“Atenciosamente”, álbum da Eskröta lançado em 2023, é um soco na fuça de fascista, redepills, incells e todo tipo de ser abjeto que insiste sair dos esgotos.
Não há espaço para silêncio em tempos de ascenção fascista
Vivemos em um tempo no qual a ascensão do fascismo mundo afora empodera seus asseclas. Estes sentem-se cada vez mais à vontade para se manifestar fora das sombras. Machismo, homofobia, racismo, misoginia e xenofobia são usados como elementos de composição de um método de ação posto em prática pelo autodenominado “cidadão de bem”.
Portanto, quando bandas como a Eskröta lançam um trabalho como “Atenciosamente”, temos a certeza de contar com mais uma arma contra essa barbárie metodológica que vitimiza as minorias.
Mentes carentes de atenção e rumo são acolhidas por igrejas neopentecostais, grupos masculinistas, como os red pills, e até mesmo por movimentos neonazistas.
O título do álbum, “Atenciosamente”, traz uma forte carga irônica e provocativa, direcionada especialmente a machistas e misóginos, organizados em grupos masculinistas ideologicamente arquitetados em torno da ideia de superioridade masculina em relação às mulheres.
Red pills e incels são “educados” na cartilha extremista que lhes ensina a transformar toda sua frustração em ódio contra tudo o que representa independência e autonomia do ser feminino. O ressentimento é usado como combustível para mobilizar homens que se sentem injustiçados por não serem reconhecidos pelas mulheres que consideram suas por direito.
A assinatura sarcástica e combativa de “Atenciosamente” se faz presente em letras que revelam a necessidade de lutar contra a violência praticada contra as mulheres, sem deixar de lado o grito de guerra em favor da classe trabalhadora do século XXI, cada vez mais precarizada.
Do ponto de vista temático, podemos afirmar que “Atenciosamente” é um álbum essencialmente feminista. Ele explicita essa posição, mostrando a necessidade de unirmos nossas vozes em defesa de pautas políticas que visam trazer dignidade, igualdade e direitos àquelas(es) que se encontram marginalizadas(os).
Faixas como “Machismo Não é Opinião” e “Seu Silêncio É Conveniente” são diretas e incisivas. São socos na cara do machismo escroto e daqueles que praticam o machismo passivo, quando o cara faz vista grossa ou passa pano para o amigo machista. E sabemos bem que, no underground Brasil afora, esse tipinho tenta se proliferar.
As letras não deixam espaço para mal-entendidos. Suas críticas são mordazes, ferozes, e atacam o discurso de ódio que tenta se estabelecer como parte corriqueira do nosso cotidiano. Denunciam o fascismo do dia a dia, os efeitos do moralismo tacanho e a hipocrisia de quem se recusa a abrir mão do privilégio de ser homem em uma sociedade machista.
Uma sonoridade visceral
Musicalmente, o disco é um banho de thrashcore com pitadas de punk e grind, executado com precisão e fúria. A banda aperfeiçoa a fórmula que a consagrou em lançamentos anteriores: riffs cortantes, viradas brutais e vocais viscerais, conduzidos com garra e urgência.
O álbum também se destaca pela produção crua e sem maquiagem. Nada aqui é domesticado: “Atenciosamente” soa como uma apresentação ao vivo no meio do caos, onde a raiva é combustível e a distorção, sua linguagem. Esse acabamento orgânico reforça a sinceridade do que se ouve — não é um som moldado para agradar, mas para confrontar.
A Eskröta mostra que o metal pode — e deve — ser radical, não só na estética, mas na política. “Atenciosamente” é o tipo de álbum que incomoda quem está confortável demais e acolhe quem precisa de uma voz.
No final, a mensagem é clara: a brutalidade do sistema exige barulho, e a Eskröta faz esse barulho com dignidade, consciência e potência sonora. “Atenciosamente” é mais do que um álbum de metal — é um manifesto urgente, barulhento e necessário.
