A revolução que vem de Rondônia,o MC kami lauan é o “tTrazedor de Notícia Ruim”
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A revolução que vem de Rondônia,o MC kami lauan é o “tTrazedor de Notícia Ruim” 

Com dois discos lançados em 2025, o rondoniense kami lauan chega com “tTrazedor de Notícia Ruim”, um disco fora da curva!

kami lauan
O MC e Beatmaker kami lauan

kami lauan e o seu disco “tTrazedor de Notícia Ruim” é um acontecimento para o rap nacional em 2025. Se você acompanha de fato o rap nacional, certamente você sabe que em termos estéticos, há uma pobreza gritante no que é produzido no mainstream do gênero em nosso país. É no underground que a invenção e a subversão característica do rap brasileiro tem se dado, e isso é um fato objetivo. 

E você, caro leitor, quer algo mais underground do que fazer rap em Rondônia? Mas ainda, fazer rap no interior deste estado? Pois bem, kami lauan é um MC e beatmaker da cidade de Rolim de Moura que produz música desde 2022, pelo menos oficialmente. Entre 2022-2023, ele produziu uma caralhada de discos e de mixtapes entre o eletrônico e o beats de rap, que indo escutar agora, nos parece um período de desenvolvimento de toda a estética que emerge agora em 2025 no seu trabalho. 

Pelo que pudemos apurar, somente em 2024 kami lauan começa a rimar e lançar publicamente, com a faixa “Hall&Nash” e logo depois com outro single “All Black” que prepararam sua primeira mixtape rimando 069 Mixtap. Com todos os beats produzidos por MAGNI e participações de Marreta, DJ VITTIN MG, 4ngelnumber e Fllw, o trampo já ali se diferenciava bastante do que é comumente produzido no trap nacional, por exemplo. 

Daí seguiu-se os discos SIDDARTTTHA, os EP’s …e as maquinas nao param e FLORES DE OUTONO (REMIX DE SIDDARTHA), e outro disco com BLOOD.MOON, tudo isso em 1 ano. Até chegarmos agora em 2025, onde nos parece kami lauan nos parece alcançou um pico de produção, com dois discos muito singulares no contexto, paralisia~do~sono e paralisia~do~sono: ACORDADO, a versão deluxe e o totalmente disruptivo “tTrazedor de Notícia Ruim” disco que nos foi apresentado pelo excelente trabalho do pesquisador GG Albuquerque. 

Entrevistamos o kami lauan para saber mais sobre a sua caminhada com a música e para entendermos mais sobre o seu trabalho e suas ideias. 

Oganpazan – Você me falou que somente esse ano, você passou a levar o seu trampo a sério, mesmo tendo discos muito bons lançados no ano passado, porque ?

kami lauan – Então cara, ao longo do tempo eu fui percebendo que só fazer por fazer não sustenta o poder que minhas ideias e meus projetos tem, por isso eu decidi mudar meu ponto de vista em relação a minha arte.

Oganpazan – Vamos voltar ao começo meu mano, qual o seu primeiro contato com a música e ou com a música rap?

kami lauan – eu cresci em um ambiente muito enraizado no sertanejo e nos rodeios, então no começo da minha vida eu nunca ouvi muita música fora disso, na minha adolescência, na internet, comecei a acompanhar a cena do eletrônico, no dubstep e no riddim e etc. Nesses gêneros tem vários rappers que fazem feat nas músicas dos DJs, foi meio que isso que me levou pro hip hop de uma forma indireta, depois eu comecei a ouvir mais rap de verdade, começando infelizmente pelo falecido Kanye West, e daí pra frente só fui expandindo meus horizontes.

Oganpazan – Quando você passou a fazer música e qual foi o impulso para isso? 

kami lauan – Minha memória é bem falha e eu não consigo lembrar disso com tanta certeza, mas eu lembro de ter visto um tutorial de FL studio lá por 2018-2019 e gostei muito do programa, depois disso fui entrando em várias comunidades de Discord e tal, aí depois disso bateu a pandemia e eu fiquei muito mais tempo online do que antes, aí já sabe né, junta um cara com um interesse muito específico e muito tempo livre vagabundeando, não tinha como ter outro resultado.

Oganpazan – Gostaria de entender o seu período criativo 22/23, onde você lançou muitos discos de instrumentais. Conta pra gente o que foi esses anos e como isso ajudou a te constituir artisticamente.

kami lauan – Esse período foi a época q eu tava aprendendo a produzir ainda, eu sempre gostei da ideia de álbuns e mixtapes e eu peguei isso pra aproveitar e fazer alguns projetos mais concretos, na época eu participava de algumas comunidades gringas e soltava tudo no soundcloud, isso influenciou bastante minhas influências desde aquela época.

Oganpazan – Como é fazer o tipo de música que você faz, vivendo em Rolim de Moura, no interior de Rondônia? E como é o cenário de rap do seu estado? 

kami lauan – É difícil mano, MUITO difícil, pra dar certo aqui só sendo herdeiro ou fazendo funk de tiktok sem falar onde mora, mas ainda assim eu prefiro fazer as coisas do meu jeito independente do que acontece. O rap por aqui é bem desanimado, aqui na Zona da Mata o que mais rola é batalha, alguns MCs rimam também mas é mais pro lado do boom bap ou do trap, alguns exemplos são o Magni, o Paniagua, o DRaiGO, o Dablonn, entre outros, são os que mais se destacam por aqui. 

Oganpazan – Quais as suas principais influências musicais e quais as principais extra-musicais (cinema, literatura, etc…)? 

kami lauan – Rapaz, é complicado, no início eu me inspirei bastante no Lil Ugly Mane liricamente e no JPEGMAFIA e no MF DOOM na sonoridade, hoje em dia eu só sigo o que passa pela minha cabeça, muita coisa eu tiro de ideias soltas ou de sonhos, esse dia mesmo eu sonhei que tinha feito um álbum de house e já dei início na produção, eu gosto muito disso. Leitura eu não consigo muito porque minha mente não deixa, mas eu gosto bastante de filmes de terror e alguns meio experimentais que usam equipamentos e artifícios diferenciados, tento pegar algumas influências assim pros meus audiovisuais também.

Oganpazan – Você tem muitos trampos com artistas de fora de Rondônia né? Como se deram esses contatos? 

kami lauan – O instagram é um negócio foda né, acho que 95% das conexões que eu fiz foram por lá, eu gosto de usar isso como uma forma de divulgação, eu gosto muito de trabalhar com outros artistas.

Oganpazan – O que você pretendia com o lançamento de “paralisia~do~sono, paralisia~do~sono: ACORDADO e com tTrazedor de Notícia Ruim”, que me parecem serem discos muito próximos em termos de invenção? 

kami lauan – Meu objetivo com paralisia do sono foi falar sobre sentimentos, por cima da minha sonoridade mas de um jeito mais melódico, usando isso pra terminar um projeto que eu tinha feito em 2023 mas nunca gostei do resultado, na época era chamado de ‘não verbal’. TdNR já é uma história mais doida, meu objetivo inicial era fazer um álbum meio jazz rap meio boom bap, mas aí eu fui misturando muita coisa e fui gostando dessa mistura gigantesca que eu fiz, quando o projeto foi evoluindo eu fui decidindo crescer essa ideia exponencialmente e virou o que virou.

Oganpazan – Sobre o “tTrazedor de Notícia Ruim”, quase todos os beats são produzidos por hype the kid, como se deu esse contato e como se deu a produção do disco, você encomendou os beats, deu sugestões ou pegou do catálogo dele?  

kami lauan – o hype é um cara MUITO foda, um brasileiro que mora na inglaterra, conheci ele por páginas de lofi no instagram, cheguei na DM dele lá em 2024 e pedi uns beats, ele foi mandando uns 2 ou 3 por dia e eu fui salvando tudo, um dia eu decidi juntar tudo num álbum. A maioria dos beats são dele, mas a minha vontade de mudar tudo do nada e assustar quem tá ouvindo falou mais alto, foi assim que eu fiz mais alguns beats pro projeto, chamei também o NCCO e o gallego pra fazer um bagulho mais industrial e encaixou perfeitamente.

Oganpazan – kami, como você constroi a sua lírica? Porque, é algo bastante diferente de tudo o que já ouvi, você possui alguma referência nessa área? 

kami lauan – te falar que não muito, eu geralmente só escrevo e deixo as ideias no papel, uns 5 dias ou uma semana depois eu volto e leio, se tiver bom eu continuo, se tiver ruim eu queimo e jogo no cinzeiro.

Oganpazan – Você trampa durante o dia né? Em qual momento da semana você cria suas músicas, escreve, produz?

kami lauan – Minha rotina fora do trabalho se resume em: Escrever em rascunho no trabalho, gravar na hora do almoço e mixar de noite, quase nunca fujo disso, fim de semana o cara descansa pq ninguém é de ferro né.

kami lauan Oganpazan – Você está atualmente produzindo um novo disco né? Você pode falar um pouco sobre esse projeto? 

kami lauan – Cara eu tô trabalhando num projeto mais pé no chão dessa vez, mais focado em animar do que chocar sabe, o nome do projeto é ‘Make Rondônia Great Again’ e conta com pouquíssimos feats mas com alguns beats de um pessoal muito foda do BR, escolhi todas as samples desse projeto a dedo, a maioria dos beats é meu mas chamei alguns amigos pra me ajudar na bateria, tá recheado até o topo de samples brasileiras e tem uma mensagem escondida muito dahora, TDnR também tem, e o próximo disco expande um pouco a ideia.

Oganpazan – Na música brasileira atualmente, o que você tem ouvido, tem algo que te inspira no cenário atual?    

kami lauan – Até um tempo atrás a maioria das minhas influências era gringa, não me interesso muito pelo mainstream do Brasil e não tenho muito tempo pra garimpar o underground, ultimamente tô viciadissímo no disco 333 do Matuê e no SEMRÉH: Final Sprint do Ryu The Runner, pra mim foram os discos mais artísticos do trap mainstream do Brasil (entre os que eu ouvi).

-A revolução que vem de Rondônia,o MC kami lauan é o “tTrazedor de Notícia Ruim”

Por Danilo Cruz 

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