Bad Magic é o vigésimo segundo álbum de estúdio do Motörhead e mostra que só o armagedon nuclear pode botar um ponto final à banda.
Lemmy tem apresentado sinais claros de debilidade física faz algum tempo. Esse quadro negativo de sua saúde tem levado muitos a considerarem que o vocalista do Motörhead está com seus dias contados. Contudo, parece haver um erro de cálculo por parte de quem está fazendo esta conta. Apesar do cancelamento de shows mundo afora, entre os quais a apresentação do Motörhead na edição deste ano do Monster of Rock que rolou em São Paulo, a banda está longe de jogar a toalha. Prova disso é o lançamento de Bad Magic, 22º álbum de estúdio em 40 anos de estrada do Motörhead.
Se no palco a banda não é a mesma devido aos problemas de saúde que afligem Lemmy nos últimos anos, no estúdio a energia ainda emana com intensidade suficiente para comporem mais um bom álbum. Longe de ter a importância e a qualidade de álbuns clássicos como Overkill (1979), Bomber (1979) ou Ace of Spade (1980), Bad Magic fica em cima do muro, não é péssimo nem fantástico, apenas um bom álbum feito por um rocker que recusa a se aposentar e luta para se manter no palco.
Neste sentido Bad Magic se destaca entre os álbuns considerados apenas “bons” na discografia do Motörhead. Temos um álbum marcado pela luta de Lemmy por continuar à frente da banda fazendo a única coisa que sabe fazer: rock´n roll. Bad Magic representa a resistência de Lemmy em evitar o destino fatal, que certamente seria acelerado caso ficasse em casa coçando o saco, tomando whisky e fumando compulsivamente. Se afundando na depressão ou em lamúrias sobre os dias de glória que não voltam mais. Nesse o consumo de álcool, tabaco e outras substâncias, se é que ele ainda faz uso, são menos nocivos que a aposentadoria.
Ele insiste em viver o presente, ao manter-se ativo como um roqueiro sessentão cantando, paletado seu baixo e comandando uma banda quarentona. Essa atitude indica que apesar de todo álcool, nicotina e demais substâncias acumuladas em seu corpo ao longo de 69 anos, viver ainda é um desejo ardente. O destino de Lemmy, se depender dele mesmo, se resume em tombar no campo de batalha, em cima do palco fazendo uma multidão enlouquecida vibrar ao som da sua música. Seguir até que a última nota seja cantada ou tocada.
Bad Magic é um álbum de Lemmy, suas músicas tratam de temas ligados ao drama pessoal vivido por ele. Talvez possamos ser mais atrevidos e considerar Bad Magic um álbum existencialista. As letras das músicas abordam questões diretamente ligadas à tomada de consciência da finitude humana. Quando jovens e saudáveis falamos sobre o fim, sobre a inevitabilidade da morte hipocritamente. Dizemos saber que vamos morrer, mas da boca pra fora. Quando a certeza de que a morte realmente ocorrerá preenche nossa consciência, aí sim, a sentimos como o ferro em brasa marcando nossa pele.
O novo álbum do Motörhead aborda a morte dessa perspectiva, da qual se olha a vida com novos olhos. Este traço faz de Bad Magic um álbum especial, que ganha profundidade e força capaz de impactar e fazer-nos pensar um pouco sobre o fim a partir da ótica de Lemmy. Não necessariamente da morte, mas do fim como a interrupção de algo. No caso de Lemmy, o fim da vida de rocker, o fim de fazer shows, gravar álbuns. O que parece, neste caso específico, estar indissociável da morte.
Victory or Die, faixa de abertura do álbum, traz no título o lema sob o qual o líder do Motörhead tem vivido nos últimos tempos. Dois extremos se apresentam como alternativas para o desfecho da luta, nada de meio termo. Isso porque diante desta situação não há meio termo possível. Alcançar a vitória significa adiar a morte. Cada vitória conquistada evita a concretização do fim inevitável. No trecho “Look down and see the road you’re on/ As if you are on a marathon/ That’s the spirit victory or die”, manter-se ou não trilhando a estrada, metáfora para a vida, reside aí a diferença entre vencer ou morrer.
Thunder And Lightning aborda o cotidiano da vida de roqueiro de Lemmy rodando o mundo em turnê com o Mötorhead. No trecho à seguir, fica exposta a incerteza de quando a morte virá buscá-lo e o aparente desejo do líder da banda de que seja em cima do palco: “Step on the stage, promises made/ Under the blade, crushing and biting/ Maybe you’ll die, maybe you’ll fly/ Fire in the sky, thunder and lightning, Thunder and lightning“. Traduzindo livremente seria algo do tipo: “Piso no palco, promessas são feitas/ Sob a lâmina, quebrando e mordendo/ Talvez você morra, talvez você voe/ Fogo no céu, trovão e relâmpago/ Trovão e relâmpago.“
Shoot Out All Of Your Lights alterna dinâmicas rítmicas aceleradas e intensas por outras arrastadas. Solos de guitarras surgem para substituir o riff principal, enquanto as passadas ao longo de todas as peças da bateria se fazem constantes, dando à música um aspecto ritualístico. The Devil segue por sendas mais sombrias trazendo à tona imagens mórbidas ligas, claro, à morte. Do ponto de vista técnico não há novidades, é a sonoridade que a banda vem mantendo ao longo de seus 40 anos de existência. As demais músicas alternam temas comuns à história do Motörhead e a imanência da morte. Bad Magic termina com um cover apropriado para a temática que percorrer o álbum. Sympathy For The Devil encerra o álbum garantindo o flerte com toda mitologia que cerca a mão invisível da morte sobre nossas vidas.
Motörhead – Bad Magic (2015)
Carlim
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