Zadorica, beatmaker e MC, lançou seu álbum de estreia com 11 faixas, trazendo o boombap no meio de lutas de classe, gênero e sexualidade!

Cantora, MC e beatmaker, Zadorica é a prova de que a renovação sempre ocorre, independente da falta de atenção da maior parte das pessoas. Seu disco de estreia “Sina” traz 11 faixas, onde os ouvintes poderão degustar um álbum onde as suas rimas e o seu canto, assim como seus beats, atravessam diversas questões políticas e expõem a interseccionalidade que a atravessa.
Tecnicamente, “Sina” se configura como um EP e em seus 25 minutos e 2 segundos, Zadorica consegue com muita “objetividade poética” nos apresentar um pouco das suas vivências, da sua história, da sua identidade e das questões que lhe interessam. É um disco de boombap, mas Zadorica traz uma forte pegada criada através de quebras de ritmo que se emaranha a suavidade do seu canto. Apresentando algo ali entre o samba e o R&B, o que nos oferece assim, uma experiência de audição que nos encaminha com leveza e swingue às questões apresentadas.
A luta é para não naturalizar a ausência de lógica que comanda a nossa “Sina”, um desenho que só parece possuir exatidão matemática, mas que é construída através das vontades e da repressão dos desejos humanos. Esse é um dos temas da emblemática música de abertura “Lida & Ferramenta”, em um beat muito bem construído com uma ambiência inicialmente melancólica e que segue em um crescendo até alcançar a entrada das batidas. Onde Zadorica narra a sua luta para manter o sonho desperto.
Longe de ser didática, longe de utilizar fórmulas prontas, “Coisas Que Eu Não Faria” é uma narrativa intensa sobre a falta de oportunidades, ou melhor dizendo, sobre a oportunização de se trair em vida. Como a vida do trabalhador e do trabalhador/artista é constituída de sequências de “baques”, como diz um amiga: “eita atrás de eita”, Zadorica nos conta suas angústias e sua resiliência de escrever no busão, porém mantendo sempre a imaginação em dia.
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Um dos grandes desafios para pobres e jovens artistas é lidar com a equação perversa entre o ímpeto criativo e a ausência de meios para apresentar com uma qualidade aceitável suas ideias, sua arte. Zadorica insiste em repetir as questões de classes como as dificuldades centrais para quem luta por mais do que a mera sobrevivência e tem consciência disto. Em “Economia”, a MC ressalta com qualidade poética na construção dos versos, humor e reverência às mulheres – que no Brasil sustentam quase a metade dos domicílios – esse jogo de exploração.
As faixas de “Sina” não se prolongam muito, porém Zadorica constrói cápsulas anti-retilíneas, quebrando a cadência dos beats, construindo momentos mais melódicos, mudando a sua emissão por modulações de voz e alternando com bastante propriedade entre o canto melódico e rimado. Criando assim uma espécie de duplo das peripécias e da subidas e descidas, dores e alegrias que o(a)s trabalhadores enfrentam no seu dia a dia.
Nada exemplifica melhor a substância presente em “Sina” do que o videoclipe da faixa “Sina do Trabalhador”. E é bastante curioso que, principalmente em um tempo como o que vivemos atualmente, uma jovem MC, artista, reconheça e enuncie que há um tempero próprio na arte feita pelos trabalhadores, pelos excluídos, pelos oprimidos. O audiovisual dirigido por Vinícius Tavares e Mariana de Azeitona exala esse tempero, pois é perceptível ver como transformaram a dificuldade de produzir através da criatividade em um peça estética tão sucinta quanto prenhe de possibilidades interpretativas.
Com “Mandinga”, Zadorica prova dois pontos: É possível se aproximar das estruturas mais comuns da música popular sem ser cafona e que ela é uma excelente cantora. Aliando uma composição muito bem construída sobre o lugar em que está e o trajeto para chegar até ali, a um canto muito bem estruturado com muita mandinga. Vencendo as dificuldades pela força da arte, e mais uma vez mantendo os sonhos, mas indo além e encontrando uma parceria para dividir a realização dos sonhos.
A jovem MC e produtora de São José do Rio Preto – SP, radicada no Rio de Janeiro, ousa em sua estreia e mostra que sua caixa de ferramentas é virtualmente infinita. Prova disso é a faixa “Na Casa do Telhado Azul” onde em um drumless de sua própria lavra, ela dá aulas de flow e de lírica, apresentando novos coloridos ao ouvinte na medida em que o disco segue a sua sina.
Em “Quando a Deusa Me Visita” Zadorica aborda as interseccionalidades de modo elegante, aborda gordofobia e suas preferências sexuais ao mesmo tempo que demonstra a completa hipocrisia dos nossos “cidadãos de bem”. No entanto, ela liga todas essas questões ao capitalismo, sem no entanto, hierarquizar as opressões. A rápida menção aos bandeirantes é a cereja do bolo de seu approach político, ao relacionar tudo à estrutura colonial.
Como dissemos antes, Zadorica não é didática, não utiliza chavões vazios, constrói com apuro de métrica e rima, com variedade de flows, canta e apresenta ao longo do disco doses muito bem equilibradas de poesia e política, imiscuindo uma coisa na outra. Suas vivências, são muito bem elaboradas e seduzem o ouvinte a buscar saber mais, a entender melhor, a estrutura musical do disco quebra expectativas para quem está acostumado aos padrões do mainstream.
É uma afirmação muito bonita de força e criatividade, como em “Quarto de Despejo” onde ela torna a óbvia referência a Maria Carolina de Jesus, em algo seu e de todos nós. Lutando com sua arte para não transformar seus sonhos em plástico e ou vê-lo ser esmagado embaixo de um rolo compressor. Na cadência de um beat mais tradicional de boombap, ela respira rap e luta, se reconhecendo suas diferenças e extraindo dela suas singularidades em forma de arte… “É de manhã mais uma vez, eu decido ser quem sou outra vez”, ela canta, e quem ganha somos nós.
Última música cantada do disco, a curtinha “Vale Tudo”, onde Zadorica nos fala sobre como a rua lhe ofertou possibilidades, de como o rap serviu-lhe de meio de expressão, de sua luta, da sua sina, afastada da família. Escrevendo no rap o nome das pessoas que ela ama, sua mãe supramencionada ao longo do disco, mas também sua avó e sua prima. Apesar do elogio ao nosso querido e básico feijão com arroz, não é isso que a artista nos entrega nesta refeição completa.
O disco ainda conta com as versões instrumentais de “Vale Tudo” e “Economia”, e pelo menos para mim, nas audições que fiz do disco desde que me foi enviado, antes do lançamento, serviram como fruição de todo o peso que esse disco transparece, quase como se a música – da Zadorica – fosse um espaço para pensarmos tudo que ela nos entrega ao longo do trabalho.
É uma estreia realmente importante, de uma artista cheia de recursos técnicos e de um ímpeto político e ético que se faz necessário. Uma artista que modula canto e flow, escreve composições mais tradicionais, mas também é capaz de abstrações ricamente produzidas. Uma produtora competente e ousada. Enfim, Zadorica é uma das grandes reais novidades para o rap brasileiro em 2025, escute-a.
-Zadorica lançou seu primeiro disco com “Sina”, boombap e luta contra opressões!
Por Danilo Cruz
Danilo
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