Quem assiste Hora de Aventura já deve ter percebido que a música é um elemento muito presente ao longo das peripécias de Finn e Jake no mundo totalmente nonsense criado por Pendleton Ward. As referências musicais são praticamente onipresentes nesse desenho que se tornou um dos maiores fenômenos culturais dos últimos anos. As maneiras que os roteiristas encontram para sempre inserir na trama algo relacionado com música são extremamente criativas, para não dizer geniais. Os responsáveis por criar o universo sonoro da Hora de Aventura são Casey James Basichis e Tim Kiefer, cujo trabalho é um dos grandes responsáveis pelo sucesso do show.
A música eletrônica e o indie são os estilos mais comuns no decorrer da série. A primeira muitas vezes dialogando com as também abundantes referências a videogames e a segunda ajudando a dar aquele clima inocente e pueril à história. As canções que tocam na abertura e nos créditos finais são exemplos perfeitos disso. Mas outros estilos também estão representados. Uma das personagens mais bacanas, a vampira Marceline, é baixista, compositora e vocalista de uma banda de punk rock chamada As Rainhas do Grito.
Se tem uma personagem badass em Hora de Aventura é a Marceline. Tá bom, Jake e Finn são durões também, mas não como Marceline. Ela possui poderes assustadores e não tem receio de usá-los para fazer espertinhos borrarem as calças quando precisa. Em 2012 Marceline e sua trupe ganharam uma série em quadrinho batizada de Marceline e As Rainhas do Grito. A Panini compilou essas histórias em uma edição caprichada lançada por aqui no início do ano. E se você tem a desconfiança de que se trata de um caça níquel qualquer lançado para pegar carona no sucesso da animação, saiba que você não podia estar mais errado.
A hq mantém o nível e expande o universo de possibilidades infinitas apresentado pela série, ao mostrar As Rainhas do Grito em sua primeira turnê pela Terra de Ooo. Os inseparáveis Jake e Finn são apenas coadjuvantes nessa jornada que acompanha a guitarrista e também vampira Keila, o baterista fantasma Bongo (reza a lenda que ele é um fantasma de um famoso baterista, achei ele a cara do John Bonham, mas vai saber), o misterioso tecladista Guy, a baixista e frontwoman Marceline e a empresária da banda Princesa Jujuba, pegando a estrada e fazendo shows literalmente assombrosos em cidades bem estranhas.
Basicamente a trama mostra uma jornada de auto conhecimento de Marceline, que tem que lidar com sua insegurança e, claro, com o seu complexo de rock star, enquanto enfrenta os desafios corriqueiros na rotina de uma banda em turnê: entrevistas, viagens, críticas negativas, apresentações ao vivo e brigas internas. A Princesa Jujuba também tem um arco bem definido. Ela é o oposto da protagonista: certinha, organizada, racional. Sabe muito de música erudita (sendo inclusive praticante) e quase nada sobre rock’n roll. As duas precisam aprender uma com a outra como flexibilizar suas próprias posturas.
Mas falando assim parece sério demais. Não é o caso. O quadrinho tem o mesmo espírito anárquico da série animada conseguindo mesclar um humor bobo com momentos sombrios e algumas referências sexuais um tanto veladas. Personagens conhecidos do público como a Princesa Caroço, o incrível BMO e o carente Rei Gelado – entre muitos outros – também dão as caras no quadrinho. A história principal é dividida em seis capítulos, escritos e ilustrados por Meredith Gran (conhecida pela web comic Octopus Pie), com cores de Lisa Moore. Essa linha narrativa é intercalada por histórias curtas que levam a assinatura de artistas conhecidos no meio do quadrinho independente.
Nomes como Jen Wang do elogiado Koko Be Good, Liz Prince e Faith Erin Hicks integram o time de apoio produzindo, cada um no seu estilo, pequenas pérolas de narrativa gráfica, sempre utilizando o universo musical de maneira inteligente e criativa. Talvez esse seja o grande trunfo do encadernado. Buscar maneiras criativas de retratar imageticamente o poder da música. Do robô programado para só pintar a cor vermelha que sente necessidade de usar outras cores depois de ouvir uma canção das Rainhas do Grito, até o problema de comunicação entre Jake e sua amada Lady Íris solucionado musicalmente, passando por um gênio preso numa guitarra, cada momento de Marceline e As Rainhas do Grito está recheado de referências e boas ideias que vão conquistar quem gosta de música.
Número de páginas: 164
Formato: (17 x 26 cm) Colorido/Capa dura
Preço de capa: R$ 19,90
Editora: Panini
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