Ao longo de 10 músicas, Mascote rima com feats do Mattenie e do PaZSado, com produção do Digmanybeats, sobre o dia comum do trabalhador!

A volta (?) à ativa de um MC do quilate do Mascote é/deveria ser algo muito comemorado, desde de 2023, o artista lançou alguns excelentes trabalhos, como o disco “Ligue os Pontos (prod. Digmanybeats)” em parceria com Dej@ Vu e o DJ Will Cutz, em 2024 o disco em parceria com PaZSado: “Flores em Vida (prod. Digmanybeats)”. No ano passado, o disco quase perdido “Jornada Dupla” com Dr. Drumah e esse ano, outro disco gravado há vários anos e também quase perdido, “Meus Amigos Vol.2”.
O Mascote fez história com o clássico grupo “ContraFluxo” e o pouco conhecido “Primeira Audição”, um dos poucos grupos a produzir um rap jazz brasileiro com imensa qualidade em nossa história. Nesse processo de volta à ativa, nos lançamentos, Mascote tem contado sempre com as produções do Digmanybeats e com ele que ele compôs o seu último disco “Práxis”. Apesar de curtinho, os seus 19 min e 43s condensa uma epopeia que é a de milhões e milhões de brasileiros.
Não é um disco para se ouvir buscando diversão, muito menos motivação – Raps Motivacionais deveriam ser proibidos – muito pelo contrário. O retrato em ritmo de curta metragem, um imenso storytelling de 18 horas de um trabalhador brasileiro, no caso o próprio Mascote. Que ao traçar os passos de um dia comum em sua vida, termina por uma questão de classe, falando de todos nós que trabalhamos no dia a dia, de sol a sol, que pegamos o busão ou o metrô lotado.
Recentemente li em uma rede social que o artista só é profissional se ele é remunerado pelo seu trabalho, caso contrário é um amador. Sob certo ponto de vista – capitalista – isso é até verdade. Porém, nos indica o quanto a subjetividade de muitos está completamente submetida aos modos de produção capitalista. Perceber a arte e o artista sob esse viés – que é o da imensa maioria das pessoas em nosso país – é extremamente redutor, empobrecedor mesmo. Sobretudo, se tivermos um olhar crítico tanto para a história, quanto para o que hoje habita o mainstream da música brasileira.
Com certeza, e não quero aqui fazer nenhum tipo de elogio da precariedade, artistas do mainstream não são capazes de produzir um disco de rap inteiro narrando a vida do trabalhador comum. Muito pelo contrário, o mainstream hoje é uma eterna cantilena em loop sobre ser vencedor. Fornecedores de esperanças vãs, que termina por reificar o sistema capitalista da forma mais vil. São em quase sua totalidade MCoachs!
Outra é a proposta do Mascote que recorta um cotidiano comum de nós trabalhadores que somos capazes de olhar para a realidade de forma crítica. O disco começa com o Mascote acordando e cuidando da sua cria “5h45(intro)”, colocando na escola e seguindo pro trampo. Já em “Práxis” a narrativa começa a rasgar o tom de normalidade cotidiana e ou mesmo nos apresenta as suas “práticas comuns”. que é também além da de milhões de trabalhadores, a de milhares de artistas amadores. Ouvir algo para alimentar o espírito criativo (beats), se informar em trânsito (ouvindo clássicos e podcasts).
A rotina estressante dos trabalhadores em meio ao capitalismo tardio em um sistema neoliberal meramente administrado, já é mencionado “de passagem” sobre o burnout sofrido por uma colega de trabalho. Mascote aborda também, cansaço provocado no trabalhador pelo péssimo sistema de transporte nas nossas capitais, que é algo sofrido pela esmagadora maioria da população que paga caro por um sistema completamente sucateado.
Os “Desalinhos” entre trabalhadores e patrões são traçados nos mostrando, levantando o véu das atuais práticas do sistema que prevê a uberização cada vez maior da classe trabalhadora, assim como a já longeva jornada 6×1, um dos temas da participação do PaZSado na faixa. A ausência de perspectivas e o auto engano de que as coisas vão melhorar são ideias demolidas pelo Mascote em “Murmúrios”, ao mesmo tempo que reflete sobre a possibilidade de entrar para vida do crime. Uma reflexão muito pertinente sobre como permanecemos acuados entre a exploração e a certeza de prisão ou morte.
Após o intervalo “12h30(intervalo)”, é a vez de uma análise mais pormenorizada sobre o Capital e o seu funcionamento, “Mão Invisível” traz o Mattenie no feat, que segue a mesma toada, mas acrescenta algo presente em uma das 11 Teses sobre Feuerbach, a saber:
“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.”
A volta pra casa, “18h30(interlúdio)”, enfim “Lar Doce Lar (partes I&II)” porém outro momento de tortura para trabalhadores que se amontoam em transportes. Única faixa presente no disco que possui batidas, mas que logo volta ao drumless, nos mostra a coesão estética da sonoridade construída por todo o trabalho fruto do Digmanybeats. Enfim, o “Sono dos Justos”, entre observações em forma de crônica, Mascote narra essa volta pra casa como de fato ela é para muitos: a certeza de uma batalha inglória, porém vencida.
A alegria do filho recebendo o pai, uma imagem que só ressalta toda a melancolia que o cotidiano poetizado nos apresenta. A sensação de alívio e segurança de estar em casa, ainda encontrar tempo para brincar com a sua criança, lhe colocar na cama. Deitar para dormir mas a mente a milhão, pensar nas contradições da vida, se programar para o final de semana etc…
O produtor Digmanybeats cria uma atmosfera sonora praticamente toda ancorada no drumless, mas longe de um trabalho genérico, o artista proporciona as tonalidades para cada momento do dia. Criando assim, o complemento musical que tensiona o ouvinte a prestar atenção no trabalho poético do Mascote, mas os loops nos injetam sub-repticiamente as sensações adequadas ao tema.
O disco se fecha às “23h45(outro)”, em um áudio onde o Digmanybeats convida o Mascote para um novo disco. E tudo recomeçará de novo no dia seguinte, o Mascote voltará ao trabalho, o Digmanybeats vai lhe mandar beats e outro disco vai sair. Essa é a rotina dos trabalhadores em geral e dos artistas/trabalhadores em particular.
Como disse acima, a audição de “Práxis” não diverte e obviamente não se pretende a isso. Ao poetizar a vida do trabalhador brasileiro que é a sua também, mas do que trabalhar com palavras de ordem “revolucionárias”, Mascote nos induz a pensar no absurdo em que vivemos, na exploração brutal que sofremos, no tratamento escroto que sofremos dos poderes. Esteticamente é um trabalho muito bem acabado pois nos carrega em sua duração dentro de uma perspectiva musical monótona, tensa, dura, algo que é conseguido pelo flow empregado pelo Mascote e pelos feats, assim como reiteramos, pela produção musical.
Escute:
-Uma epopeia do trabalhador brasileiro é a “Práxis” por Mascote & Digmanybeats
Por Danilo Cruz
Danilo
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