Clube de Patifes celebram seus 26 anos de estrada lançando o álbum Macumba, obra na qual consolidam seu candomblues!
Uma das fanfics mais conhecidas da história da música pop está relacionada à habilidade de um homem negro em tocar seu violão. Quem não conhece a lenda urbana na qual um homem negro, Robert Johnson, vai a uma encruzilhada e faz um acordo com o diabo?
Em troca de sua alma, o “Tinhoso” lhe concede a virtuosidade ao tocar o violão. Se hoje a canalha racista não aceita uma pessoa negra ter excelência ao fazer o que quer que seja, imagina nos anos vinte no Sul dos Estados Unidos!
Precisaram inventar uma história da carochinha dessas pra aceitarem que um homem negro poderia tocar seu violão com tamanha habilidade e sensibilidade” Além disso, apagam sobre qual entidade tem a encruzilhada como jurisdição. A encruzilhada está sob os cuidados de um deus africano, o orixá Exu!!
O Clube de Patifes faz um som que incorpora elementos do blues, funk, r&b, samba aos elementos das músicas tocadas nos cerimoniais do candomblé. Dessa forma traz para sua sonoridade as raízes da música afro-brasileira, transportando ela para o local de destaque, que mitos como o de Robert Johnson buscam esconder.
A alquimia do Candomblues: Uma análise do álbum Macumba do Clube de Patifes

Podemos dizer que o lançamento do álbum Macumba marca um novo capítulo na longa trajetória do Clube de Patifes. A banda feirense, há 26 anos na estrada, revela, neste trabalho, não apenas uma evolução estética, mas também um posicionamento cultural e artístico que ultrapassa as fronteiras da música.
Isso porque o álbum é resultado de uma imersão da banda no cerne do candomblé, compreendido como manifestação do sagrado dentro “candomblues”, um gênero responsável por unir elementos da black music afro estadunidense às manifestações culturais e religiosas afro-brasileiras pautadas pelo Candomblé, Umbanda e Quimbanda.
Entre riffs e Orixás: a sonoridade de Macumba
Produzido por André T, o álbum mergulha nas raízes culturais da Bahia, trazendo melodias e ritmos que evocam não só a tradição do blues, da soul e do r&b, mas também a vibração dos toques e cantos sagrados dos terreiros.
A faixa “Tempestade” conta com a participação especial da cantora Danny Nascimento. A música se apresenta como um convite à introspecção e ao entendimento das heranças afro diaspóricas que moldam o cotidiano da banda e de seu público.
A música buscar ligar o ouvinte à sua mensagem sonora, o conduzindo para a esfera da meditação. Ela possui uma atmosfera leve, suave, facilmente levando o ouvinte à concentração necessária para ser incorporado pela música.

A participação de Danny Nascimento acrescenta a ênfase a esta aproximação da música com o ouvinte. Isso poque o modo como ela canta ao contrastar com a forma de cantar de Piveton imprime uma suave tensão, desfeita quando cantam juntos, momento em que é gerada uma harmonia entre as vozes. Essas alternâncias, feitas com tal leveza e suavidade, levam o ouvinte que consegue se conectar com a música a uma sensação de plena tranquilidade.
Isso só é possível porque o conceito de Candomblues, conforme a definição do baterista Paulo de Tarso, vai para além da mera fusão de estilos. Ele descreve o gênero como uma tradução cultural, uma forma de expressar sentimentos, visões e vivências através do encontro entre ritmos ancestrais e contemporâneos.
A frase “Tem Orixá em todo canto desse mundo”, mencionada por Paulo, sintetiza a essência plural do álbum e reflete a universalidade da espiritualidade afro-brasileira. Compreendo residir aí a alma desse álbum e da banda.
Nessa organicidade alcançada pela banda ao integrar toda vasta dimensão cultural das religiões de matriz africana com as urbanas e modernas manifestações musicais da diáspora afro brasileira e estadunidense. Gerando uma linguagem musical própria.
Renovação e continuidade: a nova formação
A mudança na formação do Clube de Patifes também se reflete na sonoridade de “Macumba”. A saída do vocalista original Pablues e a entrada de Piveton, uma jovem promessa da cena de Feira de Santana, trouxe frescor e energia renovada para o projeto.

Além disso, o retorno de Rodrigo Borges, ao lado de Marquinhos Menezes nas guitarras, fortalece a proposta musical que combina técnica e expressividade, especialmente em solos inspirados que dialogam com as raízes do Blues tradicional.
Completando a formação estão Jocapone no baixo e Paulo de Tarso na bateria, que conferem peso e balanço às faixas. A presença de sopros, com arranjos elaborados por Kiko Souza, Lucas Decliê, João Teoria e Matias Traut, traz uma atmosfera orquestral e rica em nuances, dando ao álbum uma profundidade rítmica e harmônica incomum na cena independente.
Uma trajetória de reinvenções
Desde seu surgimento nos anos 90 na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), o Clube de Patifes sempre transitou por diversos estilos, desde o Blues mais direto até experimentações acústicas e, que agora, deságua no Candomblues.
Álbuns anteriores, como Casa de Marimbondo (2015), já ensaiavam essa fusão afro-brasileira, contudo, é com Macumba que a banda atinge seu auge conceitual e musical.
Nos discos anteriores, faixas como “Um dia blue” e “Mulher de repente” se tornaram hinos da cena independente do Nordeste. Agora, com Macumba, o Clube de Patifes reafirma sua relevância ao abraçar um estilo que não apenas diverte, mas também contribui para a reflexão e para o fortalecimento da cena cultural brasileira.
Clube de Patifes: Macumba, um manifesto cultural
O álbum Macumba é mais do que um trabalho musical; é uma declaração de pertencimento e resistência cultural. Ao incorporar as tradições do Candomblé e do Blues, o Clube de Patifes não só cria uma sonoridade singular, mas também promove uma narrativa que valoriza as raízes afro-brasileiras.
Em um momento em que o resgate e a valorização das culturas tradicionais são urgentes, Macumba emerge como um manifesto artístico, um álbum para ser escutado com os ouvidos e experenciado com a alma.
Para quem já acompanha a trajetória da banda, Macumba é a confirmação do amadurecimento e da ousadia do Clube de Patifes. Para os novos ouvintes, se apresenta como um convite irrecusável para adentrar no universo do Candomblues — um espaço onde a espiritualidade e a música se encontram e se tornam uma coisa só.
Beijo nocêis e até a próxima resenha!!
FICHA TÉCNICA
Produção Musical: André T
Voz: Piveton
Guitarras: Rodrigo Borges e Marcos Menezes
Baixo: Jocapone
Bateria: Paulo de Tarso
Sax Tenor e Barítono: Kiko Souza
Sax Alto: Lucas Decliê
Trompete: João Teoria
Trombone: Matias Traut
Teclados: André T
Gravada no Estúdio T – Salvador – Bahia
Mixagem e Masterização: André T
ASSESSORIA DE IMPRENSA
Vagalume Press
Ana Paula Marques
(77) 98101-1254
Carlim
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