Brenoski Libertae nos conduz por uma miríade de estilos musicais em seu primeiro álbum.
Sempre que converso com pessoas de outros estados, em particular do Sul-Sudeste, a respeito do que está rolando em termos de música na Bahia, deparo-me com expressões de surpresa. Na cabeça dessas pessoas, ao que parece, a música baiana se resume ao axé. Aqui se praticam inúmeros estilos musicais fiquem vocês sabendo, eles existem para todos os gostos … e desgostos também.
Essa gente precisa ouvir, dentre os muitos álbuns lançados na música baiana apenas no último ano, o álbum de Brenoski Libertae. O gaitista e compositor baiano lançou em agosto de 2019 o álbum que leva seu nome e que nos conduz por uma viagem através de inúmeros gêneros musicais. Fluente em diversos estilos, suas composições tem no gypsy jazz, blues, rockabilly, country, western, bluesgrass, os suportes para manifestação de suas inspirações.
O álbum é resultado da trajetória musical dos últimos anos, nos quais o músico estabeleceu laços firmes com outros músicos interessados, assim como ele, nos mesmos estilos musicais. O bar Hot Dougie’s Rendezvousz, localizado no Porto da Barra, mantendo o projeto Música no Porto, tornou-se ponto de encontro desses músicos que ali começaram a se apresentar e criar um contexto extremamente fecundo para criação musical.
A banda Muddy Town se tornou o epicentro dessas reuniões gerando as conexões necessárias para que projetos musicais surgissem dalí, dentre eles o álbum de Brenoski. Dougie, proprietário do bar, amante dos gêneros oriundos de sua terra natal, formou seu próprio grupo Dougie e Os Estrangeiros, do qual o gaitista também fez parte.
Esses anos tocando ao lado dos companheiros feitos no Porto da Barra serviram como uma espécie de canteiro de obras para realizar os experimentos sonoros que levaram ao álbum de estréia de Brenoski. O gaistista já integrou outras bandas, entre as quais, Príncipe Cansado, H3O Harmônica Trio, Zona Harmônica, além de participar do projeto Papo de Gaita, idealizado pelo também gaitista Luiz Rocha.
Para formar a base musical que o acompanharia nas gravações do álbum, Brenoski convocou os Retrofoguetes. Assim o baterista Rex, o guitarrista Julio Moreno e o baixista Fábio Rocha se juntaram ao projeto e contribuíram decisivamente para a organicidade sonora do álbum, uma vez que os músicos, entrosados pelos muitos anos tocando juntos, permitiram o encaixe perfeito dos elementos composicionais do álbum. A esse núcleo se juntaram o extremamente criativo banjoista Gigito, Tadeu Mascarenhas nas teclas da sanfona e teclado, além de assinar a produção, mais os gaististas Luiz Rocha e Diego Orrico.
Havia o interesse em lançar o álbum em formato físico. Um dos problemas em se lançar álbuns físicos em plena era digital consiste no desinteresse completo das pessoas em adquirir esse tipo de mídia. Contudo Brenoski, usando de muita criatividade, desenvolveu uma ideia para solucionar esse problema. Geralmente não a querem nem pra porta copos. Brenoski transformou uma garrafa de cerveja em sua mídia física e assim conseguiu ter sucesso no lançamento físico do seu álbum. A cerveja, de estilo American Pale Ale, é produzida pela cervejaria artesanal Mascarenhas. Para ouvir o álbum através dessa mídia física basta scanear o querry code presente na garrafa que levará até o link para fazer o download dos arquivos em mp3 e assim tomar sua APA ouvindo o som do gaitista.
Coloco Brenoski Libertae está entre os principais álbuns lançados em 2019, isso podemos afirmar sem receio. O álbum não fica devendo nada pra qualquer produção do gênero feita dentro ou fora do país. O set de faixas que o compõem é bem equilibrado, marcado pelo contraste de músicas leves e com pequenas tensões emotivas e músicas com dinâmicas rápidas e agitadas.
Abre o álbum a faixa Oriente Incidental, um country frenético, cuja dinâmica imprimida pelo dedilhado inquieto de Gigito em seu banjo, gera o clima próprio a esse gênero. Vila Playa tem uma pegada pop, bem cadenciada, enquanto Horizonte Azul e Blues de 13 Compassos em Em vem de blues rock. A partir daí temos uma sequencia maravilhosa!! São músicas em que o estilo de Brenoski como gaitista aparece em toda sua potência. São músicas lentas, baladas que criam uma atmosfera emocional bastante forte.
Vamos começar por Sopa de Gran Peña. Baixo, bateria e guitarra criam a ambiência perfeita para que a gaita inicie seu passeio melódico. O uso comedido das notas, os destaques através dos bends nos momentos certos geram emoções no ouvinte, um sentimento de saudade, de necessidade de algo que já não se tem mais.
Tangerine Girl é um folk gitano cuja linha melódica prende a atenção e consegue se fixar na mente, o que faz dela, ao meu ver, a música que representa a alma do álbum. Considero uma música perfeita por esse motivo aliado ao arranjo feito pra ela, onde a gaita cumpre funções rítmicas e harmônicas, o uso da sanfona é um tempero a mais e as tensões criadas por Brenoski ao longo da melodia … puta que pariu!!!
Solitude, essa faixa reflete em sons a condição de se estar só. Embora seja uma melodia intensa devido a ênfase nas notas longas e aquele efeito semelhante ao trinado feito em momentos pontuais despertam a sensação de paz, a solidão vista como algo bom, momento necessário para estar consigo mesmo, ter descobertas. Chegamos em uma parte da música de andamento mais agitado que remete a euforia, aquele insight que surge em momento de meditação, quebrando o transe em que se encontrava.
Country Irlandês é uma música dinâmica, versátil e pontuada por contrapontos rítmicos pra fazer dançar e agitar o salão. Caminhando para o final pegamos o groove de Vênus Insular, o clima da mais pura tranquilidade nudista de Massarandupió a gravidade western de Brevitate Vitae e a singeleza de Juanito Vai À Praia.
Totalmente chapado pela sonoridade desse álbum magnífico, sinto-me livre pra cometer arroubos acerca do que significa o lançamento desse álbum. Brenoski Libertae deve ser considerado um marco na música baiana pelo apuro na composição e execução das músicas, pelo conceito criado para o álbum, pelo cuidadoso trabalho de produção realizado para colocar esse registro na rua. Não podemos de modo algum tratar esse álbum como mais um dentre muitos feitos apenas para se ter um registro das músicas da banda feita com os amigos.
Sabemos da dificuldade para se conseguir patrocínio para shows fora do estado e fazer a divulgação do álbum em festivais voltados para o segmento de estilos musicais estadunidenses, mas ao meu ver, é o que Brenoski Libertae merece e é o que as pessoas que gostam desse tipo de som merecem também. Fazemos votos para que a justiça seja feita e Brenoski Libertae seja um álbum ouvido pelo maior número do pessoas possível, seja ao vivo ou nas plataformas digitais. E que em algum momento role uma turnê de divulgação do álbum.
Carlim
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