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ALFÃO e pedrvso em “Filhos do Mesmo Caos”, ritmo e poesia exemplar!

ALFÃO

ALFÃO dá mais um passo na sua carreira com o excelente EP “Filhos do Mesmo Caos”, junto a pedrvso e feats pesados!

Como um retrato da excelência construída na história do Rap baiano, ALFÃO é um jovem MC que iniciou sua carreira com a Underismo, e com o hiato do grupo, encetou sua carreira solo. Multifacetado em sua lírica, ele iniciou sua carreira solo com o single RV (Prod. DOIZÁ) em um audiovisual que, sob certa perspectiva é uma despedida do grupo e uma abertura para os seus próximos passos. 

Enquanto coletivo de MC’s e DJ, a Underismo inovou no cenário baiano por trazer líricas que diferiam entre si, mas que encontravam um ponto de unidade na mescla do humor ácido e da crítica social muito bem informada, onde o lifestyle da juventude negra soteropolitana encontrava expressão própria em linguagem, som e imagem. Algo que agora, em sua carreira solo, ALFÃO aprofunda e começa a construir, complexificando e exprimindo seu universo de vivências e ideias.

Contextualizando, o MC ALFÃO com sua expressão artistica multifacetada se baseia nas vivências do jovem negro Thiago Damasceno, que trabalha e faz faculdade na UFBA. Que encara essa carga pesada de produzir arte na capital que mais mata pretos no país, com uma leveza ácida e com um apuro de rimas e flow que é pouco encontrado. Atualmente com 24 anos, ALFÃO já possui 7 anos de caminhada dentro da cultura Hip-Hop, desde às batalhas de rima e depois com a Underismo.  

-Leia no site as matérias sobre a carreira solo de ALFÃO

Com o lançamento de LESGUIREY MIXTAPE VOL.1 em 2024, que nós resenhamos naquela altura, em produções de Geeli, Raonir Braz, Fwizy e og.saymon7, o MC rimava em beats de Trap em uma sonoridade mais eletrônica. Porém, como um artista sério que entende o que é a cultura Hip-Hop, ali ele se impôs produzindo uma poética que lhe é própria e evitando uma estética (do Trap) que muitas vezes descamba para um pop aguado e a para a mera repetição de clichês. ALFÃO é um MC real, não um rapper ou um trapper.   

Agora, já em 2025, o MC lançou pela Sujoground o EP “Filhos do Mesmo Caos”, que traz pedrvso na produção das 7 músicas que compõem o trabalho. Neste novo trampo, ALFÃO apresenta sua lírica sob os beats do boombap e mais uma vez dá aulas ao apresentar uma caixa de ferramentas líricas que valorizam sua quebrada, que aborda o “Caos” que vivemos em Salvador sem linguagem militante, mas politicamente afiado. Fala-se também de sua formação, de sua visão diante do mercado e do cenário, e incensa tudo em rimas como um leão de Judah. 

O trabalho de ALFÃO vem sendo constituído como uma das pedras de toque no cenário soteropolitano, do que é possível quando um artista se entende dentro de um “processo lento” de construção artística independente. Gravado no Cremenow Studio casa de grandes nomes do rap e da música baiana como Vandal, Galf AC e Bagum, o EP rema contra a maré que vem varrendo diversos nomes do Rap Baiano, em busca de uma sonoridade mais pop, com vistas a agradar e quem sabe ser pescado pelo mercado. 

Pelo contrário, ALFÃO segue expandido suas rimas com muita sujeira e apuro no flow e uma lírica preta que abre mão de querer ser aceito pela branquitude. Dentro dessa perspectiva, nada mais acertado que ALFÃO ter lançado este trabalho pela Sujoground, que é hoje o selo mais produtivo e diverso do cenário underground no Rap Nacional, se inserindo assim a outros pares que têm produzido o boombap under com excelência. Nomes como Thalin, Matheus Coringa, Dragão Crioulo e seu conterrâneo Galf AC, são os feats apresentados. 

“Sujoground é tipo o X-Bacon e o sucão de 700, interracial tipo uma coca-cola e mentos” 

A produção de pedrvso, um dos grandes beatmakers da nova geração, já se mostra a que veio na primeira faixa “FROST FREE”, iniciando a música com uma cadência moderada onde ALFÃO se apresenta: “Um leão de Judah, não é um leão do PROERD”. Para em seguida na virada do beat para um clima mais sombrio e o aumento do BPM em ritmo de bate cabeça, ALFÃO mostrar-se como um “funcionário” exemplar da empresa, cunhando um “hino” que já pode ser cantado pela firma toda: 

“Sujoground é um tanque com asa que fareja sangue e zaza, sujoground é um cancêr que mata por dentro, Sujoground é o pacto, Sujoground é o templo”

Uma das características presentes na lírica intrincada de ALFÃO, se apresenta pela extrema facilidade em conseguir cunhar punchlines, que ficam marcadas na mente do ouvinte. “BEM QUISTO” mostra como ele insere visões críticas junto a crônicas de modo natural, abrindo mão de clichês militantes, e apesar de estar fincado no que a juventude negra de melhor produz, o seu olhar para a ancestralidade e referências incomuns é constante ao longo do EP. 

Seja citando o vocalista da GAP Band: Charlie Wilson ou falando do genocídio da população negra na Bahia, assumindo suas contradições, apresentando sua visão de mercado, tudo isso é apresentado na mesma música com recursos poéticos e construções de rima que fogem do comum. Que o ouvinte perceba, por exemplo, a forma como a ganja está colocada de modo “natural” e como um hábito que difere demais de uma mera menção ou de uma pseudo apologia.

Em um dos beats que mais gostamos no EP, pedrvso brinca na faixa “PLANTA UMBU” com o sample de uma percussãozinha marota conduzindo um beat delicioso, com os samples e loops. A faixa traz além de ALFÃO as participações de Thalin (Maria Esmeralda) que emula um flow que lembra uma homenagem ao mestre Sandrão (RZO) e o Matheus Coringa com versos cáusticos. 

Na sequência, “CONTRA MARÉ” em um beat mais lento do pedrvso e um clima etéreo, ALFÃO rima a sujeira das ruas e distribui imagens poderosas de uma negritude crítica, Dragão Crioulo cola na faixa numa pegada melódica seguindo a pegada crítica ao seu modo, enquanto o CEO da firma, Matheus Coringa, chega sempre numa qualidade fora da curva.

A ganja como remédio que os preto veio usavam, é o tema de ALFÃO em “NATIVO VETERANO” que traz Galf AC, um real OG do rap baiano no feat. Apesar da unicidade qualitativa presente em “Filhos do Mesmo Caos”, duas músicas nos tocaram mais profundamente, por focar em aspectos que nos parecem decisivos para entender de modo crítico o papel e a conjuntura do rap e da cultura nacional hoje.  

Muito longe de apresentar uma visão da arte do Rap como algo fugaz, desde os 16 anos ALFÃO vem cultivando na prática sua escrita, seu flow, e não é absurdo dizer que a cultura Hip-Hop foi parte importante na sua formação como uma jovem homem negro. Muito diferente de alguém que ouve rap desde a adolescência, o final da sua se deu com a formação, desenvolvimento e o auge da Underismo na cena local e com ponteareas para SP. Importante chamar a atenção disto, pois esse percurso define ao nosso ver, a postura e a forma de arte que ALFÃO nos apresenta. 

Na música ‘FRUSTRAÇÃO DE UM SONHO”, o MC explicita o caminho seguido que desagradou a família, mas que servirá como exemplo para o futuro. Ao mesmo tempo, em “ÓDIO, CATARRO E THC” rememora nomes importantes do cenário de meados da década de 2010 deste século para o rap baiano: 

“Pós DaGanja, Guri, Ravi, Vandal, Brown, Makonnen Tafi, os neguin faz essa porra desde antes de chamar de arte, então continuo minha parte, Under, Balostrada, Lápide, quero deixar registrado…”

Para além de uma homenagem, ALFÃO mostra-nos uma solução de continuidade e sua inserção dentro da rica tradição inventiva e original do Rap e da Cultura Hip-Hop baiana. Com a consciência plena de que “aceitar a arte é mais difícil” e como disse em entrevista: “é um exercício de dar murro em ponta de faca”. Neste sentido, mais do que a quebra de expectativas em casa junto a família, é um elemento formador de realismo para o artista que já começou sabendo o que o esperava. 

É comum vermos hoje, pessoas lamentando sobre o sonho de viver de música, ora, sabemos ou deveríamos saber que em a indústria cultural no Brasil, se alimenta da produção de escassez e da invisibilização de artistas pretos e periféricos. Nos últimos tempos, inclusive buscando a censura das diversas manifestações pretas e periféricas. Por isso, as duas faixas supramencionadas nos parecem tão importantes. 

ALFÃO se apresenta não apenas como um MC de muita relevância técnica e artística, mas se coloca como um pensador crítico dos processos e da conjuntura onde está inserido. Algo que infelizmente não é tão comum como deveria ser em uma plataforma cultural como o Hip-Hop. E note-se, isso só é possível pelo conhecimento e pelo reconhecimento de nomes históricos.  

Na faixa “FRUSTRAÇÃO DE UM SONHO”, o MC faz uma bela homenagem ao maior nome artístico de seu bairro e um dos maiores da história da Bahia: “Eu sou do bairro do grande Riacho, por isso cada macaco em seu galho”. Diretamente do bairro do Garcia, que possui além de Riachão, a saída do bloco de carnaval “A Mudança do Garcia” que sempre se apresenta politicamente na festa. Tudo isso, ALFÃO carrega em sua música, a malandragem, a crítica ácida e alegre, sem utilização de palavras de ordem. 

Apesar de curto, o EP “Filhos do Mesmo Caos” condensa em seus 21:18s o que de melhor se pode ouvir hoje no rap nacional. “Indelicado como um aborto espontaneo em um chá de fraldas”, longe do bom mocismo bunda mole que tomou parte do cenário mainstream, ALFÃO é o orgânico realmente surgido do caos. Mas, um caos elaborado e expressado com maestria através de uma técnica consciente dos seus efeitos. Um trabalho lírico que chama a atenção de mestres como Matéria Prima e Nego Freeza, ou seja, de quem interessa. Reverberando na mesma tradição que honra.

Dito isso, bebendo do grande afluente de um nome como Riachão, ALFÃO é hoje no cenário baiano e nacional outro nome superlativo da cultura Hip-Hop. Com um estilo próprio, a sua singularidade vai no cerne poético ao por exemplo citar o Malê de Balê, o menos lembrado dos blocos Afros de Salvador. Um universo de referências único – sem exagero algum – de um artista também único, junto a um produtor que é um dos melhores da nova geração – pedrvso – e no selo mais sujo do Brasil, hoje. 

-ALFÃO e pedrvso em “Filhos do Mesmo Caos”, ritmo e poesia exemplar!

Por Danilo Cruz 

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