Um dos discos mais importantes da música jamaicana, Marcus Garvey do Burning Spear, segue brilhando como um clássico, 50 anos depois!

Burning Spear é um dos grandes nomes da história da Reggae Music, o que muitas pessoas não se dão conta é que o senhor Winston Rodney era a voz principal de um trio vocal que foi alçado ao “estrelato” com o clássico “Marcus Garvey” há 50 anos atrás. Nas últimas décadas, a música de Burning Spear tem me acompanhado em minhas rotinas, como um campo de extrema relevância para reflexão sobre nacionalismo negro, sorbe o panafricanismo e as lutas anticoloniais. Mas tudo isso começou ainda na adolescência.
O ano era 1997, minha turma de escola tinha passado do fundamental 2 – na época ginásio – para o ensino médio – na época 2ºgrau – e decidimos ir para a casa da família de uma amiga em Jauá, uma das praias no Litoral Norte de Salvador – Bahia. Éramos em 12 pessoas, minha primeira viagem sozinho, uma semana de liberdade fora dos olhos da família. Foram muitos causos que dariam um livro ou um filme, porém o que nos importa aqui foi a presença de Burning Spear como trilha sonora dessa viagem.
Entre idas à praia e travessuras mil, a fita cassete de “HAIL H.I.M”, lançado por Burning Spear em 1980 girava, e o dono Fozé imitava o patoá jamaicano com o nosso típico sotaque baiano. Foi meu primeiro contato e do qual eu nunca esqueci, com a música do jamaicano, com o qual eu só fui me reaproximar muitos anos depois, de um modo muito mais consistente.
Quando do lançamento de “Marcus Garvey” o trio já era conhecido na Jamaica. Surgido como um trio vocal em 1969, formado por Delroy Hines e Ruppert Wellington como vocais de apoio e Winston Rodney (Burning Spear) como a voz principal, os caras já tinham lançado dois discos pela gravadora Studio One, Studio One presents Burning Spear em 1972 e Rocking Time em 1974. Nascido na paróquia de St. Ann, Winston Rodney dividia o local de nascimento com Bob Marley e com… Marcus Garvey, que foram influências fundamentais na sua construção de visão de mundo.
O trio conseguiu um teste na gravadora do grande Clement “Coxsone” Dodd (Studio One) por sugestão de Bob Marley. E após dois discos lançados pela gravadora, que vinham lhes dando fama na ilha, após divergência com o Clement o grupo rompeu com a gravadora. Essa decisão os levou a procurar o produtor Lawrence Lindo aka Jack Ruby, também conterrâneo de Winston Rodney e dono de um sistema de som na paróquia de St. Ann, o único produtor da época a trabalhar fora de Kingston.
Essa aliança seria fundamental para a produção do clássico Marcus Garvey, gravado no clássico Randy’s Studio, local onde as feras da época gravavam. Jack Ruby recrutou um time que reunia o que de melhor existia naquela altura. Membros dos The Wailers e do The Soul Syndicate fizeram parte das gravações dos singles que se transformariam nesse incontornável clássico da música jamaicana.
Antes do lançamento do disco, houve o lançamento de duas pedradas imensamente clássicas e sobretudo ainda atuais, as faixas “Marcus Garvey” e “Slavery Days” tiveram um imenso sucesso na ilha. Chamando a atenção de Chris Blackwell que resolveu mexer na sonoridade do disco e lançá-lo de modo mais palatável para o público internacional, como já tinha feito alguns anos antes com “Catch a Fire” de Bob Marley & The Wailers.

Ainda em 1969, Winston Rodney já adepto do rastafarianismo assume o nome de Burning Spear (Lança Ardente) em homenagem ao líder queniano Jomo Kenyatta, que levou o Quênia à independência do colonialismo britânico em 1963. E é curioso ver como “Marcus Garvey”, 50 anos depois segue como um verdadeiro manifesto panafricanista, exalando nacionalismo negro em sua poética musical.
A composição poética e musical presente em “Marcus Garvey” é bastante única na forma de estruturação dos versos, e no conteúdo poético, assim como na expressividade criada por Burning Spear. Além disso, há uma linha de sentido que liga a primeira música – “Marcus Garvey” – à última: “Resting Place”, a saber, partindo de uma filosofia Garveyista que reconhece as linhas de ação propostas pelo líder negro, e chegando no questionamento e na proposição de um horizonte utópico.
Hoje após décadas de construção musical e política, fogo na babilônia se tornou algo inofensivo, mais um chavão, uma palavra de ordem completamente esvaziada pelo grande público, e a positividade gratiluz mais um pastiche hippie, rendido aos padrões neoliberais da Supremacia Branca tomou o lugar da luta do povo negro. Ao invés de uma “Lança Ardente” no coração do colonialismo, maconha de primeira qualidade dos playboys brancos e pretos.
Já na primeira música, Burning Spear canta sobre a atualidade das palavras de Garvey e vaticina contra os traidores, contra a linha auxiliar, que deve ser espancada. Nos lembrando, 50 anos depois, que se trata de luta, não de conciliação, nem de busca pela paz universal. Há um clamor e porque não uma busca por agenciamento coletivo que atravessa todo o disco, e que tem em Marcus Garvey o principal signo de uma luta emancipatória do povo preto.
É curioso que sempre que se fala de música pelos rincões das internet e ao longo da própria história do século XX, os músicos da reggae music, nunca possuíram o mesmo status de “genialidade” que os músicos de Rock, por exemplo. A banda formada por Jack Ruby e batizada de “The Black Disciples” é a reunião da fina flor do que de melhor se tinha – em um cenário extremamente rico – de músicos da ilha. Verdadeiros gênios em seus instrumentos. Dois dos melhores baixistas da história da música: Aston Barret e Rob Shakespeare e na bateria Leroy “Horsemouth” Wallace, fechando a cozinha.

Nas guitas, o grande mestre Earl “China” Smith (solo) e Valentine “Tony” Chin (base), nas teclas Tyrone Downie e Bernard “Touter” Harvey, os dois fizeram parte do The Wailers. Na riquissima sessão de metais do “Discípulos Negros”: Herman Marquis (sax alto), Bobby Ellis (trompete), Richard “Dirty Harry” Hall (sax tenor), Vicent “Trommie” Gordon (trombone) e Carlton “Sam” Samuels (flauta). De todos esses grandiosos nomes, apenas o Carlton “Sam” Samuels não é um músico influente na cultura jamaicana, porém a sua flauta vai acrescentar um sabor muito único em canções como “Live in Good” e “Give Me”, onde seus desenhos melódicos acrescentam doçura às composições.
As composições de Burning Spear são sempre muito simples, sem muitos desenvolvimentos líricos e é exatamente aí que mora toda a imensa potência de suas músicas: a repetição e os comentários pontuais que ele desenvolve, ao longo de todo o disco. Um jogo solto entre os versos e os refrões entre idas e vindas, repetindo como em um culto e recriando a estrutura de chamadas e respostas ao seu modo. Modulando a emissão, os vocalizes, retirando daí as intensidades diferenciais de sua arte.
Pelas minhas andanças nas ruas de Salvador, muitos do nosso povo ouvem bastante Burning Spear nas nossas favelas, porém muitas vezes não compreendem a profundidade do seu chamado. E consequentemente não conseguem efetuar respostas a altura.
“Vocês se lembra dos dias de escravidão?
Você se lembra dos dias de escravidão?
E eles nos espancaram, e nos fizeram trabalhar tão duro
E eles nos usaram até nos recusarem”

Em “Slavery Days” temos uma amostra muito forte desse processo de composição acima mencionado, ao ponto do refrão contaminar o verso, onde a memória do cativeiro se faz presente nos dias atuais, com todas as implicações subjetivas e políticas. Não como uma dor do chicote estralando ainda, mas no sentido de perceber os novos chicotes, depois da recusa, mencionada no primeiro verso. Burning Spear é um mestre da nossa história em Diáspora, logo alguém que nos propõem um futuro como povo.
Em “Marcus Garvey”, o reggae roots “pivota” e quanto mais se aprofunda no solo, mais cria outros territórios possíveis, uma compreensão rizomática, afro-rizomática onde as raízes crescem tanto vertical quanto horizontalmente. É luta política, é história, mas também é a busca por uma ética entre nós, hoje tão necessária quanto há 50 anos, talvez mais. “Live Good” é um dos exemplos de como a extrema economia de versos e a repetição constante nas músicas de Burning Spear alcançam o sublime.
Entre a busca, a tentativa rumo ao melhor, o não saber que muitas vezes pode errar, entre os sins e os nãos, atravessados pela doce flauta do “Sam”, o senhor Winston Rodney mostra o quão difícil é a simplicidade. Da mesma sorte porém em outra chave a música seguinte: “Give Me” que pode ser entendida como um pedido aos poderes constituídos, mas é na verdade um chamamento ao povo: “Boas pessoas me ouçam”.
A repetição e o proliferamento de grandes líderes é retirado a fórceps em “Old Marcus Garvey”, onde Burning Spear parte do esquecimento para fazer não somente a memória de Marcus Garvey chegar às crianças como a de outros grandes líderes do final do século 19 e início do século 20 na Jamaica. Entre a brilhante linha de baixo e a marcação da bateria, o “No one Remember Marcus Garvey” se transforma e insinua os nomes de Paul Bogle, William Goddo, Norman Washington Manley e de Bustamante.
Em “Tradition” uma pergunta repetida diversas vezes: Porque? se converte em uma contestação à história, combativamente alegre e saturando a pergunta até nos fazer compreender os 2.000 anos a que se refere, opressão, morticínio, colonização. As suas influências rastafari ficam mais evidentes em “Jordan River”, assim como em Red, Green & Gold e as referências à bandeira Etíope, ao Haile Selassie, ao Leão de Judah. Outros tantos signos de resistência mental e espiritual ao colonialismo.
O disco se encerra com “Resting Place” porém longe de qualquer perspectiva idílica, o que Burning Spear projeta em nós é a contradição – hoje muito assustadora – entre a necessidade de uma visão da natureza de algum modo sustentável, e a crescente destruição da mesma. Novamente, parte-se de uma pergunta: “Onde devo encontrar meu lugar de descanso?” para daí elaborar uma crítica sutil à forma como o capitalismo e a Supremacia Branca e a sua visão de dominação da natureza.
Se aproximar de “Marcus Garvey” é sobretudo uma necessidade de introjetar as perspectivas de luta e de si enquanto parte de um povo, hoje mais do que nunca, que somente através da união e da elaboração de uma agenda comum, poderá superar os imensos desafios que nos são colocados. Pois, esse é um disco que transcende o estético e alcançam de fato uma potência ética e política revolucionária para o povo preto em diáspora.
O disco fez bastante sucesso, ao ponto de em 1976 uma versão dub do mesmo ser lançada: “Garvey’s Ghost”. Ainda em 76, o trio se separaria e o senhor Winston Rodney (Burning Spear) seguiria em carreira solo como um dos maiores astros da música reggae.
-O clássico do reggae roots, Marcus Garvey do “trio vocal” Burning Spear, completa 50 anos
Por Danilo Cruz
Danilo
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