Nossa herança musical africana contagia nossos corpos, entorpece nossos espíritos e nos faz querer sempre celebrar a dádiva de estarmos vivos! O afrobeat brasileiro ganha força e os filhos de Fela Kuti emergem em vibração sonora!
Fazemos parte de uma civilização que aprisiona o corpo humano. A principal jaula dos nossos corpos não pode ser vista, apenas sentimos seus efeitos. Sua construção se dá a partir da supervalorização do que se convencionou chamar de alma ou espírito e a valoração negativa do corpo. Todos os valores considerados bons são destinados a promover o fortalecimento dessa dimensão metafísica, levando a nos sentirmos incompletos e encarcerados. Isso porque nossa dimensão material instintiva é castrada e disciplinada de forma cada vez mais violenta.
A moral cristã forneceu os açoites que martirizam o corpo, fonte de todo pecado, erro e mau da humanidade, segundo essa perspectiva ideológica. O regime de produção capitalista forneceu outra jaula, também invisível, responsável por adestrar nossos corpos através da administração do nosso tempo no trabalho, na escola, na igreja, em nossos lares, no transporte público, praticamente em todas as esferas sociais. O corpo humano anseia por libertação e a música negra se mostrou e ainda se mostra o instrumento de luta pela liberdade do corpo! A música negra promove a celebração da vida, levando-nos a dançar e querer viver!
O afrobeat surge como mais uma ferramenta para serrar as grades que aprisionam nossos corpos. Ouvir Fela Kuti e sua banda Africa´70 é nos transportar para um ambiente de movimentação constante, onde dançar ao som do afrobeat nos faz transpirar e arejar o espírito. Na música negra o espírito está integrado ao corpo, sendo mais uma parte dessa multiplicidade que é ser humano. Por isso nos sentimos felizes quando podemos nos fazer presente em movimento, suor, som e espírito.
A fusão de ritmos tradicionais yorubá com gêneros contemporâneos como o free jazz, o fusion, o funk e o soul resultou num gênero musical de forte presença percussiva, colocando em primeiro plano a matriz musical yourubá, delegando às demais vertentes musicais uma função secundária. O impacto dessa criação não se dá apenas no campo artístico, ele se manifesta também no campo cultural e político.
Essa estrutura dada ao afrobeat por Fela dá voz ativa a cultura africana por meio dos ritmos yorubás invertendo a polaridade no que refere ao cenário musical mundial. Fela e o afrobeat passaram a ser importados pela Europa e Estados Unidos. A cultura africana deixa seu continente de origem não para ser subjugada pelo dito “mundo civilizado” mas para ser recebida com louros nos principais festivais de música do mundo.
Faz alguns anos o afrobeat vem ganhando força na cena musical brasileira. Excelentes bandas surgem por todo país fazendo germinar por aqui a semente plantada por Fela no final dos anos 60 na Nigéria. Afim de dar nossa contribuição para o fortalecimento da cena afrobeat no Brasil, resolvemos fazer uma playlist com bandas brasileiras dedicadas a este gênero musical.
A paulistana Bixiga 70 cujo nome vem da junção do nome do bairro paulista e da referência à Africa 70, banda do Fela Kuti, consolidou seu nome na atual cena musical brasileira. Participaram de vários festivais musicais no Brasil e no exterior, lançaram o terceiro álbum em 2015 e estão na estrada desde 2010. No Rio de Janeiro encontramos a Abayomy Afrobeat Orquestra. O nome tem origem yorubá e significa encontro. Palavra que define bem a banda, sempre nascendo a partir do encontro dos músicos que a compõem. A banda foi formada em 2009 quando seus componentes se reuniram para tocar na primeira edição do Fela Day do Rio. De lá pra cá os encontros não pararam, em 2012 lançaram um EP que leva o nome da banda.
Ainda no Rio temos outro músico que incorpora afrobeat à sua música. Trata-se de André Sampaio, sempre acompanhado pelos amigos reunidos sobre o nome de Afromandinga. André Sampaio viajou por diferentes países africanos entrando em contato com a música mandinga que incorporou à sua sonoridade. Na floresta amazônica uma zebra cavalga produzindo muito som com o bater de seus cascos. A Zebrabeat Afro-Amazônia Orquestra incorpora ritmos paraenses como o carimbó à sua música alcançando excelentes resultados, tão exóticos quanto uma zebra compondo a fauna da floresta amazônica.
Em Belo Horizonte a Iconili vem dar seu sotaque mineiro ao afrobeat. Seu álbum Piacó lançado no segundo semestre de 2015 traz uma psicodelia que vibra na rítmica percussiva africana. Salvador manda seu representante, a I.F.Á Afrobeat, que há menos de um mês lançou o Ep Afrobeat + Okwei V Odili em parceria com a cantora nigeriana Okwei Veronny Odil. Como banda a I.F.Á tem pouco tempo de estrada, porém já foi o suficiente para se consolidar no cenário musical baiano e preparar terreno para implementar sua invasão nacional.
Carlim
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