Saiu hoje o segundo disco da dupla Matéria Prima & Goribeatzz: “Fazendo o Melhor Que Eu Posso”, contando com 13 tracks pelo boombap e o house!

Disco novo da dupla Matéria Prima & Goribeatzz, com baixos estratégicos do Cizco, DJ Novset riscando, Cravinhos em guitarras e Ogoin emprestando sua voz. “Fazendo o Melhor que eu Posso” é um dos grandes discos do ano até aqui, fruto de uma das melhores e mais singulares canetas do Rap brasileiro, junto a um beatmaker que já pode ser considerado um dos mestres contemporâneos dessa arte. O disco tem lançamento pelo selo com o melhor catálogo do rap nacional atualmente: a Sujoground.
Na era do pré-save, Matéria segue provocando, e perguntou nos seus stories se alguém faz o Pós-save? Essa é uma questão perene para a turma que entende música como produto de consumo, pois quem entende que a arte é algo para ser curtido, pensado e refletido, o pós-save é obrigatório e não termina nunca.
Tendo recebido o disco antes do lançamento, fui assaltado por um áudio do Mattenie, muito bonito, puxando papo sobre o disco que ele também recebeu antes junto à foto, para fazer a capa. Esse texto é uma resposta pública a esse audio e a minha forma de pós salvar o disco da dupla.
Salve Mattenie, tudo em paz né irmão?
Pois bem meu velho, eu tenho muita coisa a dizer sobre esse disco do Matéria com o Gori e tem uma primeira coisa que o seu áudio me lembrou. Rapaz, essa sensibilidade criativa do Matéria Prima é algo macerado né? Tanto pelo tempo, quanto pela dureza da indústria. E sim meu mano, eu também tenho estado muito impressionado com a qualidade dos trabalhos que têm saído, mas talvez não sejam com os mesmos trampos que a maioria das pessoas tem visto né?

Essa sensibilidade que você me ressalta tem sido uma questão que eu venho matutando já tem um tempo meu mano. Sem moralismos, sem noções que resumem vastos campos a um mero gosto ou não gosto. O que me parece é que esse tipo de sensibilidade não interessa ao mercado. A tradição do boombap underground contemporâneo, desde a gloriosamente esquecida geração dos anos 2000 em nosso país, traçou uma linha sinuosa onde humor crítico e uma política contracultural, se uniram como linhas de força. Ao mesmo tempo, os beats dessa forma de produção musical possuem um tempo interno onde a complexidade pode ser desenvolvida com uma maior serenidade. E convenhamos, isso nunca fez “sucesso” de público em nosso país.
-Leia no site a série de artigos “Estudando Matéria Prima”
Neste sentido irmão, o Matéria Prima é um elo perdido facilmente encontrável para percebermos como essa mesma geração já em vias de “cinquentar”, segue em um nível muito absurdo de produção musical e poética. E aí tem todos os entraves da indústria cultural em nosso país que ainda identifica o Rap como cultura jovem, o espírito do tempo que impede muitas pessoas de perceber pluralidades sonoras, tonalidades afetivas e diferenças de perspectiva.
É loko mermo, que o Matéria Prima faça um rap sobre “Fila” (s), que no fim das contas não é uma metáfora, nem apenas uma imagem poética e nem um storytelling. Mas, que seja sobretudo uma longa e abrangente reflexão sobre as formas de organização social e política, assim como postura e observação ética diante das mesmas. O beat do Gori nessa faixa em específico traz uns timbres loucos de suspense, contrastando com a seriedade meio cômica das situações e reflexões que o Matéria rima.
E acredito que você notou, essa música vem logo após um bloco de três faixas onde ele versa entre outras coisas, sobre si mesmo:
“Ideias que nascem no ar, peixes invisíveis que nadam no nada e eu pesco de tarrafa, eu me jogo no meio da tempestade, me arrisco a colocar o relâmpago na garrafa.”
Pensando uma coisa difícil, eu já tentei parar, mas parece que esse é meu destino. Diferente dos meninos que nem são artista mas sabe colocar um raio dentro de um pino”
Esses versos iniciais da “Intro”, que trazem uma participação muito boa do Cravinhos, mostram bem para quem não o conhece, que se está diante de um verdadeiro poeta. Eu não me lembro de ter ouvido uma formulação desse nível onde o MC fale sobre o ato de criação, a impossibilidade de fugir de uma sina encarnada e fechar isso com uma crítica política radical. Eu lembrei na hora que ouvi a primeira vez, da fala do Leminski sobre como é fácil ser poeta aos 15, 20 anos, e o quão difícil é, se manter poeta aos 40, 50, 60 anos.
E veja Mattenie, a riqueza desse disco não procede por marketing de algo pseudo conceitual, mas antes traça poética e sonoramente, loops, samples, e diálogos internos entre os temas desenvolvidos. As três primeiras músicas deste “Fazendo o Melhor Que Eu Posso” é sobre os esforços coletivos e não apenas sobre os exercícios cotidianos da dupla Matéria Prima & Goribeatzz. Não sei se você se ligou, mas “Intro”, “Só um Exercício” e “Uuu” é um tríptico cartão de visitas. Quase um preparo para “Fila”, se pensarmos em termos de indústria…
-Leia no site a resenha do disco “Adepto ao Princípio” do Goribeatzz
O Matéria Prima possui uma das discografias mais importantes do rap nacional, além dos grupos clássicos e da banda da qual fez parte, ele já conta com 4 EP’s, uma mixtape e agora chega ao 7º álbum solo. E qualitativamente, como MC e cantor, ele segue impressionando quem o acompanha, por expandir cada vez mais sua arte.
Ouvindo “Fazendo o Melhor Que Eu Posso”, este último disco, é exatamente como você disse e repetiu: “Que disco mano!”. Eu falei num textinho sobre “O Dia Segue” que algo que me toca profundamente é a forma, a perspectiva que Matéria Prima imprime diante da alteridade, mano. Isso é brilhantemente cantado em “Trilha”, uma ode belíssima à amizade como um ato político. Em um período como o nosso mano, onde as performances na internet propõem que não se deve confiar em ninguém, o Matéria Prima faz um rap sobre “tomar emprestado”, em um beat bem jazzrap do Goribeatzz. A forma como ele nos propõe uma dialética entre tempo e dinheiro nessa música, mostra o quão profunda é a poesia do MC.

“Eu sigo soterrado em toneladas de memes, medos e sonhos com a esperança no leme. Enquanto isso eu que reme contra a maré e no caminho tente que descobrir o que amar é”
E velho, uma coisa que eu acho foda é como o Matéria condensa em versos e imagens poéticas zilhões de possibilidades de interpretação, mas ele tá sempre olhando pro outro, sempre dentro desse registro da Alteridade. Eu às vezes viajo Mattenie, imaginando ele pelas ruas de BH com a câmera fotográfica, fazendo de todo mundo onde seu olho pousa, um devir.
“Se um dia a Esperança de um náufrago foi Wilson, a minha continua sendo Spalding”
Brinca muito, hein Mattenie? E o mais legal é que ele é um MC que não tá cheio de certezas, ele questiona a si mesmo: “Porque a esperança é a última que morre, será que é porque ela é que mata?”, e isso é louvável né? E ao mesmo tempo se recriando também mano, “Eu Tô Te Vendo” é um remix tá ligado? Lançado em 2016 bicho, uma aula para quem acha que arte tem prazo de validade e aquelas coisas né, tem realmente música que daqui uma semana ninguém lembra mais, assim como alguns artistas.
Escrever sobre artistas como Matéria Prima & Goribeatzz é aquele exercício de tentar destacar alguns pontos, porque daria um livro tentar analisar a profundidade de cada uma das faixas. Assim como, a diversidade sonora presente no disco, que vai do boombap mais clássico até um bate cabeça como em “Ce Loko”- todos da lavra do Goribeatzz. E isso só me faz ficar pensando quando eu terei o prazer de ver um show do Matéria Prima aqui em Salvador, vei.

E nessa mesma toada, neste disco o Goribeatzz traz uns houses muito bem produzidos, “So Funky” trouxe o Ogoin no feat e é um exemplo delicioso de que é possível dançar e pensar ao mesmo tempo. Porra Mattenie, eu entendo querer ouvir uma música apenas pra dançar, quem nunca né? Mas, a música pop está cheia de exemplos de que é possível ser inteligente e ao mesmo tempo dançante, toda a música preta é testemunha dessa não dualidade. E além de MC, Matéria Prima é também um cantorzão né meu mano?
Na real, na real meu velho, a vontade é ficar ouvindo no repeat as músicas todas, agora mesmo enquanto te respondo, tô já na terceira audição seguida de “Perceba”. Percebendo tantas e tantas camadas na construção dessa música, recebendo uma enxurrada de ideias em versos todos intrincados e costurado com técnicas diversas, Goribeatzz loopou com gosto demais essa, cê é loko mano, DJ Novset mais uma vez abrilhantando a faixa, riscando e mantendo a cultura e arte instigantes.
Gostaria de finalizar essa longa resposta ao seu áudio dividindo contigo uma coisa que uma amigo me falou recentemente: – Porra Danilo, tanta coisa medíocre ou mesmo ruim, é elevada a categoria de genial! E completou com a mesma pergunta que você fez: E esse disco do Matéria Prima hein? Irmão, os tempos possuem novas características mas no que tange ao essencial os mecanismos de controle e submissão são os mesmo, afastar o que se diferencia, quando não se pode aniquilá-lo de vez.
Essas duas faixas que encerram o disco são um absurdo de profundidade, a faixa homônima de certo modo encerra o disco, no sentido de exprimir uma recorrente auto definição do MC. “Fazendo o Melhor Que eu Posso” tanto o disco, como a música é um exercício que começou lá no Quinto Andar, passou pelo Subsolo, pelo Zimun e pelo Tetriz, além de ter caminhado solo e com parceiros. Matéria Prima não se define. “Nem ovelha com hálito de hortelã” e “nem dragão de komodo com veneno na saliva”, “um gigante e uma miniatura”, “bem mais e bem menos” do que conseguimos perceber.

Tenho o impulso de pensar em sua obra e em sua carreira artística como essa procura sempre pelo fora, o que não lhe impede de produzir profundas reflexões sobre si mesmo, mas é um si mesmo que é sempre em vista do Outro. É de certo modo um milagre que o tenhamos produzindo com tanta intensidade, assumindo esse destino sem desanimar do nada. Antes, fazendo dele substância para suas pescarias poéticas, não é fácil, nós sabemos.
Pensar o Matéria Prima é pensar a excelência negra, subvertendo esse conceito quando ele se refere aos bem sucedidos, aos milionários, a classe média em postos de poder ainda assim subalternizados pela Supremacia branca. Matéria Prima é a excelência negra do dia a dia, da rua, da pista, como o motorista de ônibus e a varredora de rua, e ele é elegante o suficiente para não escrever por eles, e sim para escrever para eles, para nós, para um povo por vir. A música e a arte desse poeta belo-horizontino é um Caminho que o Futuro Trás.
Valeu meu mano Mattenie, a capa do disco ficou loka mano, parabéns. Espero que não tenha ficado enfadonho, e tá ligado né, tiver guias é só mandar!
-Pós-Salvando “Fazendo o Melhor Que Eu Posso”, resposta ao seu áudio Mattenie!
Por Danilo Cruz
Danilo
Matérias Relacionadas
Assine a nossa Newsletter
*Conteúdo exclusivo direto no seu e-mail
No ar!
Oddish “Castro” solta single e EP como um prólogo para o “ÉPICO da SUJEIRA”
Um dos grandes nomes do Rap baiano, Oddish “Castro” lançou o single “Gargantilha” e o EP “Pernambués” com produção do El Piva. O mês de abril tem marcado o retorno do MC Oddish “Castro” ao cenário do Rap baiano, com lançamentos que preparam o seu…
Pós-Salvando “Fazendo o Melhor Que Eu Posso”, resposta ao seu áudio Mattenie!
Saiu hoje o segundo disco da dupla Matéria Prima & Goribeatzz: “Fazendo o Melhor Que Eu Posso”, contando com 13 tracks pelo boombap e o house! Disco novo da dupla Matéria Prima & Goribeatzz, com baixos estratégicos do Cizco, DJ Novset riscando, Cravinhos em guitarras…
Samba Bedetti
Felipe Bedetti já lançou seu terceiro álbum, mas aqui vamos falar do single “Samba Gerais”, uma música que indica novas aspirações do jovem compositor mineiro. A essa altura do campeonato, o novo álbum do cantor e compositor mineiro Felipe Bedetti já está batendo em tudo…
Os Passarinhos carcomidos do Orelha Seca
Orelha Seca, banda soteropolitana cheia de ódio desse mundo fabricado antes da gente nascer e onde a gente só se fode lança o Ep “Corvos, Abutres e Pardais”, que é pra você ter certeza que estão te fudendo, e não é de um jeito gostoso. …
Zadorica e a sua “Sina”: “o Rap ninguém me apresentou, ele aconteceu” – Entrevista
Entrevistamos a Zadorica, MC e produtora que acaba de lançar o seu disco de estreia: “Sina”, para você saber melhor sua caminhada e ideias! A agência entre formação pessoal e desenvolvimento artístico não opera por causalidades, a todo um trabalho de “reflexão” – flexionar para…
Tigran Hamasyan: folclore, erudição e improviso – o escape para encontrar a liberdade musical
Tigran Hamasyan é um pianista armênio, que conseguiu atenção mundial quando sua interessantíssima visão sobre música folclórica, clássica e improvisação começou a receber atenção do público e das grandes gravadoras. Sempre registrando projetos por selos proeminentes, principalmente do mercado europeu e norte-americano (como Nonesuch Records…
A revolução que vem de Rondônia,o MC kami lauan é o “tTrazedor de Notícia Ruim”
Com dois discos lançados em 2025, o rondoniense kami lauan chega com “tTrazedor de Notícia Ruim”, um disco fora da curva! kami lauan e o seu disco “tTrazedor de Notícia Ruim” é um acontecimento para o rap nacional em 2025. Se você acompanha de fato…
“Tertúlia” de Galf AC & DJ EB, lírico e rítmico, a música e a poesia Rap – Entrevista!
Com muitas participações, Tertúlia de Galf AC & DJ EB é um disco raiz do rap nacional com uma roupagem atual e consistente! Um dos grandes discos do ano até aqui, “Tertúlia” contém 11 músicas e diversas participações de nomes como Rodrigo Ogi, Ravi Lobo,…
