Thiago Elniño soltou seu disco Correnteza (2021) banhando-se nas fontes ancestrais africanas, epistemológica, musical e poeticamente

Unidade, redenção e renascimento afrikano: a correnteza. Tais palavras marcam um lugar de agência e localização no rap produzido pelo artista Thiago Elniño. O rapper fluminense lançou nas plataformas digitais o terceiro álbum da carreira intitulado, Correnteza. O álbum assentou no aiyê 11 faixas e um filme sobre a música “Dia de Saída”, canção em parceria com o músico pernambucano Zé Manoel.
Inspirado no provérbio africano “a água sempre encontra seu caminho”, Thiago Elniño nos convida a entrar em sintonia com nossa feminilidade, fecundidade e riqueza. Afinal, as águas na espiritualidade africana ou afrodiaspórica, principalmente yorubá é onde vibra as potências das àyabàs. A importância das águas nas limpezas espirituais, encantamentos e prevenções de doenças surgem nas canções como caminho para cura, dengo e futuridade. Por isso, o álbum torna-se àgbos, amacís e omierós para saúde pública coletiva do povo negro.
O chamado das canções nos orientam que “precisamos ser correnteza”, mas de que forma seremos essa correnteza? Acredito que esta questão elaborada por Thiago Elniño, encontra-se na fluidez das canções que surgem como afluentes para formar um grande rio na última faixa do álbum que é intitulada de “Odú” que tem a participação do cantor e compositor, Caio Prado.
A palavra “Odú” numa tradução simplista aos códigos ocidentais seriam “caminhos/destinos”, e a partir de Ifá conseguimos “ler” esses caminhos (256 no total). Cada homem e mulher possuem um destino/missão para cumprir no Aiyé. E é exatamente a esse destino/missão que somos convocados enquanto povo afrikano em diáspora, ou seja, “caminha melhor o povo que tem fundamentada toda tua missão em valores onde a dignidade humana é ponto crucial para a evolução, lente que amplifica a cosmovisão”.
Entender o fluxo das águas numa correnteza, é aprender o movimento de sankofa, porque “um rio que esquece sua fonte logo seca e morre”. Pensar no álbum através desse outro provérbio africano e do movimento de sankofa é notar a importância da ancestralidade, pois: “muita gente teve que ser correnteza” para chegarmos aqui. Portanto, o rapper resgata a ideia de “Njia” enquanto uma ação coletiva do povo afrikano para valorização da cultura africana e dissociação das epistemologias eurocêntricas que o mesmo cita na música “Dia de saída”, ao versar “de quem traz a base na filosofia grega/e os costumes ancorados no ideal cristão”. Desta forma, a “Njia” torna-se o Caminho (“Ódu”) e a ideologia do pensamento vitorioso (“Vampiros Veganos part. Luciane Dom”).
Para não esquecer essa fonte da qual nasce o rio que forma essas correntezas, o álbum traz as influências do afrobeat de Fela Kuti, do samba e das músicas de terreiro. Essas influências são formas de honrar a memórias dos Okus que foram correnteza para que esse saber/tecnologia chegasse até nós atualmente, e continuar essa água seja como influência nos beats é fundamental para que lembre-se, que um dia será um ancestral”.
As 11 faixas do álbum “Correnteza” deságua no movimento da sua poesia, na verdade da sua encantaria, nos conectando aos caminhos de valores africanos que a maafa nos desloca e desorienta. Apesar das lágrimas e das dores que vazaram no nosso rio ancestral e continuum, nós povo africano em diáspora iremos abraçar essas águas de afetividade e dengo para renascer enquanto raça poderosa que tem firme seu destino e sua unidade.
Raça primeiro!
-Thiago Elniño em “Correnteza”, um rio que não esquece sua fonte
Por Alan Felix
Danilo
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