Coronel retorna em álbum agressivo e repleto de referências que passam por clássicos do cinema, deuses egípcios e videogame
Anúbis, Hitcock, GTA San Andreas… o que essas três (e muitas outras referências) têm a ver uma com a outra? No álbum FRENESI de Coronel, todas elas fazem sentido em sua amálgama de hip-hop real, de rua e rap sujo. Com produção própria, os beats de boom bap que remetem a sonoridades soturnas como a do grupo Griselda e Tyler, The Creator nas antigas ajudam a criar a atmosfera raivosa e intertextual do novo álbum de Coronel.
O disco já abre com “Animal” e a tag de beatmaker de Coronel diretamente advinda do personagem CJ do GTA San Andreas “You better lock me up cuz otherwise you dead, let me go, bitch!” deixando claro que ninguém prende a criatividade artística do homem. Além do mais, a intro dialoga com a faixa final do disco na qual Coronel se coloca como Deus do Underground fazendo referência a Anúbis (deus da morte para os egípcios) que tinha uma cabeça canina.
O beat dessa intro é sujo, agressivo e soturno, lembrando mais uma trilha de filme de terror que qualquer outra coisa. E falando em filme de terror, você percebeu que o nome e a capa do disco são uma referência direta ao filme homônimo de Alfred Hitcock de 1972? Inclusive, como o próprio Coronel disse em entrevista para esse artigo “esse é conhecido com um dos filmes mais violentos do Hitcock. Por isso pus em caixa alta e vermelho sangue o escrito na capa.” Além do mais, os corvos da capa e do próprio filme FRENESI acabam servindo também como outra referência para o filme O Corvo (1994); como bem frisa Coronel na entrevista.
A faixa que dá sequência é Kimbanda, fazendo referências a uma das religiões de matriz africana no Brasil, colocando Coronel como sinônimo de mau agouro para os falsos rappers que parecem dominar a cena mainstream. A raiva presente em todo o disco é justamente direcionado aos “40% da cena nacional” – de acordo com os cálculos de Coronel – que não fazem jus ao que o rap representa e a cultura hip-hop. Para nossa salvação, “60% é bom e merece nossa atenção”.
E se o assunto é referências e cena do rap, não se pode deixar de falar na faixa “O Rap Nacional Não Morre” que tem um beat de fazer chorar na qual Coronel faz um jogo de palavras com vários versos de rappers renomados do Brasil e mundo afora. A faixa parece ser um estandarte da sua missão no rap como o próprio disse em entrevista para o Oganpazan: “a minha função é mostrar a real e ir contra tudo de errado que tá na cena.” Isso, inclusive, tem a ver com as várias fases do rapper que começou no estilo maromba até passar por um momento mais introspectivo quando descobriu sua função derradeira no rap. Mas como o próprio também disse: “é tudo uma evolução, haverão mais fases e não sei te dizer qual será a próxima (risos)”.
As participações também adicionaram um toque especial ao disco e vieram de maneira orgânica. Algumas delas em sessões de freestyle na Sheila Records em São Paulo como foi o caso de Nuge em “Âmago”, outras por meio de figuras que Coronel já vinha prestando atenção e tinha interesse em colaborar. Como o mesmo diz: “eu gosto de chamar pessoas que estão no corre e que estão começando. Mesmo eu não sendo o MC mais famoso, eu posso ajudar essas pessoas de alguma forma a avançarem em suas carreiras, porque eu também já passei por isso”. Aqui, mais do que estar no tal topo que tanto tem se falado no mainstream, Coronel parece se preocupar com a base da pirâmide ou o dito underground da cena. Ele, inclusive, cita sua amiga de BH Leticia Matareli como importante feedback na produção do disco. “Sem ela eu teria ficado bolado com uma série de coisas nesse disco. Receber um feedback de confiança e de alguém que tem uma visão ampla, e que também é artista, fez toda a diferença para eu ficar tranquilo com esse lançamento.”
Um movimento arriscado, porém, certeiro de Coronel nesse disco foi a parte 3 para sua carimbada faixa “Afro Samurai” com participação de Cassol. Dessa vez variando para o boombap e trazendo uma roupagem nova para uma temática que já é clássica em sua carreira, Coronel conseguiu surpreender mais uma vez na letra e no beat. Em entrevista, Coronel explica: “os instrumentos orientais tem um som muito especial, e causam uma sensação diferenciada em quem ouve. Infelizmente, é pouco usado pelos produtores aqui do Brasil mas eu particularmente gosto muito”. Pode saber que nós, ouvintes, apreciamos muito também!
Os pontos fortes do disco ficam para “Intro”, “Kimbanda”, “O Rap Nacional Não Morre”, “MK 2.0”, “Âmago”, “Deus do Undeground (Outro)”. Inclusive, “MK 2.0” tem um dos melhores versos de abertura do disco (além de contar com um instrumento no beat que parece ter vindo de música oriental também): “ouvi os álbuns que o povo do mainstream lançou, é mó sequela / tenho mais lírica que o álbum inteiro deles que é à prova de favela”.
Se você ainda não ouviu esse petardo sonoro é hora de ir atrás e conferir. Coronel sempre vem com linhas e beats pesados que são um caso a parte no rap nacional. Vamos ficando por aqui. Câmbio, Oganautas!
-Cheio de raiva e referências: Conheça o FRENESI de Coronel!
Gustavo Marques
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