Ativos Resistentes, banda de reggae soteropolitana do Subúrbio Ferroviário, prepara o lançamento do seu novo EP, anunciado através do single Farol de Itapuã.
O Subúrbio Ferroviário ativo e resistente
São inúmeros os bairros que compõem o Subúrbio Ferroviário de Salvador. Uma região detentora de belezas naturais próprias da orla que a compõe e do mar. De cima dos morros revelam-se paisagens deslumbrantes! Porém, são belezas contrastadas com as casas sem acabamento, construídas aleatoriamente, fruto do descaso do poder público em relação aos moradores e moradoras da região.
Cada residência, comércio, estabelecimento construído no subúrbio soteropolitano, simboliza luta e resistência de uma população entregue a própria sorte pelo estado, mas que se recusa a baixar a guarda.

Por isso mesmo, uma banda surgida nessa região da capital baiana, trazendo em seu nome os ideias de resistência e luta, expressa de modo latente o espírito das pessoas que nasceram e vivem no subúrbio ferroviário.
A banda de reggae Ativos Resistentes traz esses ideais em seu nome e na sua música. O primeiro e único álbum até aqui, intitulado 1999, lançado em 2019, faz uma remissão ao ano de fundação da banda, traz músicas engajadas em causas pró minorias, como Senzalas, Cidadão, Liberdade Visual.
A banda se preocupou em explorar questões políticas, culturais e sociais em suas letras desde sua origem, consciente da necessidade de formar criticamente o espírito daqueles com quem compartilham não somente a geografia, mas também a cultura.
Uma nova sonoridade, uma nova onda
Desde a virada do século XX para o XXI a banda se mantém viva e após o lançamento de 1999 os caras parecem ter entrado na febre de manter lançamentos periódicos. A notícia de que os Ativos Resistentes estão planejando lançar um EP em 2023 criou expectativa entre os amantes do reggae de Salvador. E não é “baratino” dos caras, anunciaram que o EP já tem título, Prayah Burn.
Pra muita gente isso pode não ser o suficiente pra botar fé neste anúncio. Porém, quando ele é feito concomitantemente ao lançamento de um single da pesada, mesmo o mais cético e desconfiado cede e deixa a adrenalina tomar conta da corrente sanguínea.
O single Farol de Itapuã, que será uma das faixas de Prayah Burn, tem arranjos e produção pra te deixar empolgado para o lançamento do álbum. Isso

porque traz uma pegada mais roots, abandonado o pop, que a meu ver, caracteriza a sonoridade no 1999.
Portanto, traz uma outra intenção da banda com relação à sua sonoridade. Mostra que essas décadas sem novos lançamentos geraram novos interesses em termos composicionais e relativos à mudanças na forma de soarem.
Acertaram demais ao convidarem o guitarrista, compositor e produtor musical Átila Santana para dirigir o projeto.
Os usos de efeitos sonoros como reverb e chorus na voz e no teclado, dando aquela sonoridade característica do dub, a ênfase no grave, a caixa com timbre mais seco, são contribuições do cara pra construção da sonoridade de Farol de Itapuã.
Somando as referências sonoras, da arte visual e da letra do single com o título do álbum, Prayah Burn, chegamos ao resultado de ser uma obra pautada nas vivências socioculturais praieiras.
A arte visual de Farol de Itapuã e as raízes suburbanas da Ativos Resistentes
A arte criada por Leonardo Mattos para ser a capa do single, materializa em imagens a letra de André Mattos. Nela vemos um homem usando um vagão de trem abandonado para surfar uma onda que reflete as cores vibrantes do sol que parece pronto para se por. Ao fundo o Farol de Itapuã compõe a paisagem.

A presença do vagão como um dos elementos principais da arte remete diretamente ao Subúrbio Ferroviário de Salvador. Traz consigo, portanto, a origem e as raízes socioculturais da banda. Pra quem não é de Salvador, vale ressaltar que até recentemente, existia uma linha férrea que cortava toda região do subúrbio. Saía da estação da Calçada na Cidade Baixa e seguia até a estação final no bairro de Periperi no subúrbio.
Os trens do subúrbio operaram durante mais de 160 anos, transportando trabalhadores e trabalhadoras entre os bairros de Periperi e Calçada. A última viagem ocorreu no dia 13 de fevereiro de 2021 conforme você pode ler nesta notícia. Portanto, a presença do trem na arte, carrega a memória afetiva desse ícone do subúrbio ferroviário daquela região da capital baiana.
A letra e a cultura surfista soteropolitana
Quem conhece um pouco da orla gourmet de Salvador percebe que a letra cita alguns picos de surf da cidade. Eu, que não saco porra nenhuma de surf, consegui identificar alguns deles. Entre os locais onde já vi a galera dropando as ondas: Farol da Barra, Praia da Onda Sukiaki (este consegui identificar por conta do nome do restaurante de comida oriental, Sukiaki, que fica no Rio Vermelho), Jardim de Alá e o próprio Farol de Itapuã.
Trata-se de uma letra que aborda o universo do surf soteropolitano. O eu lírico dá as dicas de em quais lugares as ondas estão quebrando com maior intensidade e pela interpretação que fiz das falas que usam o dialeto próprio dos surfistas, parece ser na praia do Farol de Itapuã onde estão rolando as ondas mais desafiadoras.
Vamos esperar o lançamento de Prayah Burn e ver o que mais os Ativos e Resistentes irão nos contar sobre a cultura praieira de Salvador. Serão boas histórias certamente e melhor, serão contadas com o groove e o swing característicos do reggae.
FICHA TÉCNICA
Música: Farol de Itapuã
Banda: Ativos e Resistentes @ativosresistentes
Compositor: André Mattos @andremattos_ar
Vocais: André Mattos @andremattos_ar
Guitarras: Duda Brandão @dudahbrandao
Percussão: @cafus.nogueira.musico
Contra Baixo: Alan Dugrave @alandugrave
Bateria: Sidnei Rasta @sidnei.rasta
Teclados: Átila Santana @atilasantanamusic
Produção Musical: Átila Santana @atilasantanamusic
Produção Fonográfica, Executiva e Direção de Arte: André Mattos @andremattos_ar
Arte: Leonardo Matos @jleonardomatos
Selo: Surf o Reggae @surforeggaeoficial
Carlim
Matérias Relacionadas
Assine a nossa Newsletter
*Conteúdo exclusivo direto no seu e-mail
No ar!
NEGGS & YANGPRJ, arte e cultura Hip-Hop piauiense expandidas e renovadas, e agora?
Após 3 discos lançados, NEGGS & YANGPRJ expandiram e renovaram a arte e a cultura Hip-Hop piauiense, “Libertador part. II, o fim de um ciclo! Em seu último movimento, a dupla de artistas piauienses NEGGS & YANGPRJ, lançou o disco “Libertador part. II”, no final…
NEGGS & YANGPRJ, qualidade violenta e a renovação do Rap feito no Piauí – PT. I
Uma dupla que vem se desenvolvendo junto, o MC NEGGS e o produtor YANGPRJ lançaram três discos que já são marcos da renovação do rap no Piauí! Os últimos três discos da dupla NEGGS & YANGPRJ, MC e produtor piauienses são frutos históricos e excelentes…
TIPOLAZVEGAZH, mixtape de estreia do Vandal completa 10 anos de seu lançamento – Artigo
TIPOLAZVEGAZH, a mixtape de estreia do Vandal, marcou a história do rap no Brasil, antecipando sonoridades e revelando um MC único “UH TEMPUH PASSAH EH EUH KIH FIKOH EMOCIONADUH” Vandal Há 10 anos, Vandal lançava sua mixtape de estreia TIPOLAZVEGAZH, fruto de uma movimentação coletiva…
Xico Doidx, diretamente de BellHell, lançou o seu disco de estreia: SobreViver.
Uma estreia em disco depois de 15 anos de caminhada, Xico Doidx lançou o disco SobreViver, contando com a produção do OnçaBeat Ouvir Xico Doidx e o seu álbum de estreia “SobreViver”, que conta com a produção do OnçaBeat é um exercício de capturar criticamente…
Zadorica e a sua “Sina”: “o Rap ninguém me apresentou, ele aconteceu” – Entrevista
Entrevistamos a Zadorica, MC e produtora que acaba de lançar o seu disco de estreia: “Sina”, para você saber melhor sua caminhada e ideias! A agência entre formação pessoal e desenvolvimento artístico não opera por causalidades, a todo um trabalho de “reflexão” – flexionar para…
Tigran Hamasyan: folclore, erudição e improviso – o escape para encontrar a liberdade musical
Tigran Hamasyan é um pianista armênio, que conseguiu atenção mundial quando sua interessantíssima visão sobre música folclórica, clássica e improvisação começou a receber atenção do público e das grandes gravadoras. Sempre registrando projetos por selos proeminentes, principalmente do mercado europeu e norte-americano (como Nonesuch Records…
A revolução que vem de Rondônia,o MC kami lauan é o “tTrazedor de Notícia Ruim”
Com dois discos lançados em 2025, o rondoniense kami lauan chega com “tTrazedor de Notícia Ruim”, um disco fora da curva! kami lauan e o seu disco “tTrazedor de Notícia Ruim” é um acontecimento para o rap nacional em 2025. Se você acompanha de fato…
“Tertúlia” de Galf AC & DJ EB, lírico e rítmico, a música e a poesia Rap – Entrevista!
Com muitas participações, Tertúlia de Galf AC & DJ EB é um disco raiz do rap nacional com uma roupagem atual e consistente! Um dos grandes discos do ano até aqui, “Tertúlia” contém 11 músicas e diversas participações de nomes como Rodrigo Ogi, Ravi Lobo,…
