Tradição como trampolim para o amanhã
O interessante de toda aquela movimentação/inquietação inaugurada com o modernismo revolucionário da semana de 22 foi a tomada de consciência, despertada ali, de nossa eterna condição de colonizados culturais. E o mais importante dessa visão de mundo está em suas implicações – “O que fazer com (e a partir) deste dado?” Foi então que caras como Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Villa Lobos (entre outros inventores e mestres daquela geração) propuseram um processo lúdico-crítico de pesquisa e imaginação voltados para a construção de um ideário cosmopolita de Brasil. Um tipo de criação em processo ad infinitum, de ida e vinda, para fora e para dentro, para o passado e para o futuro, em um contínuo presente. Uma ponte havia sido construída entre nós e um distante “nós mesmos”, tão sólida e arquitetonicamente bela que ainda serve de sustentação para todos aqueles que prosseguem fazendo esta travessia.
Ao final dos anos 60, a Tropicália avançava sobre a ponte construída pelo Modernismo de 22 a procura da fábrica de biscoitos finos. Com muito sucesso, alargou a passagem e reforçou ainda mais as estruturas daquela arquitetura antropofágica. Gil e Caetano mostraram mais uma vez que era possível imaginar o Brasil carnavalescamente, sem perder a seriedade – a profundidade. Era preciso pensar o Brasil de maneira alegre e irreverente. Pensar a Geléia Geral de maneira autônoma, outsider, dentro e fora das estruturas. Pensar apesar de nossa microcefalia. Apesar de nossa ignávia congênita. E mais uma geração apontou suas antenas, sem preconceitos, para o arcaico e para o moderno.
Não diferente fizeram os mangueboys, agora com potentes parabólicas direcionadas para a parcela do universo que ainda restava oculta. Utilizando a velha metodologia da investigação genealógica, mesclando passado e presente, interligaram a sonoridade acústica do tambor de alfaia ao universo eletro-eletrônico das guitarras e pick-ups. Tudo na mais perfeita harmonia. A cultura rural tratada com nobreza e jovialidade. A informação estrangeira depurada com desejo e consciência. E mais uma vez foi possível observar um movimento com a força necessária para angariar um gigantesco séquito de aficionados e obter o respeito de todas as instâncias possíveis – do mercado à cultura letrada. Esse tipo de estética psicanalítica do Brasil, calcada na metalinguagem e no olhar crítico, produziu obras das mais importantes em nível mundial.
Modernismo de 22, Tropicália e Maguebeat comungam vários aspectos, entre eles a prática de perscrutar a tradição na procura de elementos móveis capazes de iluminar seus atores na construção de uma cultura brasileira mais autêntica e plural. Neste sentido, o passado e o regional são periodicamente revisitados e reprocessados – resignificados – para sua assimilação na elevação do edifício Brasil do século XXI.
A desconcentração da vanguarda cultural do eixo Nordeste-Sudeste
Por vários motivos, os mais importantes movimentos culturais vanguardistas de ressonância nacional e mundial haviam sido gestados e consolidados, até então, no eixo nordeste-sudeste. Inclusive, o sudeste sempre determinou (devido sua concentração urbano-industrial e a infraestrutura privilegiada instalada naquela região) aquilo que seria reconhecido como relevante para o restante do país e mundo. Uma hegemonia histórica, que pode ser compreendida através da observação dos processos de ocupação e exploração ocorridos ao longo do tempo no território brasileiro.
Com o fenômeno de desconcentração econômica em andamento na atualidade, e com os novos projetos de expansão econômica voltados para o interior do Brasil, muita coisa que estava “escondida” dos olhares da nação será objeto de grande atenção nos próximos anos. É por isso que acredito que as regiões Norte e Centro-Oeste possuem especial potencial de se tornarem o novo celeiro nacional da produção cultural de vanguarda.
Não que projetos inovadores nunca tenham sido desenvolvidos nestas regiões, mas com certeza, muita coisa produzida fora do eixo Nordeste-Sudeste passou despercebida por pura falta de atenção ou descaso. É que os hofolotes nunca estiveram apontados para o Brasil profundo do Cerrado e da Floresta Amazônica. E com certeza isso tem sido uma grande pena para todos nós brasileiros, que perdemos a oportunidade de conhecer melhor tudo aquilo que de mais atual é produzido por nossa cultura.
Como já apontado, uma característica comum aos três movimentos culturais de vanguarda citados no início do texto é o exercício de suspensão das barreiras entre presente e passado, regional e global, entre o arcaico e o moderno. Essa (re)conexão é feita sobretudo através de um olhar cosmopolita e integrador. O folclore não é mais pensado de maneira estática ou purista, mas como elemento identitário em constante movimento dialético, podendo ser (re)significado pelos processos estéticos contemporâneos.
Caio Espíndola é um artista de Cuiabá que chama a atenção por sua pesquisa crítica e “atualização” de certos elementos da música folclórica da região Centro-Oeste. O músico e compositor de 29 anos tem obtido destaque na mídia e reconhecimento do público por seu trabalho inovador de fusão entre a música ribeirinha do Mato Grosso e o pop/rock. A criação da Guitarra-de-Cocho (uma variação da Viola-de-Cocho: instrumento tradicional da cultura mato-grossense), pensada e desenvolvida por ele, aponta novos caminhos para a música jovem e cosmopolita produzida no estado e região.
O nascimento de um instrumento musical e uma nova estética
“Ainda é apenas o começo”, ressalta Caio. “Tenho que fazer mais pesquisas, resolver alguns problemas técnicos que surgem no decorrer do processo e desenvolver uma linguagem mais específica para a Guitarra-de-Cocho”. E com certeza ele está no caminho certo. Além da aprovação dos ouvintes urbanos, também recebeu a chancela dos mestres da tradicional Viola-de-Cocho, e a simpatia da população ribeirinha. No filme O Nascimento da Guitarra-de-Cocho, do diretor e jornalista Dewis Calda, é possível acompanhar o músico em sua visita ao mestre da Viola-de-Cocho, Seu Bagé, de 84 anos, da Comunidade São Gonçalo Beira Rio (MT), para apresentar sua inovação. Embora, de início, um pouco ressabiado com a novidade, o violeiro aprovou a Guitarra-de-Cocho, celebrando o encontro com um belíssimo improviso entre o antigo e o novo, entre a tradição e a inovação, a guitarra e a viola. Um momento histórico que ainda renderá muitas pesquisas e investigações no futuro.
Caio prossegue: “desde pequeno meu pai me levava para pescar no Rio Cuiabá e a sonoridade da Viola-de-Cocho me atraía muito. E quando cresci e me tornei guitarrista, quis buscar o elemento rústico do instrumento e ampliar a sua sonoridade juntando com a influência Rock and Roll que sempre tive”. É neste contexto que surge a ideia da Guitarra-de-Cocho, invenção capaz de conciliar aquela sonoridade ribeirinha com a potência da distorção elétrica. “O primeiro passo foi trazer o coração da guitarra elétrica, que é o captador, para a Viola-de-Cocho, então fui adicionando cordas de aço, um encordoamento pequeno usado em cavaquinho, um rastilho de osso que é mais resistente, um potenciômetro, também tarraxas de aço porque as tarraxas de madeira afrouxam as cordas e não seguram a afinação, isso tudo mudou completamente o timbre e a forma tradicional de tocar”, completa o músico.
A procura estética de Caio Espíndola o coloca em uma posição que vai além da de reconhecido e exímio guitarrista do Estado do Mato Grosso. Lembremos as terminologias aplicadas pelo escritor Ezra Pound, em ABC da Literatura (Ed. Cultrix), em que indicou a existência de três tipos de criadores artísticos: Inventores (os que percebem um novo processo ou cuja obra nos apresenta o primeiro exemplo conhecido de um determinado processo); Mestres (os que produzem várias combinações a partir do processo inicial e alcançam resultados tão bons ou melhores do que os inventores) e Diluidores (aqueles que vieram depois e não foram capazes de realizar tão bem o trabalho).
Pegando emprestada a categorização proposta por Pond, podemos dizer que Caio é o exemplo de Inventor de um novo processo que se delineia. Neste sentido, o jornalista Dewis Caldas afirma: “acredito que futuramente esta invenção será continuada. A pesquisa do timbre e das possibilidades deste novo instrumento ainda é inicial, chegaremos num tempo em que se descobrirão outras coisas bem maiores do que vimos até agora. E o Caio, que tenho segurança em dizer que pertence ao grupo de importantes guitarristas do Estado, se lançou na experimentação timbrística que vai muito além do rock, já está na música eletrônica, e as possibilidades são muitas”.
Seguindo os passos da antropofagia modernista
É pelas características do trabalho desenvolvido por Caio Espíndola que é possível aproximar seu trabalho dos métodos empregados pelos Modernistas de 22, pela Tropicália no final dos anos 60 e pelo Manguebeat nos anos 90. Em primeiro lugar, nota-se a preocupação do artista cuiabano em identificar e destacar elementos representativos da cultura tradicional do Mato Grosso, seu estado de origem e de vivência. Ao eleger a Viola-de-Cocho como ponto de partida para seu projeto estético ele, não só reafirma a importância deste elemento – tão característico da cultura ribeirinha mato-grossense – como o coloca sob nova perspectiva. Isso é possível a partir do processo de deslocamento da Viola-de-Cocho de seu ambiente original e sua inserção no contexto do Rock and Roll, agora sob a forma de Guitarra-de-Cocho.
“Eu queria trazer Cuiabá pra dentro da banda. Não sabíamos ainda qual instrumento, mas tinha que ser algo daqui. A viola de cocho é percussiva, não é harmônica e nem melódica. E o que eu precisava, mais do que tudo, era de uma harmonia numa melodia. Eu nem tinha pensado nesse som dela. E aí veio a grande ideia: ‘Cara, e se eu colocar um captador?’”, comentou Caio em uma mídia de grande circulação. A preocupação de inserir em sua banda de rock elementos da cultura tradicional, de modo contemporizado, demonstra sua tendência antropofágica de encarar a arte brasileira.
Estamos falando aqui do futuro. Os experimentos com a Guitarra-de-Cocho são inovadores e ainda estão em fase de desenvolvimento. O novo instrumento foi concebido em 2014 e desde então muitos aprimoramentos foram feitos no projeto. Há uma longa estrada a ser construída para a passagem plena da Guitarra-de-Cocho no imaginário da cultura pop. A aprovação dos ribeirinhos já foi dada, considerada a grande prova de fogo do instrumento, como já dito por seu inventor: “Eu estava muito nervoso. Porque eu sabia que os caras que estariam lá são referência. Se eles me xingassem, todo mundo ia me xingar”. Mas a recepção foi das mais positivas: “Os caras gostaram muito! Adoraram! E estou falando dos ribeirinhos mesmo, com chapéu de palha e viola de cocho grandona. Esses caras é que eram importantes pra mim”.
A próxima etapa definida por Caio Espíndola é apresentar seu invento para Jimmy Page, o famigerado guitarrista do Led Zeppelin – que notoriamente é um fã do Brasil e de sua cultura. Segundo Caio, esse encontro possibilitaria a visibilidade planetária da Guitarra-de-Cocho. Se aprovada pelo lendário guitarrista, a Guitarra-de-Cocho cumpriria mais um desafio. O intento é que ela seja reconhecida pelas duas autoridades que interessam: os ribeirinhos (mestres da Viola-de-Cocho) e o consagrado ídolo do rock (mestre da guitarra convencional).
A Guitarra-de-Cocho já está conhecida no exterior. O filme feito sobre o invento – O Nascimento da Guitarra de Cocho, de Dewis Caldas – ganhou um prêmio no ano passado, em Portugal, de melhor curta-metragem internacional de língua portuguesa. Ou seja, o novo instrumento está suscitando curiosidade e rendendo discussões.
Nós, expectadores, aguardamos ansiosamente o desenrolar desta história que está muito longe de seu fim. É possível dizer que o Mato Grosso se insere em um processo de vanguarda artística e experimental a caminho da relevância que tiveram os passados movimentos vanguardistas já citados. É questão de tempo para que novos mestres, utilizando mais uma vez a terminologia de Pound, façam a evolução necessária na linguagem da Guitarra-de-Cocho ampliando ainda mais suas possibilidades, definindo efetivamente suas peculiares características e consolidando sua existência na vida cultural do país. A velha ponte construída pelo modernismo de 22 continua sólida e recebendo as devidas manutenções. O interior do Brasil guarda muitas surpresas.
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