Um pequeno tratado, um breve ensaio, um documento de afirmação da arte, de sua necessidade e potência, é isso a primeira mixtape do Alvaro Réu. Cada milímetro respira liberdade, traduzindo sua luta constante diante das dificuldades mais diversas, para que conseguisse dar a luz, parir sua obra. Foram dois anos de correria para que sua mixtape visse a luz do dia e ele conseguiu, mas resta-nos aqui a pergunta: a que preço?
Avaliar os esforços despendidos, todos os perrengues, os encontros e desencontros para conseguir se manter e gravar um material de qualidade, não é fácil. Viver de música, somente de música menos ainda e neste sentido, Alvaro faz de seu disco um manifesto contra o status quo e uma bela afirmação da potência do existir, criativamente. Vivendo de Música é bonito, por que possui aquela qualidade poética que nos impulsiona a seguir, não por força de palavras de ordem e jargões retirados de livros de auto-ajuda, mas porque confessa o sofrimento e as dores que constituem toda batalha que pretende afirmar a vida, toda luta para conseguirmos nos tornar aquilo que somos.
A literatura ocidental possui em sua tradição, um gênero conhecido como As Confissões. Santo Agostinho, Jean Jacques Rosseau e Henry Miller são artistas destacados por terem elevado suas vidas a condição de objeto estético. Parece-nos que Alvaro Réu procede da mesma forma ao longo de suas músicas. Para o observador mais atento ficará claro que nada ali é exercício de ficção, todas as canções – e mesmo as que forem objetivamente fruto da imaginação – estão ancoradas em sua trajetória. São frutos dos seus “eus”, mudanças e permanências, referências (Nelson Maca e Racionais Mc’s) que construíram esse artista que agora vocês conhecerão. Isso fica bastante evidente se ouvirmos atentamente a faixa Eu Sou.
A abertura assustadora da mixtape, já lhe preparará para o que vem pela frente (em todos os sentidos), crítica ácida e afirmação constante de formas diferentes de produzir música, de amar, de firmar alianças com os parceiros. Robson Veio empresta sua voz e faz as vezes do Ser (vida, tempo?), que do alto de sua absoluta potência, não demonstra nem um pouco de compaixão com nós mortais e apenas alerta-nos para nossa imensa pequenez. Essa faixa de abertura resume todo o disco, pois depois de um aviso destes o disco poderia facilmente ser abortado, mas se contém a faixa dois – e mais onze – é por que o artista emerge do sonho e entende que não havia outro impulso ou saída a não ser continuar a lutar.
A segunda faixa já mostra no título a unidade conceitual que é proposta. Em Vai na Fé o rapper nos propõe a necessidade de prestar atenção ao que é importante, recusar as rixas que apenas atrapalham, evitar o consumo de drogas que ilude, buscar relações humanas fora do distanciamento que o mundo tecnológico muitas vezes impõem.
A unidade conceitual referida acima, não se traduz na unidade de um tema, mas sim na complexidade da temática escolhida. Viver pela música – a fé maior – é o que parece tangenciar todas as letras, ora atacando a homogeneização que a facilidade de produção pode ocasionar (A Fábrica com participação de Suburbano), ora refletindo sobre encontros amorosos casuais (Amor de Festa apresentando Nanashara Vaz), ou mesmo tentando pensar no amor (Sentimento). A solidão e a constância de pensamento do trabalho artístico e a necessidade de uma postura ética forte o suficiente para manter sua identidade (Gangstar). “Eu sou Gueto foda-se quem não gostar!”
Os instrumentais do KAA.DDU são um caso a parte, o disco mantem uma mesma intensidade rítmica o tempo inteiro. Porém os beats se diferenciam em suas construções. A mudança de ritmo não é sentida – apesar de existir – e essa é uma das qualidades intrínsecas do álbum, conseguindo alcançar um padrão de continuidade de uma faixa a outra, até o fim.
Paciência e calma, pensamento voltado apenas para a importância da caminhada, nunca desistir dos sonhos, em troca de uns trocados. Em O Espelho a individualidade é afirmada como arma importante para combater os olhares daqueles que se guiam pela má consciência e pelo rancor diante da potência do outro. Fechados em mesquinharia, visando a queda alheia. Daí a necessidade de lutar pela honra e construir trilhos firmes por onde vamos seguindo e melhorando a vida, afinal o caminho se faz caminhando, é assim que alcançamos nossos sonhos.
Outra Dose é um dos pontos altos desta mixtape, com participações especiais de Blequimobiu (Versu2) e Shoes. A combinação de três timbres vocais diferentes, os beats com pianinho smooth jazz de fundo, trazem um sabor diferente à faixa. “Sonhar é um vicio, eu quero outra dose, Viver é dose eu quero outro sonho, que represente aquilo que componho, seja presente enquanto decomponho.” Sonhar de olhos abertos, porque viver apenas, não dá. Esses questionamentos existenciais estão presentes em todo o disco e se repetem sempre com cores novas, outras palavras, poesias diferenciais sobre o mesmo tema.
Esses questionamentos estão intensificados na penúltima faixa, Vive Agora com a participação de Makonnen Tafari: viver o presente, combater o consumismo, buscar ser. Os cínicos tentaram argumentar que são problemas insolúveis, que são clichês e que não há solução possível diante do quadro apresentado hoje na contemporaneidade. Mas na última faixa Vivendo da Música tudo fica claro como o dia. A trajetória do artista para conseguir fazer o disco nos é apresentada. As ações dentro da cena hip-hop na cidade, as dores pessoais, toda a dificuldade em produzir e como foi VIVER para a MÚSICA.
Mas não se engane, não há lamentação e nem arrependimentos, como dito na faixa Luta pela Honra: “Pra trás não volto mais”. O olhar é para frente. Sim, a tomada de posição é firme e orgulhosa, como deve ser: fruto do amadurecimento existencial e artístico. Só nos resta agora esperar o show de lançamento deste que sem dúvidas é mais um marco do hip-hop baiano, e um dos melhores discos do ano até aqui.
O disco está no repeat e a breja tá gelada, agora é aproveitar a sexta feira escutando essa pérola! Você pode baixar o disco gratuitamente clicando aqui, ou escutar ele completo no youtube.
FICHA TÉCNICA:
TODOS OS INTRUMENTAIS PRODUZIDOS POR KAADDU – JOINVILLE/SC.
BAIXO NAS FAIXAS 04 E 08 POR YAN SANTANA.
GRAVAÇÃO, MIXAGEM E MASTERIZAÇÃO: ALVARO RÉU NO HOMESTUDIO COLÉ DE MERMO RECORDS (EXCETO A FAIXA 11 GRAVADA POR AKANI SANTANA NO STUDIO BACK TO BACK).
FOTOGRAFIA: FERNANDA MAIA
CONCEPÇÃO E DESIGN GRÁFICO: ALVARO RÉU
Danilo
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Se ne3o me engano, ne3o vi nemnhua refereancia a Rick Rubin, uma grande lenda viva como produtor musical. Pode ter certeza que team muito dele nesse e1lbum. O cara simplesmente produziu Raining Blood, do Slayer entre outras grandes obras. Black Sabath, tambe9m e9 uma das minhas bandas preferidas, mas ne3o esquee7amos do cara que ajudou a dor um norte a esse maravilhoso trabalho.