
Quanto mais nos embrenhamos pelo underground brasileiro mais ficamos energizados em continuar a trabalhar nesta cansativa rotina. É muito cansativo descobrir bandas maravilhosas, uma atrás da outra, e ter que escutar seus discos cheios do melhor que a nossa música pode oferecer. Brincadeiras a parte, a canseira desta vez nos é oferecida pela excelente Caapora.
O nordeste brasileiro sempre foi expert em trabalhar a linguagem do rock tomando como território de partida nossa cultura. Uma história forte e de excelência criativa, que tem nomes como Lula Côrtes e Zé Ramalho, Ave Sangria, Marconi Notaro, Aratanha Azul, Flaviola e o Bando do Sol, Paulo Raphael, Zé da Flauta, Ivinho, Alceu Valença, Novos Baianos e mais recentemente toda a revolução do mangue beat, Chico Science & Nação Zumbi, Mundo Livre S/A pra ficar nos nomes fundadores.
A banda Caapora se insinua nesta tradição e cá pra nós, como elementos do primeiro esquadrão. Primeiro por que esta linhagem criativa se define principalmente pelas singularidades que cada um dos artistas conseguem fazer passar dentro da linguagem rock, a partir de nossas linguagens musicais nordestinas. Maracatu, repente, a tradição dos violeiros, bandas de pífano, samba, coco, embolada, frevo, ciranda, forró, xote, maxixe, são apenas alguns dos ritmos que ao longo dos anos foram misturados ao rock e produziram obras grandiosas. E esses cabras não fazem diferente; aliás, fazem. Nesta miríade de ritmos, eles inserem ainda outras referências como o reggae, a psicodelia, algumas leves pitadas de progressivo e de música latina.
A banda lançou seu debut Verde Vingança, ano passado e para nós é certamente uma estreia vigorosa e importante. Tanto pela qualidade musical quanto pelos temas abordados. São dez músicas que quanto mais regionalmente se situam mais conseguem abordar os problemas globais que enfrentamos nesse começo de século XXI e maior universalidade estética alcançam. E a base da visão poética parece ser o resgate, ou a construção, de outra forma de nos relacionarmos com a natureza. A excelente Esse Menino já aborda o problema do excesso de tecnologia na vida das crianças que perdem assim o contato com o mato, com a rua, com a construção lúdica das brincadeiras de rua. Mas vamos começar do começo.
O disco abre com a poética Universidade Sideral, e nos convida a enxergar melhor nossa relação com o sagrado na natureza, flora e fauna que todos nós somos com e no mundo. Entre as lendas e diversidades que compõem esse mesmo mundo que teima em nos dar a ver sempre possibilidades novas, o que se traduz poeticamente e musicalmente nesta canção com pitadas latinas e rock pesado.
A regueira África Latina acirra os protestos contra a devastação do meio ambiente e com a qualidade de vida que a industrialização em massa de todos os aspectos da vida coloca em prática. A música seguinte, Ah, Vida Árida, aposta num instrumental seguro, cheio de vibração e mudanças de andamentos, com a guitarra mandando forte e uma percussão que nos remete a um baião rocker, fazendo uma ode a vida do nordestino, esse bravo. Pulando a quarta faixa, comentada primeiro, chegamos numa regravação deliciosa de Hey Man, dos mitológicos Ave Sangria, reis soberanos do udigrudi pernambucano.
A Onça é um instrumental delicioso, todo conduzido pela flauta envenenada de Igor Távora. Um encontro entre a Banda de Pífanos de Bendengó e guitarra de um Pepeu Gomes, que aqui é substituída pela do Daniel Rangel. O delicioso Baião de Veraneio, discorre na linguagem do baião entre a bateria de Marcelo Rangel, a flauta e a guitarra, numa conversa cheia de ritmo e domínio técnico dos instrumentos, acompanhando uma letra doce. O ritmo diminui, mas a intensidade é a mesma com a sertaneja e engajada Suassuna Canção. A forte Verde Vingança chega como a penúltima música do disco como pra que deixar claro quais as intenções poéticas e musicais da banda: a defesa da vida no nosso planeta.
O disco se encerra com a bela e instrumental A Cura, fechando uma espécie de tour que se faz no disco. Passeamos pelos temas engajados, pelos ritmos dançantes desta Verde Vingança, conduzidos pelo espirito do mato. Os Caaporas se afirmam como banda madura e consciente tanto de seus instrumentos quanto de suas ideias, apresentando uma excelente estreia em disco.
Baixe o disco e leia o excelente release da banda clicando aqui.
Ficha técnica:
Igor Távora: violão, flautas e voz
Hermano Venancio: violão, percussão e voz
Diogo Lopes: percussão e voz
Celso Hartkopf: baixo
Daniel Rangel: guitarra
Marcelo Rangel: bateria
Thiago Barba: técnico de som
Produzido por Caapora
Mixado por Arthur Soares
Gravado no Estúdio Base
Danilo
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