimento da onda extremista nos EUA.
Age Of Unreason é o primeiro álbum da Bad Religion na era Trump. Embora o nome do atual presidente estadunidense não seja citado em nenhuma das letras das faixas que compõem o álbum, percebemos menções como a que foi citada no parágrafo anterior. Contudo, do título ao conteúdo de cada uma das letras, temos uma tentativa de trazer à discussão os absurdos extremistas e carentes de noção do apoiadores de Trump. Vemos que a substituição do nome de Trump pelo de Bozo torna compatíveis as realidades abordadas nas músicas.
A Bad Religion é uma banda cascuda, cuja sonoridade se desdobra ao longo de 17 álbuns, então é de se esperar que mudanças contundentes deixem de ser novidade após toda essa caminhada. Assim ocorre em Age Of Unreason, cuja espinha dorsal da sonoridade é mantida com pequenas modificações, bem pontuais em algumas músicas. Talvez a mais perceptível ocorra em Big Black Dog, constituída por uma batida dançante sob acordes punks e que por incrível que possa parecer, funciona muito bem. Já Downfall mescla alguns elementos vagos de surf music bem misturados com o sempre empolgante pop-punk. O início de Candidate lembra melodias folclóricas medievais e se desenvolve num estilo lento e permanente bem harmonizada pela Bad Religion ao longo da musica.
Particularmente, testemunhar uma banda como Bad Religion (de quase 40 anos de estrada) buscando novas linguagens sonoras que deem um novo frescor ao seu som, além claro, de mostrar-se incomodada com a conjuntura política ainda mais opressora que toma conta do mundo, fazendo de sua música instrumento de denúncia e luta contra essas forças fascistas, nos mostra que o rock, em particular o punk-rock, ainda tem muita lenha pra queimar e possui grande relevância ainda hoje.
Dá pra afirmar que Age Of Unreason pode ser listado entre os grandes álbuns da Bad Religion e sinaliza para uma revitalização da mesma, ainda em condições de fazer músicas de qualidade e antenadas com os acontecimentos que nos afligem.
– Bad Religion retrata a era Trump em Age of Unreason
Por Carlim
Carlim
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