Five Steez e Nomad Carlos são dois excelentes nomes do rap jamaicano e portas de entrada para conhecermos uma outra Jamaica, confira!

Não deve ser novidade para nenhum amante da cultura hip-hop que a Jamaica deu forte contribuição para o surgimento da mesma nos guetos nova-iorquinos. Seja pelas mãos de Kool Herc ou qualquer outro imigrante caribenho naquela época, o fato é que a ilha das invenções com seus grooves e sound systems diferenciados foi base para o surgimento e desenvolvimento da cultura hip-hop nos EUA.
Sendo assim, por que seria estranho pensar a música rap não estaria presente também na Jamaica, num processo de retroalimentação entre o EUA e a ilha de Bob Marley? E quando digo rap, não me refiro ao dancehall, raggamuffin’ ou qualquer outro estilo jamaicano que se assemelhe ao gênero, mas sim ao rap tal como conhecemos no Brasil ou em quaisquer outras partes do mundo.
Recentemente, pude trocar ideia com dois integrantes da banca The Council de Kingston; Five Steez e Nomad Carlos. Ambos crias de Kingston, porém Nomad hoje vive em NY. Eles puderam me contar como é o corre e os desafios de fazer rap em um local fortemente conhecido pela música reggae e as estratégias utilizadas pelos mesmos para encontrar espaço na ilha e mundo afora com seus trabalhos artísticos.
Five Steez já está no corre com seu trabalho solo a mais de 10 anos, tendo inclusive colaborado em seu último disco com o produtor e beatmaker brasileiro SonoTWS. Nomad Carlos também tem longa caminhada no rap jamaicano, com diversos discos, EP’s e singles lançados. Com letras geralmente de caráter mais consciente – seja falando de experiências pessoais ou temas políticos – os rappers têm desenvolvido um trabalho diferenciado como artistas oriundos da Jamaica. Inclusive, colaboram juntos em diversas faixas como “Wanna Be Free” na qual abordam o tema da liberdade sobre diversas óticas.
O videoclipe gravado no Parque dos Heróis Nacionais (National Heroes Park) repleto de estatuas de grandes revolucionários como Marcus Garvey deixa clara a mensagem política do trabalho ao mesmo tempo que trazem questionamentos individuais à cultura jamaicana como a religiosidade rastafari e algumas de suas contradições. Aqui, a liberdade parece ser não só da opressão econômica e política do Ocidente mas também de espírito, como os próprios artistas explicaram em entrevista. “Eu tendo a questionar tudo… e nessa música eu questiono algumas coisas sobre religião”, declara Nomad Carlos. Five Steez completa: “Sim, falamos de liberdade em diversas formas; na sociedade, em nossas vidas… diferentes perspectivas. É difícil fazer rap em um local que não abraça tanto nossa linguagem, então é uma forma de buscarmos liberdade artística também na Jamaica.”
Tomando o trabalho de cada artista em separado, vemos também maturidade em suas produções. Five Steez tem diversas rimas boas em beats de excelente qualidade como também videoclipes que seguem a linha questionadora adotada na colaboração com Nomad Carlos em “Wanna Be Free”.
Um deles é “Slaving on the Plantation” que faz ao mesmo tempo uma crítica a escravização do povo negro no passado mas também as condições contemporâneas de trabalho que se assemelham à escravidão racista. Conforme, Five Steez explicou em entrevista: “Plantation (plantação) é um termo que ainda usamos para um emprego ruim, algo que você não gosta de fazer mas precisa para pagar as contas.” Não por menos, o videoclipe me lembrou outro trabalho que faz essa mesma analogia e que é um dos meus preferidos de todos os tempos: Mr. Lif em “Live from the Plantation”.
Nomad Carlos tem um trabalho interessante que faz a interseção entre a cultura afro do hip-hop e alegorias nipônicas de samurai. Inspirado por jogos de videogame como Ghost of Tsushima e pela cultura pop de uma forma em geral, o artista faz uma alusão a suas habilidades líricas e capacidade de encontrar o próprio espaço em uma indústria musical viciada e tendenciosa em suas preferências artísticas. Como um samurai, ele precisa ser o “elemento surpresa” a fim de ter êxito em suas batalhas. Confira o álbum de Nomad!
Bom, essa foi só uma pincelada do quão diversa a Jamaica é musicalmente e de como a música rap também se faz presente na ilha. Espero que tenham gostado. Por hoje vamos ficando por aqui. Câmbio, Oganautas!
-Rap Jamaicano com FiveSteez e Nomad Carlos, uma porta de entrada!
Gustavo Marques
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