Maloka Viva é o terceiro audiovisual do EP de estreia solo de Ravi Lobo, Shakespeare do Gueto (2022) e a missão segue a mesma!
Ravi Lobo não é um driller, segue sendo um dos MC’s da cidade de Salvador que pode transitar pelo dancehall, trap, boombap, drill, grime, etc e recentemente se apresentou com os mestres do Skanibais. Nem toda produção oriunda do rap é algo que faz sentido pro povo preto de onde ele emanou originariamente e certamente não é algo necessário enquanto mera produção musical. Dentro do mercado, existem produtos de diversas qualidades, alguns inclusive feitos para adoecer.
Neste ano de 2022, O MC da linha 8, bairro da Liberdade estreou com seu EP solo – Shakespeare do Gueto – após 10 anos de caminhada intensa com o Rap Nova Era (junto a Moreno e DJ Kbça). Uma década de atividades marcantes dentro da cultura Hip-Hop, com diversas ações culturais e políticas dentro dos favelão de Salcity, da tradição das festas feitas no dia das crianças à distribuição de toneladas de alimentos, durante a pandemia.
Uma trajetória desta grita aos ouvidos e fixa-se na percepção visual de quem entra em contato com a arte ou com a pessoa do artista Ravi Lobo. Pois, fica bastante evidente que não estamos diante de um jovem deslumbrado com visualizações e com a possibilidade do estrelato. Além de MC, o artista é marido e um daqueles pais que penteia o cabelo da filha, que cuida realmente.
Por esses motivos todos, já no lançamento do premiado audiovisual de “Shakespeare do Gueto”, ao se expressar dentro de um estética musical que tem um aspecto de violência inerente às suas origens, ele rimava:
“Lacoste não compra postura, meu gueto precisa de amor, ao invés de furar viatura meus pivete vão virar dotô”
Esse verso vem após uma sequência, um verdadeiro dilúvio de ódio poético, onde o MC narra o perigo de caminhar constantemente no fio da navalha que é a vida do crime. Uma consciência fruto da vivência de que este é o caminho relegado aos nossos, fez e faz com que Ravi busque sempre que as nossas favelas, nossas quebradas, que a nossa Maloka Viva.
No clipe citado acima, a entrega do menino no fim das contas era uma chave? E o audiovisual se encerra com Lis – sua filha – cantando. A chave, uma delas, certamente é a renovação e a continuação da vida em nossas comunidades. A luta para que mães e pais não enterrem seus filhos, quebrando assim a ordem natural da vida.
Ravi tem expressado o seu cuidado e apreço com a juventude em seus últimos clipes. Prova disto é que essa ideia também foi muito bem expressa como leitmotiv audiovisual no seu videoclipe seguinte “Manda Buscar” feat Cronista do Morro. Ali vimos, o próprio Ravi e a sua criança interior, em uma festa na piscina, com doces e a criançada em volta, muitos sorrisos em contraposição a postura séria que a noite, os corres do dia a dia, e a vida de modo geral nos exigem.
Neste novo lançamento, há um corte geracional que é fundamental ser compreendido, pois segue sendo a parte contra a qual Ravi Lobo luta em suas músicas, com a sua arte. Saem as crianças, as participações e o MC é focalizado em um beco dentro da quebrada com uns meninos bons, armados, fazendo a escolta enquanto ele segue pelas vielas cantando.
O diretor Ramires focaliza os pés do artista. O clipe é feito de planos em movimento pela complexa geografia de nossas favelas. Por mais que se utilize de imagens violentas, que intimidam como neste novo audiovisual, não é difícil perceber que não existe aqui nenhum traço de apologia ao crime, a intimidação é crítica e opera em termos simbólicos facilmente conectados ao restante de sua obra.
Os atores utilizados servem neste contexto e em comunicação com os clipes anteriores, assim como com a essência do EP, para ilustrar com cores fortes o atual contexto criado pelo nosso estado genocida. Não é, ou não deveria ser segredo para ninguém que a política de combate às drogas é a verdadeira responsável pelo crescimento do tráfico de drogas. E quase que sem cortes, o que este novo clipe nos apresenta é a juventude negra, o seu abandono, a sua cooptação e a sua preparação para o abate.
O audiovisual de Maloka Viva, desta vez ficou a cargo do Ramires AX que se encarregou de toda a parte de direção e roteiro, em uma produção assinada pela UGangue e Em Quadrado Audiovisual.
Assista:
-Maloka Viva, novo audiovisual de Ravi Lobo segue puxando a matilha!
Por Danilo Cruz
Danilo
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